Mas, afinal, de que outra
forma seria possível um encontro real com nossas verdades que não se
fundamentasse através da experiência de aprofundamento no eu? Isso se torna uma
afirmação se concordarmos que não é possível reconhecer nada, permanecendo na
superfície.
A procura pelo autorreconhecimento
inclui aprofundar-se nas áreas mais íntimas do eu e assa experiência é sempre
geradora de emoções densas. Essas emoções suscitadas no reconhecimento do si
mesmo geram, dúvidas e incertezas, que obrigam uma incursão introspectiva. Esse
feitio introspectivo da experiência provoca um impreterível afastamento das
requisições do mundo externo e das exigências da sociedade.
Bem, isso nos leva a cogitar
que as pessoas em geral não apreciam o curso desse processo, por conta do
afastamento do convívio social durante sua transcorrência. No entanto quanto
mais houver respeito pelo tempo (imprevisível) que leva o processo dessa experiência
emocional, tanto antes ela se elaborará. Em seu trabalho SOBRE O INÍCIO DO
TRATAMENTO que faz parte das NOVAS RECOMENDAÇÕES SOBRE A TÉCNICA DA PSICANÁLISE
I, Sigmund Freud (1856-1939) lembra que:
![]() |
| Sigmund Freud (1856-1939) |
"Os pacientes destinados
a serem mais bem acolhidos são aqueles que lhe pedem para dar-lhes saúde
completa, na medida em que esta é atingível, e colocam à sua disposição tanto
tempo quanto foi necessário para o processo de restabelecimento. Condições
favoráveis como estas, é natural, devem ser esperadas apenas em alguns
casos." (Freud, 1913)
![]() |
| Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979) |
Por conta do estado de vulnerabilidade
da personalidade durante essa experiência passa a ser prudente viver esse
processo devidamente resguardado.
Para Wilfred Ruprecht Bion
(1897 - 1979), a função do analista de dar continência ao paciente em análise,
deve ser ativa, numa capacidade de acolher para que possa transformar. Por meio
do emprego do pensar os pensamentos, as experiências emocionais que inicialmente
são intoleráveis no processo de autorreconhecimento passam a ser passiveis de
transformação em experiências assimiláveis, pois a transformação lhes confere
uma significação.
Na proposta clínica de Donald
Winnicott (1896-1971), o analista deve propiciar a regressão no sujeito
analisado e isso se dá através de uma relação em que o analista deve
desenvolver a capacidade de sustentar, dar auxílio e apoio na terapia. Essa prática
do analista, é inicialmente um modelo análogo a função da “mãe suficientemente
boa”, desempenho que promove o desenvolvimento da personalidade no filho,
importante em todas as relações que o sujeito exercerá futuramente.
Dessa maneira, mantido com cuidados, num
ambiente acolhedor, que possa contar com vínculos emocionalmente saudáveis,
irrigados de sinceridade e afeto. Isso para que a tentativa da busca por si
mesmo possa ser gerida de maneira profícua. Nessa função a psicoterapia deve
revelar-se como recurso muito interessante, por propiciar um local
emocionalmente saudável, livre de críticas, tentativas de convencimento,
julgamentos ou de elogios bajuladores.
"Cada um está cônscio de
que existem certas coisas em si que não estaria absolutamente disposto a contar
a outras pessoas ou que consideraria inteiramente fora de cogitação revelar.
São elas suas ‘intimidades’. Essa pessoa também não tem qualquer ideia – e isto
representa um grande progresso no autoconhecimento psicológico – de que há
outras coisas que alguém não se importaria de admitir para consigo: coisas que
alguém gosta de ocultar de si próprio e que por esse motivo interrompe e
expulsa de seus pensamentos se, apesar de tudo, vierem à tona." (Freud
1926, em A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA)
Por outro lado, quando
circundado por um ambiente hostil e exigente o processo se torna perigoso e
muitas vezes ficará irrealizável. O olhar invasivo do outro pode provocar
estragos irreparáveis num sujeito que esteja exposto, durante o trabalho
depressivo do autorreconhecimento. Assim, a introspecção necessária para o
processo de autorreconhecimento se tornará um pesadelo de desespero, quando
cercado de olhares agressivos.








Nenhum comentário:
Postar um comentário