terça-feira, 15 de março de 2011

Ainda Sobre o Pensar

Se existe algum sentido em se afirmar que fora do domínio da experiência não pode existir aprendizado, então temos ai o ponto de partida para se entender o processo que compreende o desenvolvimento mental, ou seja, como ocorre a expansão do pensamento. 
Na tentativa de examinar atentamente o que chamamos de ‘pensar’, estaremos cogitando sobre certa capacidade da qual o humano se gaba perante os outros animais. No entanto, esse mesmo humano ainda é muito pouco habilidoso no uso deste recurso mental. Digo isso apoiado no pressuposto de que esse mesmo humano atual que somos nós, ainda faz a maior parte das suas escolhas por motivos dos quais não puderam ser submetidos a um pensamento atido e dedicado. Faz isso por certas necessidades extremamente primárias, onde o pensamento não tem acesso. O humano escolhe sem pensar onde a urgência se pronuncia. Onde a necessidade de satisfação imediata não permite tolerar frustrações, recurso fundamental ao pensar. Num modelo muito primitivo de funcionamento mental é o modo como o ser humano contemporâneo faz suas escolhas. Mesmo assim, tentaremos aqui, fazer o possível para angariarmos o máximo de recursos nessa breve tarefa de pensar o ‘pensar’.  

A palavra pensar parte do Latim PENSAREA, que diz respeito a pesar, ou avaliar o peso. Aquilo que chamamos de ‘pensamento’ faz parte do processo de construção do espaço interno mental. Esse espaço serve à tarefa de conter os conteúdos mentais como é o caso das emoções e também aspectos colhidos na realidade. Pois bem, mas, que tipo de beneficio poderia nos trazer o exercício e aprimoramento da habilidade de pensar? Para Freud (1856-1939) o pensamento tem função fundamental no adiamento da ação, resultado do impulso. Freud escreve essa ideia num texto que serviu de inspiração para importantes pensadores da psicanálise atual que contribuíram para que o pensamento psicanalítico pudesse evoluir no que hoje se realiza. As Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental, publicado em 1911, foi uma obra que tornou claro certos conceitos dos quais, Freud lutara por anos no desafio do esclarecimento de aspectos dos processos psíquicos. Nessa obra ele escreve que, ‘o pensar foi dotado de características que tornaram possível o aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.’ O teste da realidade e os recursos criados pelo aparelho psíquico com intuito de viabilizar o confronto das fantasias com informações advindas da realidade. Assim, logo percebemos o beneficio de se expandir essa capacidade. Quero propor que pensar é também capacitar-se no desempenho da vida, no que diz respeito à realização de mundo. A criação de certo continente mental que sustente o processo do pensar sem que se entregue antes á ação.
Sigmund Freud (1856-1939)

Na verdade, quando a percepção feita através dos órgãos dos sentidos indica a necessidade de ação, a capacidade de pensar pode adiar essa ânsia. Isso até que se perceba com mais acuidade a realidade. Nesse momento o significado semântico da palavra nos orienta com grande ilustração: avaliaremos pelo pensamento, o peso das ideias para se decidir o que escolher. Essa é talvez a primeira das funções do pensamento, ou a mais básica delas. A partir da capacidade em adiar ações inicia-se então, uma serie de expansões na perspectiva dos processos mentais. 
Ora, a psicanálise nos mostrou com muita propriedade que só podemos aceitar no mundo real, aquilo que já existe no mundo interno, ou dentro de nós. Criamos espaço em nossa mente e só depois conheceremos na realidade. A capacidade de reconhecimento do mundo interno é o encontro e o reconhecimento de fantasias, medos, desejos apaixonados, ódios e tudo mais que está em nosso mundo interior. São características do incerto, do informe. Nosso mundo interno nunca é bem definido e sempre pobre de referencias da razão. Por conta disso é um terreno escuro, sombrio e cheio de ameaças. No entanto, só conhecendo nosso eu interior, que podemos distingui-lo do que está fora, o que chamamos realidade. Logo, o estado emocional do ‘eu’ (dentro) tem menor chance de se abalar na situação de ambiente emocionalmente danoso (fora), isso se estiver dedicando-se a um reconhecimento do si mesmo. O pensamento é por assim dizer, a capacitação do ‘eu’ (compreendendo o mundo interno) na ligação afetiva com o mundo (externo).
O exercício do pensar só se efetiva na experiência, como já se tomou por entendido. Experiência que compreende a ação junto do outro. O pensar é então certa capacidade que se desenvolve impreterivelmente através do vínculo com o outro. A partir da imaginação, fantasias sobre a realidade, o encontro com a verdade do outro promove o pensamento. Depende-se do outro para se pensar, mesmo que seja o outro internalizado através de uma experiência afetiva. Quando não se inclui o outro, o movimento mental não pode levar o nome de pensar, pois ainda conserva características imaginarias. Ainda se encontra como ilusão que só será quebrada na introdução da verdade externa. Dessa forma, sou forçado a depositar meu descrédito em qualquer tentativa de batizar como pensamento, experiências que não compreendam o outro, ou o encontro com a verdade do outro.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866

