quarta-feira, 20 de abril de 2011

Beleza no Corpo, Beleza na Alma.



O desenvolvimento emocional é o foco central dos estudos psicanalíticos. Toda idéia proposta dentro deste vértice, compreende um curso de desenvolvimento desde as pulsões mais internas do aparelho psíquico até a capacidade mais nobre de simbolização. O psicanalista indiano Wilfred Bion (1897 –1979), em sua obra Atenção e Interpretação, impressa no Brasil, pela Imago editora em 1972, nos propõe a ‘Grade’. Uma sugestão de tabela gradual onde se encaixaria certa medida de evolução do elemento contido no psiquismo.  Fica claro que, mesmo que sejam os estudos, voltados para algum absurdo numa ocorrência patológica, ainda assim, esse caso é estudado a partir de certa referencia numa idéia de saúde mental.  Alias, se a saúde mental é justamente um estado fluido de espírito, que permite transpassar a vida com certa naturalidade, se expandindo através das realizações, logo nos vemos novamente na perspectiva do desenvolvimento emocional.
 Dr. Robert Rey, cirurgião plástico das estrelas

de Hollywood. Fatura fortunas.
Não é novidade alguma que o desenvolvimento emocional depende da capacidade simbólica. Cada simbolização que se tornou possível, tem como resultado a construção, estruturação, desenvolvimento e promove a saúde do ego. Através da mãe simbolizada é que o bebê pode tolerar a ausência desta nos períodos em que não pode estar por perto. O símbolo se faz útil quando o bebê não pode vê-la ou sentir sua presença física. Na medida em que vai simbolizando o mundo externo, também alarga a simbolizaçãodo eu.


Numa perspectiva de ser humano, que tenha como pressuposto um corpo e além desse corpo algo que transcende ao próprio corpo físico,se pronunciando enquanto mente (parte do eu que não pode ser confirmado pelos órgãos dos sentidos), iniciamos então a apreciação do intuito desse trabalho. A super valorização da beleza física. Seguindo essa linha de raciocínio, tomamos aqui o corpo como forma material ou concreta do eu. A parte do eu que se encontra no nível do real sensório. Aquilo que se pode constatar com o aparato sensorial, ou seja, com os órgãos dos sentidos. Pois bem, se estivermos de acordo que o símbolo é aquilo que sustenta o vínculo que se tem com a realidade, na situação de impossibilidade da confirmação sensorial, logo, a não aceitação da forma física ou do corpo como ele é, coincide com certa falha na capacidade de simbolização do próprio eu.
No processo que conduz a simbolização, o desejo é reduzido e a urgência é acalmada. Isso acontece, em decorrência do ambiente interno que pode contar com a imagem simbolizada. Por outro lado, onde não existe simbolização, a necessidade da confirmação da realidade é urgente. Sem o símbolo, o eu não funciona sem a confirmação do real. Quando trazemos de volta a questão da estética corporal e o belo concentrado no corpo, percebemos que onde o corpo não corresponde com o desejo, ele não é aceito pelo próprio eu. A falha na simbolização do corpo promove a intolerância quanto à própria mudança natural que o corpo físico naturalmente experimentará, conforme os anos passam.  Um modelo de perfeição é então, instalado num objeto idealizado, eleito através da preferência do outro. Por alguma razão percebeu-se que ter certas formas físicas, serviria de motivo para o olhar e a escolha do outro.

Metamorfose de Narciso de Dalí Em 1937, 
tela a óleo, que faz parte da exposição da Tate Modern. 
(Copyright: Dalí. Fundació Gala-Salvador Dalí, DACS, 2007).
Na primeira infância o olhar desejoso da mãe funciona como um espelho para o bebê. Enquanto mama, ele olha fixamente nos olhos daquela que naquele momento vive pra ele. O bebê vive a experiência do que Sigmund Freud (1856 – 1939) denominou em 1914, em seu livro ‘Sobre o Narcisismo: uma introdução’, de narcisismo primário.
Freud utiliza-se do mito de Narciso, que era filho do deus-rio Cephiso e da ninfa Liríope. O adivinho Tirésias orientou a mãe que, Narciso teria vida longa desde que não contemplasse a própria imagem. O narcisismo primário é certa etapa do desenvolvimento emocional que deve ser experimentada da forma mais efetiva possível, visandoà saúde do desenvolvimento da mente. É a partir dai que ocorre a simbolização do desejo do outro, que a partir da simbolização já não terá que ser confirmado com tanta urgência e sem duvida com menor frequência.O reconhecimento e valorização angariados nessa experiência ensinam e capacitam o bebê a reconhecer-se a si mesmo. O eu aprende a valorizar-se e logo se liberta da exclusividade da aprovação do olhar do outro.
Quando Freud, em sua importante obra, intitulada O Ego e o Id, escreve: “o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal” (Freud, 1923:39), ele fornece um ponto de partida para a construção de uma visão estrutural da mente e faz isso partindo da idéia do corpo. O bebê reconhece seu próprio corpo a cada toque carinhoso.

