A
triangulação é uma configuração que propõe a intersecção de dois pontos, e a
proposta de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao complexo de Édipo não é
diferente. Freud propôs as bases do Complexo de Édipo pela primeira vez em
1897, em uma carta enviada ao seu amigo Wilhelm Fliess (1858–1928). Freud se
utiliza da obra Rei Édipo, do grego Sófocles (c. 496 a.C.–406 a.C.). Contudo,
horrorizou a classe científica da época quando, em 1899, em sua A Interpretação
dos Sonhos, apresentou a ideia publicamente como um fenômeno que ocorre na vida
emocional e afetiva de cada um de nós.
Freud traz à baila a experiência da
criança de desejar a mãe só para si e, para isso, eliminar o pai. Foi só em
1910, em Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens, que Freud
veio a utilizar formalmente a expressão “complexo de Édipo” pela primeira vez.
O superego, que é a instância moral e legisladora no modelo estrutural da
personalidade, é o herdeiro do complexo de Édipo, como propõe Freud.
Mais
tarde, Melanie Klein (1882–1960), muito provavelmente por ter vivido a
experiência de ser mãe, propõe precocidade para o complexo de Édipo,
coincidindo com a fase oral e a posição esquizoparanóide. Klein propõe, pela
primeira vez, no artigo Estágios Iniciais do Conflito Edipiano, de 1928, que,
diferente da proposta freudiana (que coincide com a fase fálica, apenas após os
3 anos de idade), o complexo surge bem mais cedo. A proposta de Klein se
fundamenta na fantasia sádica do bebê na relação com o seio. Portanto, segundo
Klein, o superego infantil é concebido muito mais cedo e, primeiramente, de
forma persecutória. Nessa proposta, a superação do complexo de Édipo precoce
está subordinada à elaboração da posição depressiva. Com isso, o bebê começa um
processo de integração, desenvolvendo a capacidade de amar e reparar. Só então
o superego perseguidor se transforma em superego legislador.
Em
1958, Wilfred Ruprecht Bion (1897–1979) publica o artigo “Sobre a Arrogância”,
que posteriormente seria incluído no livro Second Thoughts (no Brasil publicado
com o título Estudos Psicanalíticos Revisados), de 1967. Nessa obra, Bion traz
uma mudança de vértice quanto à história de Édipo. Diferente da proposta que
destaca os crimes do incesto e do parricídio, Bion enfatiza a atitude arrogante
de Édipo num ataque ao vínculo de conhecimento. Para Bion, o verdadeiro crime
de Édipo é sua insistência em buscar a verdade a qualquer custo.
No
clássico de Sófocles, Tirésias, o adivinho cego, acusa diretamente o rei Édipo
de ser o assassino de Laio depois de ser pressionado por ele para lhe dizer a
verdade. Tirésias revela que é o próprio Édipo o culpado pela degradação de
Tebas, que padecia pela peste que afligia a cidade. Uma grande ironia: aquele
que tem visão física saudável está cego para a verdade, enquanto o vidente, que
é cego fisicamente, é capaz de enxergar a realidade. Tirésias, irritado com a
insistência e as ofensas, por fim desvela a verdade para o rei Édipo. Édipo
acusa Tirésias: “Fica sabendo que, em minha opinião, articulaste o crime e até
o consumaste! Apenas tua mão não o matou. E se enxergasses, eu diria que foste
o criminoso sem qualquer ajuda!” E então o vidente responde com o desvelamento
da verdade: “É assim que pensas? Então eu te digo: tu és o homem que procuras,
o assassino de Laio. Tu és o poluidor desta terra.” Édipo reage com fúria, mas,
numa mudança catastrófica da obra, começa a duvidar de si próprio, mesmo
continuando a negar impetuosamente.
Nesse ponto da reflexão
me parece importante destacar que a verdade não carece de ser buscada. Ela está
bem clara à nossa frente. O que impede de reconhecê-la é a limitação de nossa
capacidade. É necessário desobstruir-nos do Véu de Maya das ilusões que nos
impedem de reconhecer, aprender a respeitar e nos responsabilizarmos pela
verdade reconhecida. “Entulhado de memórias,
saturado de expectativas e preso a um pressuposto de verdade que espera
encontrar, o sujeito permanece obstruído para reconhecer a verdade, muitas
vezes óbvia, que está bem à sua frente.” (Martino, 2025) No entanto, para isso
é necessário renunciar aos benefícios proporcionados pela ilusão.
Bion
ainda propõe que o orgulho não é um sentimento nocivo, mas depende de qual
pulsão predomina na experiência. Quando pode ser irrigado pela pulsão de vida,
converte-se em autoestima, num ato de reconhecimento e respeito por si mesmo.
Ora, essa experiência se desdobrará nas relações afetivas, expandindo-se em
compaixão. No entanto, quando a pulsão de morte prevalece, o orgulho se
transforma em arrogância. Desintegrado, o sujeito torna-se vulnerável e busca
apoiar-se na prepotência para tentar aplacar sua insegurança. A arrogância é,
para Bion, uma manifestação da parte psicótica da personalidade que se nega a
aprender com a experiência, gerando a ilusão da onisciência defensiva com o
intuito de evitar a dor do crescimento mental.
Referências:
BION, Wilfred R. [1958]. Sobre
a arrogância. In: BION, Wilfred R. Estudos psicanalíticos revisados (Second
thoughts). Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 80-89.
BION, Wilfred R. [1967].
Estudos psicanalíticos revisados (Second thoughts). 3. ed. rev. Rio de Janeiro:
Imago, 1994.
FREUD, Sigmund. [1897]. A
correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904.
Edição de Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Imago, 1986.
FREUD, Sigmund. [1899] 1900. A
interpretação dos sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das
obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio
de Janeiro: Imago, 1996. v. 4 e 5.
FREUD, Sigmund. [1910]. Um
tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à
psicologia do amor I). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 11.
KLEIN, Melanie. [1928].
Estágios iniciais do conflito edipiano. In: KLEIN, Melanie. Amor, culpa e
reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1.
(Obras completas de Melanie Klein).
Martino, Renato Dias. Esboço de expansão: escolhas,
vontade e desejo / - Rio de Janeiro: Paula
Editorações,
2025.
SÓFOCLES. Rei Édipo. Tradução
de João Baptista de Mello e Souza. Rio de Janeiro: Edições de Ouro.
A
princípio, serve como mais um modelo na prática clínica. É mais do que uma
tentativa de teoria ou qualquer coisa nesse sentido, mas está dentro da
perspectiva de um modelo na prática clínica, um modelo que auxilia a reflexão
dentro da prática clínica. De início, onde é que me pareceu interessante ou
começou a me fazer sentido esse modelo? Na minha vivência particular, na
vivência no meu funcionamento emocional. Dentro do meu funcionamento emocional,
começou a fazer sentido esse tipo de modelo. E aí, a partir de algumas
leituras, de alguns estudos, eu comecei a perceber que outros pensadores também
estavam usando este modelo. Então, o que a gente estuda bastante é Bion. E o Bion
trata bem a muito sutilmente dessa alegoria, desse modelo. E aí, começou a me
surgir a vontade de escrever, de estudar, de dissertar um pouco sobre isso. E
aí, escrevi um capítulo, do ACOLHIDA. Eu não trouxe aqui impresso porque está
no livro. Acho que todo mundo aqui tem o livro. Se não tiver, tem vários
exemplares aí, podem pegar se quiser. Está na página 173, o texto que trata
desse assunto. Mas a proposta aqui é ir para além desse texto. Então o Bion
traz ali a ideia lá do movimento helicoidal. Ele chamou o movimento helicoidal.