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sábado, 12 de março de 2011

Participação de Prof. Renato Dias Martino no Revista de Sábado TV TEM.

http://www.youtube.com/watch?v=SNeT_rhab04

Professor Renato Dias Martino fala, no programa Revista de Sábado, da TV Tem, no dia 12 de março de 2011, sobre a importância das redes sociais como mecanismo de inteiração entre as pessoas.

Prof. Renato Dias Martino
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segunda-feira, 7 de março de 2011

Curso de extensão: A ARTE COMO SIMBOLIZAÇÃO DE MUNDO.

A ARTE COMO SIMBOLIZAÇÃO DE MUNDO.

Salvador Dalí (1904 - 1989) – Sem título – Óleo sobre tela – 200 x 193cm
    
 A DIMENSÃO EPISTEMOLÓGICA E O FUNCIONAMENTO MENTAL.  PERSPECTIVAS PSICANALÍTICAS SOBRE O PROCESSO PSÍQUICO DO SIMBOLISMO E A ARTE COMO RECURSO NOBRE DESSA ORDEM DE PROCESSO PSÍQUICO.


Coordenação: Prof. RENATO DIAS MARTINO
26\03\2011, das 14:00 ás 16:00 horas
Local: UNILAGO São José do Rio Preto SP
inscrições : http://www.unilago.com.br/extensao/info/?Curso=342


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Músico
Fone: 17-30113866
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domingo, 6 de março de 2011

As Mudanças de Esperança

Na lata de alumínio, debaixo da pia era onde se guardava o feijão. Ali morava Esperança. Ela não tinha nada de especial. Era igualzinha às outras. Mesmo tamanho, mesma espessura, mesma cor e muito provavelmente o mesmo sabor. Era uma sementinha de feijão comum, como todas as outras dentro daquele saco de cinco quilos. Todas juntinhas dentro da lata de alumínio debaixo da pia. Sentia-se muito segura por isso. Todos os dias de manhã, ela acordava e nem por um minuto mantinha qualquer duvida quanto a ser aceita pelas outras. Este sentimento brotava do fato de que era só olhar do lado e constatar como era idêntica a todas. Todas as sementinhas estavam seguras ali.

Certo dia, Esperança e mais algumas amigas idênticas a ela, caíram fora da lata. Por descuido da cozinheira no momento de pegar os grãos para seu cozido. Foram então varridas e jogadas no terreiro. Todas, exceto Esperança, caíram sobre uma superfície de cimento. Ela, por sua vez, caíra na terra fofa e bem adubada pelo esterco das galinhas do quintal.


Assim que caíram lá no fundo do terreiro, começou a chover. Um chuvisqueiro fresquinho e manso.


