quinta-feira, 9 de abril de 2015

Padronização - Do Saber e do Ser

Enquanto apoiados num pressuposto de que a sanidade mental é estabelecida pelo grau de influência mútua que o sujeito pode ter com a realidade, por meio da consciência dos fatos, então poderíamos afirmar que o nível de organização mental não pode ser mensurado de outra maneira que não seja através da capacidade de criação e manutenção dos vínculos afetivos. Isso concorda com a hipótese de que quanto melhor for a qualidade dos vínculos que se possa manter, tanto maior será a chance de se estabelecer uma organização dos conteúdos da mente. No contato com o outro o eu nutre-se de afeto e sinceridade. Isso tendo afeto e sinceridade como dois fatores fundamentais na organização mental. Ora, pelo amor verdadeiro do outro é que se aprende a amar a si mesmo de verdade e da mesma maneira, é pela verdade afetuosa do outro que descobrimos nossas próprias verdades.

Essa organização mental quando bem estruturada, por sua vez, proporciona a manutenção saudável dos vínculos que se tem, assim como propicia novas vinculações de qualidade. Além disso, uma boa organização mental é o que pode prevenir a incidência de ligações de baixa qualidade, como prováveis estabelecimentos de relações que possam reunir características de alienação, em convites sedutores de satisfação imediata, encobertas por dissimulações e sem propriedades cordiais nutridoras de afeto.

Bem, se esse pressuposto faz sentido, então poderíamos afirmar que só é possível reconhecer com alguma clareza as características do funcionamento mental de alguém, através da qualidade do vínculo de amor e a verdade que se possa ter com ele. Digo “alguma clareza”, pois, por mais que se possa imaginar saber sobre as coisas que se encontram para além do corpo físico, ainda assim estaremos diante de um terreno sempre incerto, cheio de dúvidas. Tratamos da dimensão do ‘ser’ que está em constante transformação, diferente do saber que necessita de dados precisos.

Ainda assim, as pesquisas nas ciências psiquiátricas se encontram engajadas na tarefa de desenvolver e aprimorar modelos de escalas medidoras da saúde mental de adultos e de crianças, muitas vezes nas mais tenras fases da infância. Dispõem dessas catalogações psicopatológicas para que sejam utilizadas por profissionais dos quais, mesmo sem a possibilidade de estabelecimento de vínculo ou mesmo a mínima convivência com o sujeito paciente, possam se sentir seguros em diagnosticá-lo. 
Entretanto, além disso, essa catalogação que assegurada por um suposto saber que trás tamanha sensação de precisão, não se reserva simplesmente ao diagnóstico, mas se estende na administração de medicamentos que promovem enormes e profundas alterações no funcionamento do organismo e da mente. Administrações de substancias químicas que provocam alterações de tal magnitude que instalam grande dificuldade para aquele que por algum motivo decida deixar de usá-las.

No entanto, por maior que seja a pretensão que se possa ter, caracterizada nas tentativas de invenção de escalas medidora e registros do conjunto de informações da saúde mental, ainda assim, nada pode ser feito para isso através do recurso racional que não terminem um grande engodo. Equívoco esse que pode gerar inúmeras consequências danosas. Portanto, o apego que se possa cultivar em métodos de padronização e rotulações das manifestações emocionais, dificultará a dedicação aos ensaios de capacitação para se reconhecer, respeitar e acolher as inúmeras diversidades das experiências emocionais. Isso levando em conta o tempo que cada um de nós tem no que se refere aos processos do desenvolvimento emocional. 
Prejudicada se encontra a chance de vinculação saudável que possa servir de ambiente tranquilo o bastante para que haja algum desenvolvimento. Certo ambiente emocional suficientemente saudável que comporte a transitoriedade dos conteúdos mentais, que livre de ameaças procurarão expandir-se.
Longe da padronização, aquilo que se encontra na dimensão emocional, enquanto componente da concepção na totalidade do sujeito, apresenta uma conjunção com extensões anteriores e menos evoluídas. Num estado mais bruto, isso que hoje se tem como um pensamento simbólico se apresentava antes como um elemento desconexo da consciência. Essa ordem mais imatura de elementos reúne características da intolerância e resolve sua existência através de certa lei da satisfação imediata das necessidades, assim como nos ensinou Freud quando propõe o processo primário do funcionamento mental.
Nessa dimensão a proposta das analogias é impraticável, sendo que nada é admitido como satisfação se não coincidir de maneira idêntica com a expectativa que gera desejo. Nesse nível dos processos mentais, a realidade incide naquilo que se pode alcançar pelos órgãos dos sentidos e existe para satisfazê-lo de alguma forma, estando excluído do funcionamento mental aquilo que não se poder confirmar dessa maneira.
Por outro lado a dimensão emocional tem também uma extremidade de abertura onde a tendência à expansão se profere. Um ponto de expansão que direciona-se para a busca da concórdia numa ampliação para o pensamento sublime que encontra-se enriquecido do amor. Amor esse que ungidos de verdade, liberta.
A astronomia contemporânea propõe que isso que chamamos o universo é um revezamento de implosões e explosões. Num constante processo alternado de encolhimento na ordem da contração atômica e de alargamento no âmbito da amplitude cósmica. Recolhimento e expansão presentes também nas formulações psicanalíticas da pulsão de vida e pulsão de morte. Na cultura védica esse movimento se trata da inalação e exalação de Brahman, em ciclos chamados Yuga, termo que coincide com o conceito grego do aion (eon), e acontece na ausência de qualquer parcela de tempo (eterno) ou de espaço (infinito).
A mente se encontra nessa mesma ordem de movimento e por conta disso não pode estar apegada à modelos preestabelecidos por muito tempo sem adoecer. Quando a mente busca a expansão deve se encontrar livre de interferências toxicas e protegida pelo acolhimento para que isso aconteça de maneira saudável. A verdade de uma mente em expansão não pode estar catalogada num livro de psiquiatria. Na realidade, a leitura de livros só pode ajudar quando está sendo uma extensão do trabalho de reconhecimento do eu, e isso só ocorre através das experiências ocorrentes nos vínculos afetivos. O processo de psicoterapia pode ser uma excelente oportunidade para isso, se puder contar com o encontro entre alguém que se encontre sendo realmente capaz de se dedicar à experiência de expansão da mente e outro alguém bem capacitado para a colhê-lo nesse delicado processo.
No entanto, temos inúmeras técnicas seja da medicina ou mesmo da religião para dizer o que um sujeito que sofre de uma dor psíquica deve fazer ou deixar de fazer, entretanto o acolhimento que possa trazer um recurso de “fazer juntos” é muito raro.




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodmartino@ig.com.br

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

Um comentário:

Ana Raquel disse...

Esse trecho ficou muito bom! [...] Bem, se esse pressuposto faz sentido, então poderíamos afirmar que só é possível reconhecer com alguma clareza as características do funcionamento mental de alguém, através da qualidade do vínculo de amor e a verdade que se possa ter com ele. Digo “alguma clareza”, pois, por mais que se possa imaginar saber sobre as coisas que se encontram para além do corpo físico, ainda assim estaremos diante de um terreno sempre incerto, cheio de dúvidas. Tratamos da dimensão do ‘ser’ que está em constante transformação, diferente do saber que necessita de dados precisos. Abs, Raquel.