E ele chamou atenção para esse movimento, para essa, para esse modelo aplicado
à proposta da grade, onde ali existem alguns pressupostos, onde as experiências
iriam sendo encaixadas ali nos níveis dessa grade. E ele vai dizer que esta
grade evoluiria num movimento helicoidal. O que é um movimento helicoidal? De
rotação, assim como no helicóptero. A partir desta ideia, foi me surgindo
outras manifestações desta configuração. E não ficou só dentro dessa
perspectiva helicoidal, mas ela ficou, ela começou a expandir num movimento
progressivo, num movimento espiral progressivo. Que que é um movimento espiral
progressivo? É um movimento onde existem voltas, ciclos que são dados e que
cada ciclo desse vai expandindo um tanto, vai expandindo um grau. Eu vou para além
dessa ideia helicoidal e vamos começar a chamar de movimento espiralado. Então,
este movimento espiralado, ele está presente dentro da materialidade das
coisas, desde uma da configuração maior, né, da configuração macro, da dimensão
mais gigantesca possível que o ser humano possa reconhecer até as partículas
mais ínfimas. A gente tem, por exemplo, o movimento espiralado nas galáxias.
Então, a galáxia, né, o a formação de uma galáxia, a formação de uma
configuração espacial, ela se dá em movimentos espiralados. Fotos aí dos
satélites da NASA, Hubble, mostram isso com clareza. Se você procurar, por
exemplo, uma imagem de uma galáxia no Google, você vai encontrar um movimento
espiralado. E na partícula mínima, no micro, por exemplo, o DNA é configurado
com uma espiral dupla. Mas não só dentro dessas configurações, caracóis, a
gente tem um movimento, por exemplo, de uma ave de rapina. Quando ela está
tentando caçar, ela está fazendo um movimento espiralado. O ciclone é um
movimento espiralado. Quando você tira o ralinho da pia, vai formar uma
espiral. E a gente pode ir para além, porque existe um pensador chamado
Fibonacci, italiano, que ele propõe a curva de Fibonacci, que é um uma
configuração geométrica que é aplicável a toda figura ou toda construção
coerente, ou uma forma que traz um uma beleza harmônica, uma harmonia, ou
dentro da geometria ou dentro da um prédio ou de um quadro. Você vai conseguir
aplicar a curva de Fibonacci ali. Então, o que que é a curva de Fibonacci?
Rapidamente, a curva de Fibonacci é dois primeiros números somados vão gerar um
terceiro número e aí os dois próximos números somados vão gerar mais um número
e aí vai se construindo quadros num formato espiralado. Então você tem o um e o
dois. Você soma o mais o do vai dar o três. E agora você tem então o dois e o
três. Somando o dois e o três, você vai ter o cinco. E aí você vai nessa mesma
proporção, você vai ter aquilo que a gente vai chamar de proporção áurea, que é
uma simetria que traz uma harmonia na estrutura. Mas nós estamos falando de
psicanálise, nós não estamos falando de estrutura da natureza, nós não estamos
falando de geometria, nós estamos falando do desenvolvimento emocional que vai
se desdobrar na capacitação afetiva. Então, me parece que este modelo também
está presente no desenvolvimento emocional. Mas de que forma ele está presente?
Ele está presente numa dimensão onde até então havia uma impressão de que a
vida ela se dava através de uma repetição. A vida ia acontecendo e aquilo ia se
repetindo, ia se repetindo, se repetindo. Tanto me parece que esta repetição
ela acontece, mas cada vez que se repete tem a chance de evoluir, tem a chance
de crescer. Então, na minha experiência emocional, na minha análise pessoal, eu
fui percebendo isso e também fui percebendo isso na análise dos meus pacientes
e aí fui tentando ajeitar esse modelo para aplicar nessa experiência. E aí
começou a me fazer muito sentido resgatar a proposta Kleiniana do que a gente
aprendeu a chamar de teoria das posições. Então a gente vai precisar ter a
teoria das posições para que a gente possa entender o movimento espiralado.
Então vou aqui me prestar fazer um resuminho do que o que a gente aprendeu a
chamar de teoria das posições da Melanie Klein. Vamos imaginar uma espiral, um
modelo espiral progressivo, mas não como um modelo afunilado, não sendo uma
progressão horizontal, mas uma progressão vertical. Imagine então esta espiral
que vai crescendo deitada. O eixo é horizontal, mas as voltas são verticais.
como na capa do livro ali um como na capa do livro aí se vocês tiverem o livro
aí no texto que eu mandei aí digitalizado, eu fiz um modelinho bem explicativo
do que eu estou tentando dizer. Existe um eixo e existem voltas que vão
contornando este eixo. Então, imagine que esse lápis é um eixo. Então o lápis
está na forma horizontal e as voltas vão acontecendo nessa proporção vertical.
Esse eixo horizontal vai ter voltas verticais. Estas voltas verticais vão ter
uma peculiaridade. A cada volta vai passar por um ponto mais alto e um ponto
mais baixo. Este ponto mais alto vai ser caracterizado por fatores descritos
por Melanie Klein como características do que ela chamou de esquizoparanóide. Então,
quando a experiência, quando a experiência do sujeito está passando pela volta
no ponto superior, ele vai experimentar características do que a Melanie Klein
chamou de posição esquizoparanóide. Então, eu vou falar um pouquinho para vocês
agora o que é que a Melanie Klein chamou de posição esquizoparanóide. A
princípio, Melanie Klein disse assim: "Olha, o bebê vai viver, vai
interpolar entre duas posições.” Ora, ele vai experimentar uma posição chamada esquizoparanóide,
ora ele vai experimentar uma posição depressiva. Então, vamos reservar a
posição depressiva, que é o ponto inferior. Vamos falar então da posição esquizoparanóide,
que é a posição que é o ponto superior. Só o bebê vive isso. Não, todos nós
vamos viver para o resto da vida. Ora, vamos estar experimentando
características esquizoparanóide, ora vamos estar experimentando
características depressivas. ESQUIZO quer dizer cindido, cortado, separado e PARANOIDE
quer dizer persecutório, perseguidor. Então a posição esquizoparanóide é uma
posição onde existe uma cisão do mundo e esta cisão provoca uma sensação de
perseguição. Quando estamos no ponto superior da espiral, estamos
experimentando características esquizoparanóides. Esta posição superior, ela
vai trazer uma sensação de mania, uma sensação de extroversão para fora. A
gente vai viver as coisas no mundo externo. A gente vai atribuir as
responsabilidades das coisas que a gente vive às coisas do mundo externo. é
tudo culpa do outro. Então, características esquizoparanóide estão ligadas à
projeção, está no outro. Então, o bebê, tudo que acontece com o bebê, ele
atribui a mãe. Mas não é só a mãe, é a mãe dividida em duas, por isso que é
esquizo. Então, ele tem uma mãe boa, que é aquela mãe que vem, dá o leite, dá o
carinho, afaga. E a mãe ruim, que é aquela que não está, que priva, que não tá
ali quando ele quer. Sei o bom e sei o mau. Para o bebê não existe uma mãe só.