Você já deve ter imaginado o que aconteceu, não é? Diferente do que para suas amiguinhas, toda a condição propicia para acontecer a germinação calhara a ela. Então, Esperança começou a germinar. Foi estufando, estufando até rachar uma das laterais. As companheiras que assistiam tudo de cima da peça de cimento, assustaram-se. E disseram quase que numa só voz: Nossa! Por que faz assim? Você esta horrível! Se continuar vais se arrebentar.


E ela realmente se arrebentou. Foi inchando, inchando até que explodiu. Ficou disforme e certamente diferente das colegas que não tiravam os olhos dela. Esperança de sentiu horrivelmente excluída. Lembrou-se então da vida que vivia na lata e como se sentia feliz num grupo de total identificação. Mas, mesmo assim, Esperança, continuou ali. Talvez por intuir que seria sua chance para crescer.

De qualquer forma, todo esse processo foi acontecendo assistido por suas companheiras. Elas, expostas ao sol e sem proteção, ou chance de germinarem, pois não estavam em contato com a terra fofa, foram definhando e por fim apodreceram. Esperança por sua vez foi brotando, crescendo e logo se tornou um belo pé de feijão que gerou várias vagens cheias de outras sementinhas.

Na verdade todas as vezes que nos propomos crescer e expandir nossas capacidades, acabamos por assustar o outro, que na maioria das vezes não estará disposto, pelo menos naquele momento à mudança. Somos então julgados e inevitavelmente excluídos daquele grupo que não estava preparado para a transformação.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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Uma reflexão sobre nossas experiências emocionais em formato imaginário.
http://www.youtube.com/watch?v=NVH1ZMyNLts


quinta-feira, 3 de março de 2011

O real e a idealização (do real)

O real e a idealização (do real)
Renato Dias Martino

Aphrodite And Eros - 1917 -
Henri Camille Danger
O conceito de desejo está no Dicionário Aurélio (2002) definido como ato ou efeito de desejar; vontade de possuir ou de gozar; anseio, aspiração, cobiça, ambição; vontade de comer ou beber; apetite sexual. Quando nos propomos a cogitar sobre tao fato, falamos da incoscequencia de Eros (deus do amor), filho de Aphrodite (deusa da beleza). O mito de Eros que na primeira fase de sua vida, permanece uma criança pequena, mesmo com o passar dos anos.
Dentro de sua etimologia, a palavra desejo, tem sua origem do latim desidiu, que tem seu inverso em considiu. A palavra sidiu ou ainda siderare, quer dizer astro. E enquanto con traz a referencia de vínculo, des traz a ideia de desvinculação. Logo estamos falado de estar, ou não estar ligado aos astros. Ou ainda, consultar os astros (assim como os gregos faziam por meio do oraculo), ou tomar certo caminho desconsiderando o que eles tem a nos dizer. Dessa forma, fica claro que ao desejarmos algo, nos tornamos responsáveis por isso e abandonamos a opinião dos astros, quanto a isso.
Benedito Espinoza (1632-1677)
Ora, se a proposta é de falarmos sobre o desejo, então estaremos cogitando sobre certa tensão que indica um fim. Quem deseja, o faz em relação a algo, que por sua vez, trará o fim do desejo. Esse fim está intimamente ligado a um pressuposto de carência. Quero dizer que, o desejar é resultado do sentimento da falta de algo. Sendo assim, o desejo torna-se uma característica clara do ser humano. O humano, mortal que se encontra no pólo oposto dos deuses. Para Benedito Espinoza (1632-1677), um dos grandes pensadores do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, a imperfeição repousa na perspectiva do humano e o define como tal.
O desejo é uma classe de sentimento, ou de certo movimento mental, que muitas vezes mesmo irracional, em sua forma inconsciente emergem tomando a forma de nossas escolhas. A ideia é que o desejo é um fluxo muito forte de libido (energia psíquica) e carrega em si, muito dos conteúdos impensados e impregnados de um narcisismo pré-maturo. Assim, um pensamento que tenha nascido dessa forma, pré-maturo já agia em no funcionamento da mente, mesmo sem ainda poder ser chamado de pensamento. Esse fato revela-se importante na medida em que muito perigosa é a ação ausente da reflexão. O agir sem pensar.

