Hoje temos uma grande oferta de cursos de formação para psicanalistas, muitos deles em um período muito breve. Nesse ensaio, gostaria de trazer alguns aspectos fundamentais que envolvem esse tema. A vasta oferta de cursos de formação traz consigo grande probabilidade de baixa qualidade no que se oferece. No Brasil, a psicanálise é considerada uma ocupação de livre exercício. Não é uma profissão regulamentada por lei específica ou por conselho federal próprio. Segundo a lei brasileira, a prática da psicanálise não depende de um diploma universitário, nem de registro em conselhos como o de Medicina ou Psicologia para ser exercida. Por outro lado, no Brasil abriu-se a possibilidade de cursos superiores na área, como o “Bacharelado em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais”, reforçando o caráter acadêmico e teórico e colocando a psicanálise numa posição mais distante da habilitação prática clínica.
O QUE PENSAVA FREUD
Esse fato traz à baila o olhar questionador de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao modelo que via nas universidades da época: “ministradas de forma dogmática e puramente teórica”. E complementa: “... é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo.” (Freud, 1919) Freud acreditava que deveria se ensinar “algo sobre” a psicanálise na universidade (teoria, conceitos, relações com outras ciências como biologia, mitologia, sociologia etc.), sendo isso útil e benéfico. No entanto, questionava a possibilidade de se aprender “algo da” psicanálise (no sentido profundo, experiencial) na universidade. A questão fundamental é a da institucionalização da psicanálise, seja ela acadêmica (na universidade) ou em qualquer outro formato de instituição. A palavra “instituição” tem na sua origem o significado de “definir, estabelecer”, que vem do latim instituere. Bem, se falamos de uma psicanálise real, esta deve, de maneira adequada, ser constituída e não meramente instituída. A palavra “constituir” vem do latim construere, “construir”, formada por com (“junto”) + struere (“empilhar, montar”). A verdadeira psicanálise é constituída (construída internamente), e não instituída por uma estrutura externa. Em 1919, Freud expressou que a formação do psicanalista não se adequa ao modelo acadêmico, já que a formação de um analista não tem um “começo, meio e fim” como uma graduação tradicional. Além disso, para que alguém se torne psicanalista, é imprescindível que seja, antes, dotado de coragem, responsabilidade e, fundamentalmente, de uma determinada atitude. Pressupõe-se, com isso, que o aspirante a psicanalista seja capaz, através de sua atitude, de corajosamente se responsabilizar pela organização de seus estudos teóricos, sem depender de uma exigência externa vinda de uma instituição que cobre sua produtividade e o teste sobre o que aprendeu nas aulas.
MÉTODO SUPEREGÓICO
O método de ensino acadêmico atual coincide com um modelo superegóico, que tende a levar o sujeito a decorar os conteúdos apenas para se livrar da reprovação. Um método fundamentado num ideal pretendido e preestabelecido num “deveria ser”. Aquele que criou a psicanálise, assim como grandes pensadores posteriores, nos orienta com muita clareza quanto ao tripé psicanalítico constituído pela análise pessoal, pelo estudo teórico constante e pela supervisão de um colega mais experiente. Um psicanalista nasce no divã e não numa sala de aulas. O primeiro passo para aquele que pretende vir a praticar a psicanálise é a dedicação à sua análise pessoal, pois, antes disso, tudo fica deveras obstruído. A teoria psicanalítica não é tão difícil de se compreender quanto é difícil de admitir em seu conteúdo. Isso esbarra diretamente em questões mal elaboradas do sujeito que pretende estudar psicanálise. Sendo assim, tentar estudar psicanálise sem antes ter se dedicado à sua análise pessoal, na melhor das hipóteses, não conseguirá apreender verdadeiramente o que estuda, muitas vezes se desmotivando e desistindo por conta das resistências. Ou, ainda, corre o grande risco de voltar o conteúdo do seu aprendizado contra si mesmo e contra os outros. As experiências vividas na análise pessoal encontrarão, nos estudos teóricos constantes, uma maneira de serem nomeadas. Dessa forma, os conceitos vão se associando às experiências vividas, constituindo um sistema teórico rico de vivências. Na constituição de uma verdadeira psicanálise, isso deve ocorrer respeitando o tempo de cada um, e não exigindo que se cumpra um currículo preestabelecido e institucionalizado. Diferentemente do que se faz numa universidade, que é justamente o oposto: ensina-se a teoria, cobra-se por meio de testes o que foi ensinado e, depois, tenta-se aplicar na prática.
MODELO
Wilfred Bion (1897–1979) propõe, em 1962, a ideia da função alfa, na qual a mãe recebe os conteúdos caóticos e desconexos do bebê — aos quais denominou elementos beta —, os contém, os organiza, irriga-os de afeto e os devolve ao bebê em formato de elementos alfa, agora prontos a serem pensados e ligados aos outros elementos do mundo interno. Quando a mãe exerce a função alfa, ela não está simplesmente dando manutenção ao funcionamento emocional do bebê, mas fornecendo um modelo que será internalizado por ele, o qual aprenderá, com cada experiência afetiva junto da mãe continente, a exercer a função alfa com seus próprios elementos e, posteriormente, se qualificará a fazê-lo com o próximo. Esse mesmo modelo acontece na prática clínica da psicanálise, onde, através das experiências com seu analista, o paciente vai aprendendo com a experiência e, mesmo que não seja sua pretensão inicial, impreterivelmente se qualificará para vir a exercer essa prática, mesmo que não venha a fazê-lo profissionalmente.
PRÓXIMO PASSO
Depois de iniciar a análise pessoal com um psicanalista com quem consiga estabelecer um vínculo afetivo saudável e de iniciar a dedicação aos estudos teóricos semanais — de preferência em grupo, onde haja um colega mais experiente orientando o percurso —, o sujeito poderá avaliar o momento em que se sinta preparado para atender seus pacientes. Para tanto, é fundamental que possa contar com a supervisão de um colega psicanalista mais experiente, que possa orientá-lo nas questões operacionais do atendimento, como manejo de agenda, horários e honorários. O suposto psicanalista que imagine já ter se formado não está, ainda, sendo psicanalista.
Referências:
BION, Wilfred
R. Aprender da experiência. Tradução de Paulo Dias Corrêa. São Paulo: Blucher,
2021. (Obra original: 1962)
FREUD,
Sigmund. “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades” (1918/1919). In:
Obras Completas, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Nenhum comentário:
Postar um comentário