Existem mães, uma boa e uma ruim. E o trabalho, a função desta posição é
separar o que é bom do que é ruim. Então, quando nós estamos no ponto alto da
espiral, nós separamos o que é bom do que é ruim, o que é certo do que é
errado. Nós criamos critérios para julgar. Então, se alguma coisa deu errado na
minha vida, é por causa de fulano. Mas se alguma coisa deu certo, eu atribuo a
cicrano. Por mais que a gente chame essa posição de esquizo paranoide, né? E
esquizo é sentido, né? Essa palavra esquizo é meio estranha e paranoide, uma
coisa persecutória, mas esta posição é muito prazerosa, porque eu tenho a
chance de me livrar de tudo que é ruim. Eu não tenho responsabilidade com nada,
é tudo outro. E por isso eu tenho um comportamento eloquente, muito, eu faço
tudo, eu posso tudo, existe uma onipotência, existe uma onisciência, eu sei
tudo, eu consigo tudo. Por quê? Porque se eu não consigo é culpa do outro.
Então este ponto superior é o ponto da ilusão. O sujeito está impreterivelmente
iludido quando ele está no ponto superior da espiral. Na cultura oriental a
gente tem a ideia do véu de Maia. Materialidade. Materialidade. A vida social
nos obriga ao ponto superior esquizoparanóide da experiência da espiral. Não é
nem questão de ser bom ou ruim, é questão de ser necessário, né? Caio colocou,
trouxe uma ideia aqui muito importante, gente. Não existe bom ou ruim, porque
se a gente tiver aqui elegendo bom e ruim, a gente está na esquizoparanóide.
Não tem bom ou ruim, pode ter prazeroso e desprazeroso. E a esquizoparanóide é
muito prazerosa. Lá embaixo a gente experimenta outra posição. Nós estamos
falando de posição, ou seja, nós estamos experimentando o tempo todo lá em cima
e lá embaixo. Lá embaixo a gente vai experimentar o que a Melanie Klein chamou
de posição depressiva. Se lá em cima a gente tinha uma característica muito
nítida de fragmentação, de divisão, de decomposição, de desintegração, lá
embaixo a gente vai ter a integração. Lá embaixo a gente vai começar a enxergar
o mundo e o eu como um todo. Não estamos separados. Não existe separação. Existe
limite, mas não existe separação. Existe um limite entre uma coisa e outra, mas
essa coisa não está separada da outra. Ela tá junta com a outra. Então, o que
um faz implica no que o outro vai fazer. Então, a posição esquizoparanóide é
confortável, é prazerosa. A posição depressiva é desconfortável, é incômoda, é
frustrante e na posição depressiva cai o peso da culpa. Culpa do quê? de ter
atribuído ao outro a responsabilidade pelas coisas que na verdade é de minha
responsabilidade. Então o bebê, por exemplo, vai começar a perceber que aquela
mãe que ele odiava tanto é a mesma mãe que ele tanto idealizava. E aí ele se
sente culpado e ele precisa tolerar essa culpa para poder elaborar esta posição
depressiva e começar um novo ciclo de subida. A responsabilização é a evolução
do sentimento de culpa. Para que eu possa me responsabilizar, eu preciso ter
tolerado o sentimento de culpa até que ele possa ser elaborado e expandir para
a responsabilização. Se eu não tolero me sentir culpado, eu não vou conseguir
aprender a me responsabilizar. A evolução te leva ao Dharma e cada volta,
impreterivelmente é um Karma. Então, cada volta tem uma característica de
repetição. E o Karma é isso, vai e volta. É uma repetição. Na medida em que eu
tomo consciência desta repetição, eu tenho a chance de no próximo, na próxima
volta ser diferente. E cada vez que é diferente, eu me aproximo, eu estou no
caminho do Dharma, que é o caminho da iluminação, do ponto superior como sendo
a posição esquizoparanóide que carece ser elaborada. E quando a gente fala do
ponto inferior, que é a posição depressiva, esta posição também carece ser
elaborada. A posição depressiva não é o ponto final da história, ela também
carece de ser e elaborada, porque quando o sujeito chega no ponto inferior, ele
se sente culpado e se ele se mantiver culpado, ele não elaborou. E aí vai fazer
com que o sujeito viva uma experiência de volta em falso, porque ele não deu
conta de elaborar e ele vai dar uma volta que vai ser uma circunferência que
rodou sem evolução. E o que que vai determinar isso? O acolhimento do outro. Eu
só consigo elaborar uma volta da espiral se eu puder contar com o acolhimento
do outro. Isso define, não tem como viver experiências de expansão na espiral
sem contar com o outro. A pulsão de vida e pulsão de morte vão estar presente
nas duas posições. A pulsão de morte na posição esquizoparanóide projetada no
mundo externo. E aí aí o Freud vai chamar de pulsão de destruição. Eu me sinto
angustiado, eu me sinto ansioso e eu arrumo alguém para culpar. Eu estou
angustiado e a culpa é dela. A pulsão de morte estava aqui dentro. A pulsão de
morte estava fazendo eu me dividir. Eros liga, tatos desliga. E simboliza,
tânatos diaboliza. Então, quando eu sinto esta desintegração interna, isso cria
dentro de mim um desconforto tremendo. O medicamento psiquiátrico faz com que o
sujeito dê uma volta em falso, literalmente. O que que configura uma volta
bem-sucedida na espiral? Aprender com a experiência. Eu aprendi com a
experiência. Eu vivi uma experiência completa. E no final desse ciclo eu
aprendi alguma coisa. Eu já não sou mais o mesmo. E o medicamento não ensina
nada. Você não aprende tomando o Rivotril. Ele te anestesia. Comfortably Numb é
a música do Pink Floyd que chama. É verdade. Confortavelmente entorpecido. É
isso. Ninguém aprende assim. Quem aprende assim? Você aprende pelo desconforto.
Tudo. Droga, álcool, compulsões. Nós estamos condenando isso aqui. Não, não,
não, não, não, não. De jeito nenhum. Por quê? Porque aquele, naquele momento o
sujeito precisa daquela muleta, então ele vai usar aquilo, tudo bem, cada um
tem a sua. Se você tira a muleta, o sujeito cai e não consegue continuar
andando. Então vamos usar a muleta, principalmente se ele está em análise,
principalmente se ele está caminhando. Criticar a muleta do outro é muito
bacana, não é? Mas é esquizoparanóide. O remédio não ensina nada, o álcool não
ensina nada, a compulsão por jogos, o tigrinho não ensina nada. Então, para que
a volta seja bem-sucedida, ela precisa culminar ou desdobrar-se em aprendizado.