A psicanálise nos mostrou com muita clareza que o desejo é definido pela sensação de perda de algo que se foi. E se concordamos nessa afirmação, logo, poderíamos descrever que o objeto de desejo encontra-se no passado. Isso corresponde a dizermos que quem deseja, deseja, pelo menos em certa medida, a repetição de algo que perdeu no passado. Isso se torna de maior proporção se nos lembrarmos que a perda sempre inclui certa culpa de não ter cuidado daquilo que se perdeu. Assim, podemos afirmar que o desejo guarda sempre uma cota de passado e isso é representado nas experiências psíquicas, pela memória.

Tânatos
Abre-se então certa condição que nos permitiria afirmar, que o desejo encontra-se impregnado com das forças de Tânatos (o deus grego da morte) dentro de sua perspectiva de pulsão de morte. Busca sempre, em certa medida o retorno em busca de algo perdido, por mais que se encontre regido pelas graças de Eros (o deus grego do amor) no conceito freudiano de pulsão de vida, em seus impulsos na direção do mundo externo. Percebemos que memória e desejo estão muito próximos e que, a forma como se pode ter certa concepção de memória coincide diretamente no que se tem concebido sobre o desejo. Em sua celebre obra Interpretação dos sonhos de 1900, Sigmund Freud (1856-1939) propõe a ideia de que a memória é o desejo no passado e se concordarmos quanto a isso, poderíamos formular que, se a memória é desejo do passado, então o desejo é também, uma espécie de memória do futuro.
Sigmund Freud (1856-1939)
De qualquer forma, o desejo, então é algo que existe para ser satisfeito, contudo, ainda assim, só existe enquanto se está frustrado.
Entretanto, deixemos temporariamente a situação da satisfação de lado, com a proposta de retornarmos mais tarde e cuidar dessa hipótese com mais cuidado e dediquemos então os olhares para a situação da frustração. Pelo menos a priori, abrem-se, dois caminhos, o de enfrentar a tarefa do reconhecimento da realidade, ou sustenta-se a fantasia até onde ela possa ser sustentada.


Friedrich Nietzsche (1844-1900)
‘Eu fiz isso’, diz minha memória.
‘Eu não posso ter feito isso’,
diz meu orgulho, e permanece inflexível.
Por fim _ a memória cede.'
Friedrich Nietzsche (1844-1900) – Além do Bem e do Mal (1886).

Essa questão se torna de grande importância se estivermos falando em aspectos condizentes à luta diária, onde exista um trabalho de capacitação emocional em no sentido do aceitar, respeitar, ser sincero e assim, tornar-se capaz de amar o real, ou, ligar-se afetivamente ao outro. Falo aqui de vínculo.