Albert Camus (1913-1960)
Bem, quando falamos do culto ao físico independente da qualidade da alma que o preencha, falamos de um modelo primitivo de relação que quando perdura coloca em risco o desenvolvimento emocional. Isso pois, toda supervalorização do corpo físico implica na desvalorização da alma. A tarefa dentro dessa perspectiva prisioneira do olhar do outro, é a de se tornar cada vez mais atraente para ser escolhido e mantido por ele, já que parece não existir capacidade de responsabilizar-se por si mesmo e muito menos a possibilidade de se manter sem a aprovação do outro.
Assim, construímos nosso conceito de beleza a partir do desejo do outro. Antes de tudo, nessa perspectiva superficial, estamos expostos ao nosso próprio destino, sem recursos, impossibilitados para lutar contra certa ‘herança maldita’ que habita cada alma desse mundo e que foi profetizada por Albert Camus (1913-1960), em seu O Homem Revoltado, publicado originalmente em 1951. Camus chama a atenção para o fato de que, ainda assim, ‘O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é’. Algo que requer constante manutenção reflexiva em prol da tomada de consciência, o que coincide com a saúde mental.
No vértice do desenvolvimento saudável do plano emocional, o caminho deve seguir um curso de transformação vincular. Na expansão simbólica da mente, a realidade no nível sensório é abandonada para que haja um posterior reencontro. No entanto, agora com outro modelo de vínculo, mais amadurecido e menos exigente.O que antes era impulsionado exclusivamente pela necessidade de receber reconhecimento e cuidado, agora é permeado pelo respeito e enriquecido pela gratidão.
Também na relação com o corpo, as exigências diminuem e o reconhecimento, a valorização e o respeito ocorrerão, conforme a expansão da capacidade simbólica.

Bion, W. R. (1979). Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Camus, A. 2008. Rio de Janeiro: Editora Record.




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866  

renatodiasmartino@hotmail.com

5 comentários:

Jacqueline disse...

Adorei o texto!
Em tempos de anorexia, bulimia, obesidade, academias, botox, cirurgias plásticas... A abordagem psicanalista nos leva para uma boa compreensão de tudo isso...

Prof. Renato Dias Martino disse...

Muito grato, querida Jacqueline!

Glau Monteiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Glau Monteiro disse...

Ai que dor, quando não se está preparado!!!
Gostei muito do seu texto, alguns momentos sublimes e de extrema importância, como o olhar do bebê que fica mágico num instante e é reconhecido por nós mães que se perde de significado porque não é explorado, nunca tinha lido algo que explicasse de fato!Obrigada!

Cris Blanca disse...

O TEXTO É EXCELENTE E NOS AJUDA A REFLETIR SOBRE AS IDÉIAS QUE NOS IMPÕEM ATRAVÉS DA MÍDIA. SÓ O MAGRO É BONITO. SÓ O JOVEM É BONITO. A MULHER TEM QUE PARECER UMA BARBIE, ETC. QUEM DEFINIU ISTO? QUEM DISSE QUE TODOS PENSAM, SENTEM OU SÃO ASSIM?
É REALMENTE QUESTÃO DE MATURIDADE E SABEDORIA. UMA PESSOA FELIZ, DE BEM COM A VIDA É UMA PESSOA BONITA. A BELEZA VEM DO INTERIOR PARA O EXTERIOR.
PESSOAS SEM ESTILO PRÓPRIO, FIGURAS ESTEREOTIPADAS, FUTILIDADE... ISSO É O QUE A MÍDIA DIFUNDE. MUITO POBRE... PIOR QUEM SE DEIXA MANIPULAR, COITADOS...