Aprendizado teórico, aprendizado do conhecimento, não. Aprendizado emocional e
afetivo. Emocional interno, afetivo, vinculação com o outro. A posição
depressiva, quando o sujeito não tem a capacidade de tolerar a culpa, pode ser
um motivo ideação suicida, porque eu sou culpado, eu não dou conta de me sentir
culpado, então vou tirar minha vida como punição desta culpa. Não só suicídio,
autossabotagem em qualquer nível. me julgo, me sinto culpado, me condeno e
agora passo a me autopunir. E assim como o tribunal, eu posso tanto prisão
perpétua como pena capital aí, como a pena de morte. Alguns mecanismos mantém o
sujeito na esquizoparanóide, ou seja, no ponto superior. Quais mecanismos? Eu
tenho um desencadeamento, costumo dizer. O primeiro é a cisão. Esquizo não é
cisão? Esquizo é cisão. Então o primeiro mecanismo de defesa é a cisão. Divide
o mundo em dois, em bom e mau, em certo e errado. Negação é porque assim, ó,
tem uma parte ali, divide em duas, uma parte não é minha. E normalmente a parte
boa é minha, a parte ruim é do outro. Então essa parte ruim não é minha. E aí,
se é do outro, tem mais um mecanismo. O próximo mecanismo, projeção, cisão,
negação, projeção. Quando eu projeto a coisa ruim no outro, aí eu me sinto o
santo, o anjo de candura. O outro que é o pedófilo, o outro que é o perverso, o
outro que é o maconheiro, o outro que é o bêbado, o outro que é o louco. E aí,
se é tudo outro, eu me sinto purificado. Aí existe uma idealização. Eu começo
me auto-idealizar. E a idealização é tanto para o bom quanto para o mau. Eu me
auto-idealizo como o cara purificado na frente da televisão vendo o Datena
chamar o pedófilo de monstro. Eu sou o bom, ele é o ruim. Vamos dar uma
cadeirada nele. E a partir daí um novo mecanismo que se divide em dois,
onipotência e onisciência. Porque tudo isso aqui é ilusão, é mentira. Foi eu
que criei tudo isso aqui. E se eu criei tudo isso, eu posso qualquer coisa e eu
sei qualquer coisa. Eu controlo tudo isso aqui, foi eu que criei. E aí,
abafamento das emoções. Vamos abafar todas as emoções que isso aqui possa tá
gerando. E aí se consolida a posição esquizoparanóide. Quando o sujeito chega
em análise, ele chega com uma demanda quase que unânime quando o paciente
chega. Qual que é? Eu quero, eu preciso desabafar, não é isso? Quando ele
começa a desabafar, ele começa a quebrar este ciclo de mecanismos de defesa. O
último mecanismo não era o abafamento das emoções. Quando ele começa a
desabafar, ele começa a desfazer o quê? Onipotência e onisciência são os
primeiros. Porque ele começa a partir do seu desabafo no diálogo com o
analista, perceber que ele não pode tudo, perceber que ele não sabe tudo. Eu
não falei aquilo porque se eu falasse eu sei que ele ia fazer não sei o quê.
Oi, você sabe? Mas como você sabe? Não, porque ele sempre fez. Não, pera aí.
Ele sempre fez, mas isso não te dá o a faculdade de saber que agora ele vai
fazer igual. E aí quando ele começa a ver que ele não sabe tudo e que ele não
pode tudo, a idealização começa a se desfazer. Quando a idealização começa a
desfazer, a projeção retorna. Quando a projeção retorna, a negação deixa de
fazer sentido. Quando a negação deixa de fazer sentido, pum, integra, desfez-se
o ciclo dos mecanismos de defesa que mantinham a posição do esquizoparanóide.
Aí ele cai na depressiva. Aí ele começa a sentir culpado. Nossa, caramba,
velho. Fui eu. Então, aí se ele puder contar com o acolhimento do outro junto
com o outro, aos pouquinhos ele vai elaborando esta culpa e vai se capacitando
para se responsabilizar por isso. Várias espirais vão formando uma grande
espiral, que é a espiral da vida. Não existe volta em falso se o sujeito
estiver se dedicando ao seu trabalho analítico. Por mais que pareça que o
sujeito está repetindo, por mais que pareça que ele está fazendo a mesma coisa,
existe uma mudança, por mais sutil que possa parecer, por mais irrisória que
seja, existe ali uma transformação. Se o sujeito está se dedicando ao trabalho
de análise, só ao trabalho de análise, não, se dedicando aos vínculos afetivos
saudáveis. E o trabalho de análise é um lugar favorecido para tal. Cada volta
da espiral que traz a possibilidade da ampliação da rede de vínculos saudáveis
faz com que o sujeito tenha coragem de se afastar de vínculos. tóxicos de
vínculos que possam ser nocivos. afastar fisicamente não. Muitas vezes eu não
posso. Muitas vezes eu trabalho com o cara tóxico ali. Muitas vezes o cara
tóxico é consanguíneo, mora na mesma casa, mas é um afastamento emocional, é um
afastamento afetivo. Ele pode ter as mesmas falas, ele pode ter o mesmo
comportamento, mas está se transformando o funcionamento. A mudança de
comportamento não quer dizer mudança de funcionamento. E a mudança de
funcionamento não está subordinada à mudança de comportamento. Você pode mudar
o seu comportamento, teu funcionamento continuar o mesmo e você pode mudar o
seu funcionamento e o seu comportamento continua o mesmo. Muitas vezes o meu
funcionamento emocional é um funcionamento de vitimismo, por exemplo. E o meu
comportamento é um comportamento vitimista. Eu posso ter mudado o meu
funcionamento vitimista. Eu começo a perceber, eu começo a reconhecer que eu
não sou vítima, mas eu ainda estou configurado num vínculo que me faz me
comportar como vítima. Por quê? porque o outro está implicado neste
comportamento. Eu não tenho como mudar de hoje para amanhã, porque existe ali
um contrato social de comportamento e mudar aquele comportamento drasticamente
vai afetar todo um sistema. Então, prudentemente eu continuo me comportando
como vítima, mas eu já não funciono mais como vítima. Eu já não estou mais
projetando na pessoa. Eu já percebi que eu não sou vítima de ninguém. eu já me
responsabilizei, mas o outro continua funcionando do mesmo jeito. Prudentemente
eu continuo funcionando daquele jeito, porque existe um sistema social que me
obriga a me comportar daquela forma, mas funcionando de maneira diferente, eu
começo a configurar uma nova estratégia afetiva e logo, logo eu vou me afastar
daquele campo que me obriga a continuar funcionando daquele jeito. Mudança de
comportamento não garante a mudança de funcionamento. A mudança de
funcionamento impreterivelmente vai se desdobrar na mudança de comportamento.
Uma volta bem-sucedida da espiral implica em mudança de funcionamento, por mais
que o comportamento não tenha mudado. Então o sujeito ainda está fazendo do
mesmo jeito, mas ele já não está funcionando mais daquele jeito. Cada ciclo
bem-sucedido da espiral implica em aprender com a experiência, implica em
vínculo afetivo saudável, implica em transformação ou mudança de funcionamento
que não tem a ver com mudança de comportamento. A volta da espiral completa num
ciclo pressupõe reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar. os três
Rs. Se eu reconheci, eu vou aprender a respeitar isto que eu admiti que existe.
Reconhecer não é conhecer, é admitir que existe, admitir que acontece. E a
partir desse admitir que acontece, eu aprendo a respeitar isso que acontece.