O objeto de desejo nunca é real, isso por que nunca desejamos o objeto real, mas aquilo que esperávamos que fosse, o ideal. Na realidade tendemos a desvaloriza o objeto de desejo, assim que se torna real. Isso por que se tornar real limita as qualidades e possibilidades do objeto, o que não ocorre com o ideal. Às vezes, levamos isso a tal conseqüência, que nos conduz a desistir de certo objeto, por não atender nossas expectativas. É como se disséssemos: “Se não é como eu desejava não importa pra mim”. Ou seja, a realidade não interessa o que interessa é o que se imaginava ser essa realidade. Assim que o real se revela é logo descartado. Ou ainda, por outro lado, num ato de violência para com a realidade, podemos forçar o objeto a se tornar aquilo que gostaríamos que fosse.
Immanuel Kant (1724-1804)
O que conduz essa linha de pensamento é o fato de que na maioria do tempo somos impulsionados por paixões, ou seja, idealizamos (fantasia) algo e conseqüentemente passamos a odiar o seu extremo oposto. Forma perigosa de se conduzir a vida, pois, de tal modo, não se pode conhecer coisa nenhuma. Deixamos de nos aproximamos de certas “coisas” por enxergá-las sendo muito maiores que nós e, a partir do mesmo modelo de funcionamento, evitamos outras por nos julgarmos muito superiores a elas. Na perspectiva de Immanuel Kant (1724-1804) conduzir escolhas execencialmente pelo desejo é um modo doentio de viver, então dispensar o desejo seria a condição sine qua non da prática daquilo que chamou de moral e que pressupõe certa indiferença em relação à satisfação e ao prazer. Na proposta edípica de Freud é justamente a renuncia do desejo pela mãe que liberta para o pensar. Na capacidade de viver a posição do terceiro excluido é que se inicia as realizações no mundo. Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981) psicanalista francês propoe o Nome-do-Pai como simbolo do corte no desejo pela mãe. O que adequa o vínculo entre filho e mãe, libertando do pesadelo incestuoso.
Wilfred R. Bion (1897-1979)
Na apreciação psicanalítica do indiano naturalizado inglês, Wilfred R. Bion (1897-1979) a questão se encontra na perspectiva daquilo que poderia proporcionar, definir e sustentar na qualidade do vínculo que se pode ter com a realidade. Bion propõe a cesura do desejo, priorizando o que chamou de ‘O’ da experiência. O reencontro com a realidade depois da simbolização. O símbolo permite que se tolere o vazio e isso coincide com a privação da satisfação imediata do desejo. Ai está a chance para que se comece a pensar. A presença excessiva de certo desejo por algo, impede que se possa conhecê-lo na realidade, ou ainda, paralisa qualquer que seja o esforço na direção de entendê-lo em sua forma integra.

A conseqüência inevitável desse funcionamento baseado na paixão está justamente na cristalização ou enrijecimento daquilo que limita o que é do eu (como o desejo), daquilo que é do mundo, do não-eu, do outro, em ultima instancia, da realidade (que dificilmente coincide com o desejo).
Congela e compromete severamente aquilo que nos leva a experimentar possibilidades, condição indispensável à criatividade. Experiências que são exercícios de fundamental importância na medida em que capacita de referencias que nos permitem distinguir não só o que poderia ser o mundo externo, mas, conseqüentemente, o que pode realmente podemos ser, ou melhor falando, o que pode ser o eu real. Falo da inexorável luta entre o que é real e o que se deseja que seja, ou até, o que se teme que possa ser (já que o medo é filho do desejo). A questão está na ordem do que se encontra entre o real e o imaginário. Um processo de rigidez nesse nível é inevitavelmente gerador do que poderíamos denominar de pseudo-sabedoria ou mesmo certa sabedoria psicótica. Uma classe de informações sobre o mundo que só pode manter-se através da imposição. Um saber que deve contar com a defesa de certo escudo chamando arrogância.
Enquanto essa pseudo-sabedoria se localiza em certo nível superficial, encontramos um sujeito turrão e teimoso, conseqüentemente ignorante (ignorante de sua própria ignorância). Contudo, mesmo assim é alguém que consegue a duras penas, algumas realizações no mundo, já que (mesmo chateado com isso) mantém certo vínculo com a realidade. No entanto, se esse modelo de “saberes” passa a ser atribuído a elementos de maior profundidade da personalidade, criam-se características psicóticas na forma de se conduzir a vida. O outro nunca é o outro, mas, sempre o que se deseja que fosse.

Voltemos agora os olhares para a satisfação completa do desejo. Este vértice conduz a morte da busca e nos remete ao estado de inércia. Na satisfação total não existe reflexão e não é difícil chegar a essa conclusão quando nos lembramos de um bebê que logo adormece assim que se satisfaz com o seio da mãe. Totalmente satisfeitos deixamos de pensar, deixamos de existir. Só seguimos em frente se tivermos a consciência do que perdemos.


