Na
mitologia grega, Eros é o deus do amor, da paixão e do erotismo, responsável
por unir os seres e inspirar o desejo. Eros é o personagem usado por Sigmund
Freud dentro das formulações psicanalíticas para ilustrar a tendência da pulsão
de vida no movimento da libido (substrato da pulsão). “Ocorrendo do interior
para o exterior, eclodindo para fora, na ligação com o mundo, com o outro
(objeto), e também agindo no mundo interno, na integração das partes do eu”
(MARTINO, 2024). Propicia a integração com o outro e entre as partes do eu.
É na
ligação afetiva que é gerado o novo. A vida se propaga pelos vínculos. Wilfred
Bion nos fez recordar o fato de que “A unidade biológica é o casal” (BION,
1977). A pulsão de vida favorece o processo de simbolização. A palavra símbolo
deriva do termo grego symbolon, formado por syn- (junto ou com) e
ballein (lançar, atirar ou juntar). A tradução literal é "lançar
junto" ou "unir".
Por
outro lado, na ausência da libido, quem atua é a pulsão de morte, Thânatos – na
mitologia grega, tendência paralela a Eros e cuja função é conduzir ao estado
inorgânico. “Como num corpo sem vida que tende a se decompor, a ausência da
libido provoca a fragmentação das partes” (MARTINO, 2024). Thânatos separa as
pessoas, assim como vem a desintegrar as partes do eu. No funcionamento
saudável da mente, as duas tendências trabalham paralelamente num balanceamento
harmônico. No entanto, na predominância da pulsão de morte, ou seja, na
privação da libido, ocorre o inverso da simbolização: o que se manifesta é a
diabolização. O termo diabolizar deriva de diabo, que vem do grego diábolos.
Essa palavra é formada pela junção de dois elementos: diá (prefixo que
significa "separação") e ballein (um verbo que significa
"lançar" ou "jogar").
A
pulsão de vida atinge sua forma mais nobre na experiência da concórdia. Porém,
o fato de se concordar ou discordar não diz respeito a quem tem a razão ou quem
não a tem. “Antes de tudo, falamos sobre a experiência da concórdia, onde
con-cor-dar diz respeito a estar junto de coração. Quando não pode existir tal
experiência afetiva, arma-se então um eterno debate improdutivo, onde a
arrogância impede qualquer que seja a concordância entre aqueles que acham que
têm a razão” (MARTINO, 2018). A saber, a razão está subordinada ao coração.
Tanto no âmbito das ideias quanto no funcionamento do organismo, no corpo
físico. O cérebro precisa do coração para funcionar. Sem irrigação sanguínea o
cérebro não pode funcionar, e quem bombeia o sangue no corpo é o coração.
A
concórdia é o que rege o ambiente de afinidade onde há respeito quanto ao
limite das partes. “Assim como na semântica, a palavra afinidade vem do latim affinis,
“vizinho, contíguo”, de finis, “fronteira, limite, fim”” (MARTINO,
2025). Num ambiente de afinidade, as partes são capazes de reconhecer e
respeitar seus limites, o que admite duas coisas existirem sem que uma anule a
outra, numa fusão (confusão) uma com a outra. A confusão é uma característica
peculiar do ambiente pobre em afinidades, onde as pessoas são forçadas a
conviver por qualquer outro motivo que não seja a concórdia. Na realidade, ser
obrigado a conviver num ambiente privado de afinidade e repleto de discórdia me
parece ser uma forma silenciosa de violência à qual o sujeito é submetido sem
perceber que está sendo violentado. A influência nociva do ambiente pode vir a
ser brutal e por vezes desastrosamente silenciosa, assim como a influência de
um ambiente rico em afinidade e nutrido de concórdia pode ser saudável.
Quem
trabalha na peixaria vai ficar com cheiro de peixe, mesmo se não vier a tocar
em nenhum peixe. Por outro lado, aquele que trabalha na perfumaria, no fim do
dia, estará inevitavelmente perfumado. Essa é a influência do ambiente. Aquilo
que te circunda te influencia, independentemente de qualquer medida que se
possa tomar. Não é necessário participar, basta estar inserido no ambiente e
ele já estará agindo.
REFERÊNCIAS
BION, W. R. Conversando com
Bion: quatro discussões com W. R. Bion (1977): Bion em Nova York e em São Paulo
(1980). Rio de Janeiro: Imago, 1992.
MARTINO, R. D. Acolhida em
psicoterapia. São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2018.
MARTINO, R. D. Pensando melhor
a psicanálise: do saber ao estar sendo. São José do Rio Preto: Vitrine
Literária Editora, 2024.
MARTINO, R. D. Esboço de
expansão: escolhas, vontade e desejo. Rio de Janeiro: Paula Editorações, 2025.
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