Depois que eu aprendi a respeitar, eu me responsabilizo por isso. E o ciclo,
cada volta da espiral provoca aquilo que o Bion chama de mudança catastrófica.
deu uma volta na espiral, nunca mais vai ser igual. Não existe retrocesso nos
processos emocionais e afetivos. Não tem volta. A espiral é progressiva. Não
existe regresso. Por quê? Porque a espiral, as voltas da espiral, o
funcionamento espiralado é um funcionamento de maturação. Cada volta
bem-sucedida da espiral resulta em maturidade e não existe “desamadurecer”. Ah,
mas o paciente um comportamento regressivo. Pois é, foi o comportamento, não
foi o funcionamento. Ele precisou se comportar dessa forma. Isso não quer dizer
que ele não está funcionando de outro jeito. Ele pode ter manifestar um
comportamento infantilizado, por exemplo, que foi o que ele conseguiu fazer
naquele momento. Isso não quer dizer que ele está funcionando assim ainda. E
até nessa perspectiva também, professor, eh vivendo em sociedade, né? A
sociedade nos obriga muitas vezes a desintegrar, né, a se defender. E há uma
diferença entre ali você estar sendo falso e você está sendo um falso
consciente justamente para você precisar se defender, porque não tem outra
alternativa. Cai, nós precisamos ser falsos em sociedade. É necessário. Não tem,
por que a sociedade é uma falsidade. Pois é. Vínculos sociais são constituídos
em falsidade. O que você onde você manifesta a verdade é num vínculo afetivo
que é diferente no social. No vínculo afetivo você manifesta a verdade. No
vínculo social não seja besta de ser verdadeiro, porque você vai se danar. Se
quando se manifesta isso no processo psicoterapêutico, abriu uma possibilidade
de evolução. Como é que essa possibilidade de evolução? É conseguir que aquela
experiência evolua, não que eu seja capaz de me responsabilizar por aquela
parte que nunca evoluiu. Não tem como evoluir uma parte que ficou fixado. Ficou
fixado, ficou fixado, acabou, cicatrizou e eu vou a partir de então reconhecer
que eu tenho essa fixação, aprender a me respeitar por essa fixação e me
responsabilizar por essa fixação. Pois é, eu tenho essa parte infantilizada
mesmo que não cresceu e agora eu vou aprender a a cuidar daquela parte, me
responsabilizar por essa parte e adequar essa parte, proteger essa parte para
que essa parte não influencie na minha vida e no fluxo da minha do meu
desenvolvimento. Não esgotei o assunto. Tem muita coisa mais para falar sobre
isso. Mas a espiral continua. A espiral continua. Parte dois a parte 23, né?
A
origem semântica da palavra “humano” está no latim humanus, relacionado
a humus, “terra”. Isso traz a noção das “coisas terrestres”, em oposição
ao que é da ordem do “divino”. O termo “humanidade” guarda enorme ambiguidade,
chegando a se tornar ambivalente. Manifesta valores duvidosos, hesitantes e até
opostos quando nos propomos a refletir atentamente. Muitas vezes, usamos esse
conceito para denotar uma atividade benevolente, compadecida e até caridosa ao
próximo — e por que não, a nós mesmos? No entanto, a realidade nos revela que o
ser humano é uma criatura cruel, se não a criatura mais nociva do planeta. “Na
realidade, o ser humano vem se revelando uma espécie de criatura muito danosa
para a natureza, já que, à medida que ganha espaço, coloca em risco inúmeras
espécies, assim como destrói ecossistemas, incluindo sua própria espécie.”
(Martino, 2025) Sendo assim, quando agimos com benevolência e compaixão, parece
ser justamente quando renunciamos à humanidade para transcender a um plano mais
nobre da existência. Reservado ao meu raso conhecimento das escrituras
sagradas, me parece que a frase “Meu reino não é deste mundo”, declarada por
Jesus a Pôncio Pilatos (João 18:36), tinha a ver com isso. Ora, me parece que o
ser humano tem extrema dificuldade em lidar com atitudes que incluam amor, paz
e verdade, evitando-as até as últimas consequências. Os humanos são
extremamente apegados à materialidade das coisas, logo, inábeis em lidar com a
impermanência das coisas terrenas. Portanto, se concordamos com essa breve
explanação, a expressão “se tornar mais humano” está distante — ou mesmo é o
avesso — de tudo o que concebemos de mais nobre nessa vida.
Martino. R. D. ESBOÇO DE EXPANSÃO: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.
Então, nós vamos falar aí da relação da tolerância e da configuração do corpo físico, da parte do sujeito que está configurada na materialidade das coisas, naquilo que é possível constatar com os órgãos dos sentidos, aquilo que eu posso ver, aquilo que eu posso cheirar, aquilo que eu posso ouvir, aquilo que eu posso tocar, aquilo que eu posso ouvir. a relação da tolerância com esta instância material da existência.
CAPACIDADE SIMBÓLICA
A simbolização, a capacidade simbólica do sujeito é o que determina a saúde mental desse sujeito. E aí entra um grande equívoco na linguagem popular. Normalmente se atribui ao ego uma característica extremamente narcisista, extremamente nociva. O sujeito que tem um ego proeminente é um sujeito nocivo, quando na realidade é o contrário. O ego é a instância fundamental para que o sujeito seja capaz de renunciar das coisas. Um sujeito que não tem um ego estruturado é um sujeito que não é capaz de renunciar, não é capaz de se dedicar ao outro. O sujeito só pode ser capaz de se dedicar ao outro se ele tiver um ego bem nutrido e bem estruturado.
ESTOU SENDO
No entanto, se o ego estiver desnutrido, eu não estou sendo. Eu estou sendo guiado pelo deveria ser, porque o meu ego está desnutrido. E aí já não é mais o ego que está me guiando, é o meu superego, que é o deveria ser. Para que eu possa estar sendo, eu preciso estar com o meu ego bem estruturado e bem nutrido. E o ego só pode estar bem nutrido através da capacidade de simbolização. E a capacidade de simbolização só pode ser desenvolvida através de vínculos saudáveis com o outro.
DESEMPENHO DO ESTAR SENDO
Quando eu estou desnutrido no meu ego, eu não consigo confiar naquilo que eu estou sendo. Logo, não desempenho aquilo que estou sendo, porque o que está me guiando é o que eu deveria ser. A minha atitude hoje não é passiva da minha confiança. Então tudo que eu faço, eu questiono, eu critico, eu olho para aquilo como algo que eu não deveria ter feito e eu deveria ter feito de outro jeito. Eu deveria fazer de outra forma, eu deveria ser outra coisa, porque aquilo que eu estou sendo não é aprovado por mim mesmo. Logo, eu não estou sendo. Eu deveria ser. Tudo que eu estou sendo é invalidado em nome de algo que eu deveria ter sido.
ESTAR SENDO E AMOR-PRÓPRIO
O estar sendo não pode estar subordinado aquilo que eu gosto. Não pode estar subordinado àquilo que me agrada, porque aquilo que eu estou sendo dificilmente me agrada. Ainda assim, o amor-próprio é confiar em si mesmo, respeitar a si mesmo, amar a si mesmo, independente de não estar sendo aquilo que eu gostaria de ser, porque eu estou sendo aquilo que eu dou conta de ser. E o estar sendo tem muito mais a ver com dar conta, com ser capaz de do que agradar a si mesmo.
COM-FUSÃO
Quando existe a dificuldade de simbolização, acontece a confusão com o outro. O sujeito se funde ao outro. O sujeito não é capaz de reconhecer o limite entre ele e o outro. ele passa a ser uma extensão do outro ou ele passa a obrigar que o outro seja uma extensão dele. E esse tipo de relação é justamente a relação que vai ter o desdobramento da melancolia quando houver a perda de uma das partes.
SIMBOLIZAÇÃO DO VÍNCULO
A simbolização é algo que acontece a partir da tolerância. O sujeito que desenvolve a tolerância, ele é mais capaz de simbolizar e quanto mais ele simbolizar, mais tolerante ele se torna. É muito interessante isso. A simbolização é a internalização de uma experiência, a internalização de um vínculo. Quando a gente fala de simbolização, nós estamos falando acima de tudo da simbolização da experiência, do vínculo e do objeto juntos. Quando o bebê simboliza a mãe, ele não simboliza só a mãe, ele simboliza as experiências que ele teve com essa mãe no vínculo. Ele simboliza a história dele com essa mãe, não é simplesmente a mãe.