Bion, W. R. (b). Dois papéis: A grade e a cesura. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977
__Transformações - mudança do aprendizado ao crescimento. Rio de Janeiro, Imago,
(1970)
Chaui, M. Convite à Filosofia – 14° Edição – Editora Ática, São Paulo, 2010
Dicionário Aurélio, RJ, Nova Fronteira, 2002.
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
KANT, I. Crítica da Razão Pura. 5° vol. - Editora Formar Ltda: São Paulo. 1985.
____ Crítica da Razão Prática. 5° vol. - Editora Formar Ltda: São Paulo. 1985.
NIETZSCHE, F.Além do bem e do mal – Editora Nova Cultural: São Paulo, 1999.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O MITO DO PÃE



No modelo atual de família, o que se percebe é um forma onde a dedicação mutua está visivelmente ausente. Famílias que podem contar com um cuidador dedicado são raras. As formas de cuidado partem sempre de certo modelo primário chamado maternagem e essa função materna é imprescindível para a saúde mental. Isso porque enquanto seres humanos, aprendemos a pensar a partir da relação com a mãe. Isso se ela estiver sendo suficientemente boa, como coloca D. Winnicott (1896-1971), importante psicanalista e pediatra inglês. A palavra ‘suficiente’ traz a conotação da metade do caminho em meio ao maravilhoso e o desprezível. O modelo sugerido por Winnicott, não é da mãe exageradamente cuidadosa, que acaba por não permitir que o bebê se desenvolva, mas também não é de alguém desleixado no cuidado com aquele que olha.

D. Winnicott (1896-1971)
 A relação materna é o primeiro contato com o mundo e dela partirão todas os modelos de percepções do que é real. Essa relação é o primeiro contato com aquilo que existe além do ‘eu’ no mundo. Nessa configuração, a forma como se pode pensar o mundo é desenvolvida a partir de uma boa experiência com aquela que ocupa a função de mãe. No entanto, apesar de entender que a função materna tem sua importância independente de quem se dedica a sua prática, penso que a mãe que desejou e gerou essa criança, ainda é a figura mais adequada para essa tarefa árdua de se dedicar á maternagem. Quero dizer com isso que, dificilmente alguma pessoa se dedicará como mãe para cuidar de alguém que não pode desejar, assim como deve acontecer na gestação. Sem a mãe, esse bebê contará então com a caridade de um ser humano disposto a dura tarefa de ser mãe, mesmo sem ter escolhido isso.


Quando, como Winnicott, proponho aqui um desempenho suficientemente dedicado no que me refiro ser a tarefa da maternagem, penso em um modelo onde exista um pai, que se encontre presente em sua tão dolorosa (tanto quanto à de ser mãe) experiência na função paterna. O desempenho dedicado na função paterna inclui a capacidade de suportar todo sentimento de inveja que se origina da atenção da mãe, que se desloca dele, para chegada do filho. A tolerância a ataques de impulsos primitivos que certamente acontece na chegada de uma nova vida será determinante para a saúde do vínculo familiar.


A importância desse vínculo me parece indiscutível, entretanto se torna mais clara ainda quando constatamos que aquele que pode ser fruto do relacionamento de um casal que se ama, dessa mesma forma se adequa, com maior habilidade ao mundo e logo descobre sua função natural. Esse sujeito, sem duvida tem vantagens no que diz respeito a ser humano e desempenha com maior interação a troca afetiva com o mundo.


Apesar disso, em geral a história do pai atual é de alguém ausente. Trata-se daquele que até gostaria de estar lá, mas que não pode por causa das obrigações profissionais, ou por qualquer outra ‘razão maior’ do que o desempenhar de sua função paterna. Ou até mesmo, ausente porque, ainda que fisicamente presente, reserva certa ausência emocional severa. De uma forma ou de outra, incapaz de suportar o exercício de sua função de pai, que não é nada fácil. A incapacidade na ocupação do lugar adequado na concepção do ambiente familiar fez surgir um personagem novo nessa complexa estrutura grupal que chamamos de família.