O SEIO
Quando em psicanálise a gente fala de seio, a gente não está falando daquele órgão que está na mulher. Nós estamos falando de uma experiência enorme, complexa. Seio não é simplesmente um órgão do corpo físico, mas é uma experiência. A simbolização do seio não é simplesmente simbolizar uma parte do corpo da mãe, mas é simbolizar toda uma experiência que ocorreu desde o nascimento. Uma experiência de nutrição, uma experiência de acolhimento, uma experiência de relação com a mãe num vínculo saudável. Então, seio não é simplesmente uma parte do corpo da mãe, mas é uma experiência complexa que vai ser simbolizada pelo bebê.
SIMBOLIZAÇÃO E MODELO
Todas as outras simbolizações que a gente vai tendo no desdobramento da nossa vida, inclusive na vida adulta, são evoluções, expansões da simbolização que a gente teve em relação à nossa mãe, ao vínculo com a mãe. são características que vão se desdobrando em outras relações que vão seguir este mesmo modelo de simbolização. Esta simbolização não vai acontecer naquilo que contemporaneamente aprendemos a chamar de tempo de qualidade. Não. A simbolização vai acontecer quando tudo estiver propício para isso. Este momento propício não vai escolher o tempo de qualidade para acontecer. Então, a mãe precisa estar com esta criança tempo integral para que ela possa viver e aproveitar dos momentos para a simbolização.
SIMBOLIZAÇÃO E O MOVIMENTO ESPIRALADO
Quando a gente fala da espiral, nós estamos falando que a vida é configurada por ciclos que a cada volta vão se alargando e se estendendo num eixo. Cada volta para que seja bem-sucedida, ela carece impreterivelmente de uma simbolização. Cada volta da espiral equivale a uma simbolização.
SÍMBOLO E ELEMENTO ALFA
Qual é a diferença do símbolo e do elemento alfa? Que que é o elemento alfa? É a transformação de um elemento bruto que brota do bebê e é projetado na mãe. A mãe, através da função alfa, transforma este elemento bruto, que seria o elemento beta, em elemento alfa, e devolve para o bebê. A partir dessa possibilidade de receber esse elemento alfa, abre-se a possibilidade da simbolização. Então, o elemento alfa precede a simbolização. Sem a função alfa não abre-se a possibilidade da simbolização. A simbolização é um complexo de elementos alfa. São vários elementos alfa que vão se juntando. Aliás, o elemento alfa tem esta característica que o elemento beta não tem, de se agregar um ao outro, de se ligar a um ao outro. E a partir daí vai se criando a possibilidade da simbolização. A simbolização é mais complexa do que a função alfa.
ELABORAÇÃO E SIMBOLIZAÇÃO
A elaboração é um elemento da reparação. Quando eu elaboro, eu estou reparando. Elaborar não é reparar, mas elaborar é um elemento da reparação. Quando eu estou elaborando alguma coisa, eu estou trabalhando esta coisa para que esta coisa possa ser reparada. Elaborar um vínculo é prepará-lo para que ele possa ser reparado no dano que possa ter acontecido, na falha que possa ter acontecido. E esta falha aconteceu justamente na simbolização. Então, a elaboração prepara para a reparação da simbolização. Então, muitas vezes o paciente chega com um problema que vai ser elaborado para reparar uma simbolização que não foi feita adequadamente.
SIMBOLIZAÇÃO E LUTO
A simbolização está diretamente ligada ao processo do luto. Cada elemento do mundo que você perde, cada objeto amado que você perde no mundo, você precisa ter simbolizado isso para viver o luto. Então, a vida toda é baseada numa constante simbolização, porque a vida é perder. Amadurecer é aprender a perder. E se amadurecer é aprender a perder, a simbolização é o que fundamenta a maturidade. Logo, a possibilidade de viver os processos do luto.
SIMBOLIZAÇÃO E TOLERÂNCIA
Nós temos uma parte do eu que é material e pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos e uma parte do eu que não pode ser confirmada pelos órgãos dos sentidos. Se eu não for capaz de simbolizar esta parte que não pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos, simplesmente não existe, porque a simbolização depende da capacidade de se relacionar com aquilo que não pode ser confirmado pelos órgãos dos sentidos, que é justamente a questão do sujeito que tem a predominância psicótica da mente. Ele não acredita que ele exista. Ele é uma alucinação. E se ele for uma alucinação, todo o resto do mundo também o é.
PARA ALÉM DO CORPO FÍSICO
duas formas de se reconhecer a existência do sujeito. O sujeito que é um corpo e que tem algo para além desse corpo. E o sujeito que é este algo que está para além do corpo e este algo está no corpo. Não vou definir agora o que que é este porque é algo muito maior, é alguma coisa que transcende a possibilidade do conhecimento, já que não está dentro da perspectiva sensorial. Não estando dentro da perspectiva sensorial, não pode ser conhecido. Então, todas as vezes que você ouve um sujeito dizer assim: "O psicanalista é um conhecedor da alma humana". Não, este é um grande equívoco, porque a alma não pode ser conhecida
DO QUE FOI SIMBOLIZADO
O símbolo não é algo adquirido. O sujeito não simboliza e passa a ter esta simbolização como algo que foi adquirido e é dele. Não. Este símbolo precisa ser constantemente nutrido. nutrido de reencontros, muitas vezes reencontros internos. Muitas vezes o sujeito se reencontra internamente com aquilo que foi simbolizado, mas na realidade o sujeito simboliza o vínculo com o objeto. E aqui falamos objeto tendo como objeto o outro. Ele simboliza o vínculo que ele tem com o outro, não é o outro. Isso é um salto.
O APARATO FISIOLÓGICO
Nós não podemos excluir as falhas que possam acontecer no corpo físico, no aparato fisiológico do sujeito, mas na realidade a maior parte do que a gente chama de déficit de atenção tem a ver com uma impossibilidade de simbolização da mãe, da capacidade de estabelecer um vínculo e simbolizar este vínculo com a mãe. este vínculo que vai servir de modelo para todas as outras simbolizações que vão acontecer e que vão trazer para esse sujeito uma integração necessária para que ele possa ter um bom funcionamento num primeiro momento emocional e que se desdobrará no funcionamento cognitivo, logo na possibilidade de atenção das tarefas que ele possa vir a fazer
DIFICULDADE DE SIMBOLIZAÇÃO
Todas as vezes que eu perceber uma compunção na confirmação sensorial do mundo material, que aí acaba sendo até um pleonasmo, o mundo material só pode ser confirmado com os órgãos dos sentidos, eu estou frente a uma possível dificuldade de simbolização. Quando há simbolização, quando há a capacidade simbólica, a confirmação compulsiva do mundo material diminui. O corpo físico quando precisa ser confirmado o tempo todo, quando eu preciso estar ali o tempo inteiro, ã, novamente olhando e revisitando e confirmando, eu estou ali possivelmente frente a uma dificuldade de simbolizar o vínculo do eu para com o meu eu físico material.