A denominação “pãe” é ao mesmo tempo, intrigante e perigosa. Uma palavra criada em épocas contemporâneas e que reflete muito sobre o curso do desenvolvimento emocional do ser humano, para além do sujeito. O pãe, nome usado para descrever um sujeito que ocupa duas funções ao mesmo tempo se torna cada dia mais comum. Pai e mãe. O pãe sugere a onipotência (extremamente prejudicial como modelo de ser humano), um super herói sem definição sexual ou de gênero, que na verdade não existe, pois deixa de viver sua própria vida em função do outro.



É muito comum se ouvir mulheres que optaram por ‘produções independentes’, ou seja, a expressão coloquial querendo referir-se a experiência de se ter um filho sem a participação de um homem. No entanto, a fora essa situação que acontece por uma escolha visivelmente narcisista, não é a proposta aqui a de criticar um modelo que em grande parte acontece sem que se escolha. Mas o intuito do texto é o de cogitarmos a ideia de que criar um filho é tarefa para uma dupla (mais especificamente uma mulher e um homem), nunca de um só. A psicanálise nos ensinou com muita clareza que existem mecanismos psíquicos e experiências emocionais extremamente importantes para o desenvolvimento da personalidade, que só podem ser vividas no triângulo formado por Mãe, Pai e Filho. Quero propor que a função de cuidar do que se criou em dois, continua sendo um papel de uma dupla, assim como foi no momento da concepção.


Qual a possível saída, então? Arrisco uma resposta bem curta. Bem mais curta na definição do que na prática. “O pensamento”. A família que pôde ter sido pensada já é algo que vingou. A mulher que pode brincar de ser mãe quando era menina e que desejou isso, cria um espaço interno que comportará essa função de forma harmônica, na vida adulta. Da mesma maneira, o homem que aprendeu a amar, amará sua mulher e os frutos da união com ela. Cuidará de sua função como se cuida de si mesmo e será certamente um bom pai. É só a partir de certo espaço criado que permita o desempenho do conhecer e ser a si mesmo que abre-se espaço para conhecer e aceitar o outro. Conhecer-se a si mesmo não é pensar apenas em si, mas pensar-se em relação ao outro. Dessa forma depende diretamente da capacidade de amar . É a partir do cuidado que se tem consigo mesmo, que se desenvolve a capacidade do cuidado para com o outro.

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Amarga vingança - Prof. Renato Dias Martino

Amarga vingança
Francine Moreno

Lézio Júnior/Editoria de Arte
   Em março do ano passado, Jimmy Wales, fundador da enciclopédia on-line Wikipedia, dispensou a namorada, a canadense Rachel Marsden, por meio da internet. O que ele não aguardava é que a vingança dela viria também pela rede, com a venda das roupas dele pelo site de leilões on-line eBay. Com pouco menos de cinco dias para o término do leilão, a camiseta, com duas manchas brancas, já havia recebido lance de US$ 15 mil. Em matéria de vingança, Rachel Marsden se saiu muito bem. Como muitos dizem sua vingança foi comida friamente. Mas nem sempre é assim. A publicitária Laura (nome fictício), de 34 anos, está aí para provar. Após uma traição do namorado, foi à casa do rapaz enquanto a faxineira estava lá. Abriu os armários e queimou toda a coleção de camisetas de time de futebol do infiel, que dormia em cama alheia há seis meses, em uma fogueira no quintal. Aliviada e com uma alegria imensa foi para casa. Entretanto, em alguns meses percebeu a encrenca em que havia se metido.

Além de ganhar um processo e pagar todas as despesas da reforma do quintal, sente até hoje, dois anos após, vergonha e remorso. “Hoje entendo a frase de Carmem Sylva, que diz que a vingança é doce, entretanto à abelha custa-lhe a vida”, revela Laura.

Querer dar o troco é normal e pesquisas já comprovaram que traz prazer mesmo, entretanto, dura apenas um dia. “A vingança é uma ação gerada na ausência de tolerância, logo, aquele que é movido por esse recurso primário vive num funcionamento impensado, agindo por impulso. Sendo assim, convive sempre com um sentimento persecutório, na iminência das consequências dessa vingança”, afirma o professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino. Quem se vinga tem dificuldade de compreender a outra parte. Às vezes nem enxerga que ela mesmo pode ter contribuído para a situação. De acordo com Prof. Martino, o processo do pensamento é justamente a entrada do outro nas implicações do desejo do eu. “Na verdade, o vingativo carrega um objeto a ser vingado dentro de si mesmo. Quando a vingança pode ser submetida ao pensamento o que se percebe é que sempre está fundada em equívocos.”
 Uma explicação psicológica para que a vingança corra nas veias de algumas pessoas, é que ela é um recurso primitivo usado pelo aparelho psíquico com o intuito de livrar-se de sentimentos indesejados, como humilhação, injustiça e susto. Um desejo de dominar a situação, segundo Sigmund Freud (1856 - 1939). O pai da psicanálise, ilustra em seu “Além do Princípio de Prazer (1920)”, uma situação de vingança. Ele descreve o sentimento da criança quando tem sua garganta examinada pela primeira vez. O médico abre sua garganta com um palito de madeira e olha lá dentro. Freud observa que esse tipo de ‘assustadora experiência’ será tema das próximas brincadeiras, com o coleguinha ou irmãozinho mais novo. “Na impossibilidade de vingar-se do agente da humilhação, escolhe um substituto. São todos sentimentos que em um modo mais aprimorado de funcionamento, são tolerados e posteriormente transformados em pensamento”, afirma Professor Martino. E nesta consequência estão constantemente experimentando e criando dentro de si sentimentos pobres de conteúdo, que com certeza a prejudicam muito mais que seu alvo de vingança.

 Extravase a sua fúria com nobreza

Para o psicólogo e psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino, o método para acabar com a vontade de punir aquele que te machucou requer dois elementos primordiais em forma de capacidades. Capacidade de conter sentimentos indesejáveis e a capacidade de reconhecimento dos próprios limites. “Por se tratarem de capacidades, estamos falando de algo a se desenvolver. Uma busca lenta e exaustiva, mas a única a nos colocar realmente inseridos no mundo.”
Diferente do que as avós aconselhavam, a indiferença não é uma forma de acertar as contas sem partir para atitudes extremas. O certo é que nada seja ignorado, pois em algum lugar dentro de nós isso tomará espaço e crescerá, mais cedo ou mais tarde uma situação inacabada atrapalha mais que ajuda. O melhor é resolver as questões à medida que se apresentam, mas com inteligência emocional.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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O SENTIDO DA TOLERÂNCIA E O MECANISMO DE INVEJA por Prof Renato Dias Martino (narração e vídeo)

Reflexão sobre os processos psíquicos que conduzem nossas experiências emocionais.
(narração e vídeo)
http://www.youtube.com/watch?v=SUFm81FMBLs

Texto: http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/2010/02/tolerancia.html
Prof° Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Musico


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

CINEMA E PSICANÁLISE: SPIDER - DESAFIE SUA MENTE E A TEORIA KLEINIANA.

OBJETIVO: PROMOVER A REFLEXÃO ATRAVÉS DA EXIBIÇÃO E ANALISE DE FILME PELO VÉRTICE PSICANALÍTICO DE MELANE KLEIN.
PÚBLICO ALVO: ALUNOS DE PSICOLOGIA E À COMUNIDADE EM GERAL.
Coordenação professor:  RENATO DIAS MARTINO
Data: 19 DE FEVEREIRO DE 2011
Horário: DAS 14:00 ÀS 17:00 HORAS 
Local: UNILAGO
Valor: Gratuito
Vagas limitadas
FICHA DE INSCRIÇÃO: http://www.unilago.com.br/extensao/info/inscricao/?Curso=341


Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Músico

Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/