ATRAÇÃO
O sujeito quando se reduz ao corpo físico, ele acaba atraindo pessoas materialistas. Ele acredita que o corpo físico é algo que tem uma importância muito grande e ele vai se aproximar e atrair pessoas que valorizam o corpo físico em detrimento de reconhecer que nós somos muito mais do que simplesmente um corpo físico. E é interessante que esse mesmo sujeito que valoriza o corpo físico exacerbadamente, que atrairá pessoas que também o fazem, depois vão se queixar de serem usadas como um objeto, assim como se faz com um corpo físico.
LEI DA ATRAÇÃO
Como é que seria essa coisa da lei da atração dentro da psicanálise, dentro da visão da psicanálise? Nós tendemos a reconhecer no mundo somente aquilo que foi internalizado. Então, nós procuramos no mundo confirmações daquilo que nós já temos. E aí a gente vai chamar isso de saturação. O nosso aparelho sensorial está saturado e tende a buscar repetições daquilo que já está internalizado. E aí o que acontece é que aquilo que a gente chama de realidade, na verdade são representações do que a gente pôde ter desta realidade. Logo, vamos atrair ou vamos nos aproximar daquilo que está no mundo interno. Não vamos conseguir nos atrair ou nos aproximar de algo que ainda não temos internalizado.
ALGORITMO
Nós temos hoje uma coisa chamado algoritmo nas redes sociais que exemplifica muito essa coisa da lei da atração. Quanto mais você se interessa por alguma coisa, mais aquela coisa vai aparecer na sua linha do tempo das redes sociais. E isso é um modelo de lei da atração. Foi você que buscou aquilo a princípio e aquilo começa a vir com abundância. E aí o sujeito começa a olhar aquilo com tanta frequência que ele começa a se irritar. E aí ele diz assim: "Eu vou abandonar as redes sociais". Mas meu amigo, foi você que buscou isso?
REPETIR
O sujeito se queixa de ver novamente a mesma coisa, ver aquilo de novo e eu vi aquilo de novo. Não aguento mais ver aquilo de novo. Mas na verdade o que você não aguenta é ver o novo. Você não dá conta de se abrir para ver que existe muito mais coisas do que aquilo que você está vendo. ou melhor, existem outros vértices daquilo que você está vendo para que você possa reconhecer. Mas o sujeito está fechado. Ele continua olhando para as coisas de um único vértice. Ele não consegue expandir o mínimo possível da consciência em relação às coisas. E aí parece sempre repetitivo mesmo.
PENSAMENTOS
O B propõe que nós somos pensamentos em busca de pensador. Então, nós não somos pensadores. O que está falando aqui são pensamentos que o pensador está pensando. Então, nós não somos o aparelho de televisão. Nós somos um sinal que o aparelho de televisão está transmitindo. Porque senão a gente começa a acreditar que a televisão é que está produzindo os programas. Não, não é a televisão que está produzindo os programas. Se você desligar a televisão, os programas vão continuar acontecendo. Assim, da mesma forma, somos nós.
SIMBOLIZAÇÃO E RENÚNCIA
A simbolização requer desapego, requer renúncia. Ser capaz de simbolizar é um sinal de que você foi capaz de renunciar, de se desapegar. Símbolo é juntar. E você só vai conseguir juntar se for capaz de renunciar. Renunciar do quê? do real material, do real concreto, da materialidade das coisas, da coisificação do mundo. Agora, a diabolização, que é o contrário da simbolização, é a separação, é a divisão. E a divisão pressupõe apego à materialidade, pressupõe a satisfação imediata, pressupõe o afastamento dos desconfortos e das frustrações.
LEMBRANÇA E RECORDAÇÃO
Lembrança é uma coisa, recordação é outra. O sujeito que é apegado às lembranças é porque ele não conseguiu simbolizar. Mas o sujeito que simbolizou, ele vai frequentemente ser inundado de recordações. A recordação é uma lembrança afetiva, saudável. É recordar. Re novo cor que é coração e dar que é doar. doar novamente ao coração. A recordação vem como um resgate, uma forma de revisitar o passado de maneira afetiva e saudável. E nisso eu posso ali reparar alguma falha no vínculo que eu estou recordando. Eu posso resgatar um modelo para que eu possa me utilizar no tempo presente, que é diferente da lembrança. A lembrança é sempre alguma coisa que eu preciso ir lá e puxar, ir lá e buscar. A recordação não se busca, ela vem.
LEMBRANÇAS E O PRESENTE
O sujeito que fica resgatando lembranças, fica buscando lembranças, é porque ele não está dando conta de viver o presente. O passado vem como uma tentativa de apaziguar a ansiedade e as angústias que estão ocorrendo em relação ao que ele está vivendo no presente. Quando o presente começa a ser um ambiente de tempo e espaço saudável, as lembranças vão sendo abandonadas, porque o presente está suprindo tudo aquilo que meu aparato emocional carece.
RESGATE DA MEMÓRIA
A lembrança é quando o sujeito, por exemplo, está num relacionamento tóxico, preso num relacionamento tóxico, que não acredita que é capaz de se libertar daquilo e ela fica buscando lembranças do relacionamento anterior que ela teve ou sonhando com o próximo relacionamento que ela possa ter. lembrança e expectativa, memória e desejo, porque o presente não está sendo saudável. Mas a recordação é diferente. A recordação é quando num tempo presente você se pega recordando de um momento, de uma experiência agradável que você teve com uma pessoa amada que já não está mais no tempo presente. Essa experiência com essa pessoa pode te sugerir modelos afetivos para que você possa usar hoje.
OBESIDADE
A questão da obesidade é complexa porque inúmeros fatores podem desencadear um processo de ganho de peso exacerbado. Não podemos atribuir somente a uma disfunção ou alguma falha no funcionamento emocional à obesidade. É claro que algumas falhas no processo de simbolização ou em qualquer outro processo que possa acontecer dentro do âmbito emocional pode vir a desdobrar-se num processo de obesidade. Mas nem todo o processo de obesidade tem a ver com o funcionamento emocional. É muito importante que a gente possa ter essa clareza.
COMPULSÃO ALIMENTAR
numa possibilidade de ganho de peso, fora do natural, fora do saudável, que esteja ligada ao processo emocional, a gente poderia levantar algumas hipóteses. A dificuldade de simbolização do seio pode vir a desencadear um processo de obesidade na medida em que a criança não consiga se alimentar de maneira adequada e acabe atribuindo ao seio algo que não é o seio real. É como se ela estivesse o tempo todo buscando um seio que nunca consegue encontrar. Muito provavelmente cada angústia, cada ansiedade vai ser associada à alimentação. E nesse caso pode vir a se desenvolver um quadro de obesidade. aquilo que normalmente seria uma nutrição afetiva, não consegue sair da nutrição material ou concreta do leite, do alimento do corpo para o alimento da alma, por assim dizer, e fica preso à materialidade das coisas. Então fica uma busca perene de algo que está no corpo, mas na realidade o que está empobrecido ou o que está desnutrido é o aparelho psíquico. É uma desnutrição afetiva.
PRAZER ALIMENTAR
Eu me lembro aqui de uma paciente, há muito tempo atrás, que tinha uma expressão que era jocosa, mas na realidade acontecia de verdade. Ela dizia assim: "Aí eu fiquei nervosa e eu comi só de nervoso". Então cada vez que ela se irritava, cada vez que ela perdia a paciência, ela recorria à satisfação gastronômica, por assim dizer, né? comia exacerbadamente como uma tentativa de apaziguar a sua tensão nervosa. Então, muito provavelmente o que acontecia aí é uma dificuldade de simbolizar o seio da mãe que viria para apaziguar não só com o leite, mas com o afeto da mãe também. E quando essa relação é bem-sucedida, nutre as partes e a simbolização pode acontecer.
RECOMPENSA
Se você comer, você vai ganhar uma recompensa. Essa é uma inadequação na criação dos filhos que pode trazer desdobramentos terríveis, extremamente nocivos, não só com alimentação, mas com qualquer coisa que seja da necessidade de ser feito. Qualquer experiência, qualquer tarefa que seja da necessidade de ser realizada, não deve se oferecer recompensa. Aquela tarefa deve se completar nela mesma. O se alimentar se completa em si mesmo. Oferecer uma recompensa para criança tomar banho é um grande absurdo, porque o banho deve se completar em si mesmo ou estudar ou qualquer outra coisa.
MECANISMO DE DEFESA
Quando o sujeito passa a apresentar algum comportamento inadequado, que que eu estou chamando de inadequado, que foge a naturalidade, que foge a esfera do saudável. Este comportamento é uma manifestação de uma defesa. Ele está se defendendo de algum sentimento que ele não está conseguindo tolerar. Então ele cria uma forma comportamental de agir inadequadamente para se defender esta ordem de sentimentos. Sempre que a gente for olhar para algum comportamento do paciente, a gente precisa respeitar aquilo, porque por trás daquilo tem alguma coisa que precisa ser cuidada. Quando a gente tenta cuidar do comportamento, a gente acaba fechando os olhos para o funcionamento que está inadequado e gerando comportamento.
Existem inúmeros fatores, dentro da ciência quântica, da física quântica, que concordam com a ciência psicanalítica. E aí, um nome extremamente importante dentro da física quântica é o Werner Heisenberg (1901 — 1976), que ele vai trazer a possibilidade de a gente perceber as coisas com um vértice do princípio da incerteza. Ele percebeu que, quando ele estudava uma partícula quântica. Ou seja, a menor partícula que se pode estudar, que se pode conhecer, ele precisava jogar um foco de luz nesta partícula, para que ele pudesse estudar. Sem luz não tem como você visualizar esta coisa, mas quando ele jogava esse foco de luz nessa partícula, a luz trabalha através de partículas de fóton, essas partículas ao baterem nesta partícula que se tentava ser estudada interferia na possibilidade de estudo. Não tinha como ter uma certeza daquilo, porque todas as vezes que se iluminava isso, isso sofria uma mudança. É claro que não só a partir disso, mas um estudo muito maior, que eu estou tentando sintetizar de uma maneira extremamente grosseira aqui, mas não se pode ter uma precisão de uma partícula quântica por conta da luminosidade que é necessária para estudar, e aí, na psicanálise, isso surge como uma dádiva, porque não é a função do psicanalista, jogar luz no material que o paciente traz.
A nossa função é justamente o contrário. Nós precisamos trazer a possibilidade de um foco de escuridão, nós precisamos apagar as luzes, para que o paciente possa se iluminar por si só. Não é função do analista iluminar alguma coisa, é função do psicanalista propicia é um ambiente de silêncio e de escuridão, para que o paciente possa iluminar-se por si só, iluminar as suas ideias. A luz não vem do analista, a luz vem do interior do paciente.
Assim como um físico quântico, o psicanalista precisa, sempre abrir sua atenção, incluindo a possibilidade da incerteza. O Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), vai chamar isso daí de “capacidade negativa”, da possibilidade de viver uma incerteza, ou de não se convencer com um saber antecipado. Estar sempre aberto a algo que possa surgir, algo que possa estar ali, que ainda não tenha sido notado.
O paciente chega na clínica sofrendo da certeza. Ele tem uma certeza e aquela certeza começa a conduzir a vida dele ao ponto de obstruir o fluxo na sua vida. Porque a vida incerta, porque a vida não tem uma saturação, porque a vida é transformação, porque a vida são possibilidades. Nos julgamos definidos, porém somos possibilidades.
A física quântica contribui dentro nessa perspectiva para as formulações psicanalíticas, quando a gente é capaz de tolerar a incerteza, nós desobstruímos o fluxo da vida e permitimos que as coisas comecem a acontecer a partir das possibilidades. Esta certeza, que o paciente chega trazendo é colocada lá pela Melanie Klein (1882 — 1960) como um mecanismo de defesa da posição esquizoparanóide, naquela posição em que o sujeito cinde a realidade em bom e ruim. Este mecanismo de defesa, é o mecanismo de defesa da onisciência. Então, ele já sabe tudo e a partir do processo psicanalítico, ele vai dissolvendo isso. Ele vai percebendo, porque ele não sabe nada, que ele é um grande ignorante, como todos nós somos, mas aí ele passa a ter consciência desta ignorância e isso é libertador.
Grande parte dos pacientes, sofrem justamente disso, de ter que saber. Nós vemos aí, sujeitos aí, propondo a física quântica como alguma coisa mágica, que faz com que você consiga tudo que você deseja, que é só você ficar pensando assim, ou assado, te dando ali tarefas ou exercício para que você... Não, a física quântica não é nada disso. Isso aí é um mau uso do que a gente chama de física quântica. Assim como nós temos inúmeros ditos psicanalistas, ou supostos psicanalistas usando a psicanálise no mesmo propósito, prometendo coisas ao outro, prometendo processos mágicos de conseguir o que o outro deseja.
Não, não é nada disso! Tanto a física, quanto a psicanálise tem um pressuposto muito claro de tolerar a dúvida, tolerar a incerteza, ser capaz de tolerar o desconforto da sua própria ignorância. É justamente isso, ser capaz de renunciar ao desejo do que você gostaria que fosse para que você possa reconhecer a realidade, assim como ela é, e não como você gostaria que ela fosse. O psicanalista lida com o inconsciente. Se existe um conceito, um termo que baliza, ou que, na realidade fundamenta toda psicanálise, este conceito é o inconsciente.
Se nós estamos falando de inconsciente, dentro da perspectiva psicoterapêutica, nós estamos falando de psicanálise. A descoberta do inconsciente foi a maior descoberta de Sigmund Freud (1856 - 1939), sem sombra de dúvida. Então, se o psicanalista lida com inconsciente, ele não pode lidar com o saber, porque o inconsciente não está disponível ao saber. Pode, na melhor hipótese, ser reconhecido, que diz respeito a admitir que existe e não saber sobre. Quando a gente está falando de psicanálise, quando a gente está falando de física quântica, quando a gente está falando de formulações religiosas, a gente está falando de ser capaz de tolerar a dúvida e não estar focado em um resultado pré-estabelecido.
De ser capaz de tolerar o fluxo incerto da vida e não buscar a realização de um desejo. Então, tanto o crente que está lá na igreja tentando buscar com aquela estada ali, com aquele contato que ele tem com Deus, um benefício com isso, conseguir o seu lugarzinho no céu. O quanto o paciente que busca psicanálise buscando conseguir aquilo que ele tanto quer, ou realização do seu desejo. Quando os cientistas, que começa a estudar, não por uma descoberta científica, mas confirmar aquilo que ele já sabia, que ele supostamente já sabia. Todos estão equivocados! Um sujeito que não tem uma filosofia nobre, ele vai usar essa psicanálise para um mau propósito.
Em todas as áreas, desde a medicina, passando pela psicanálise, passando pela ciência quântica, passando pela política, passando pela religião, passando por todas as os vértices aí, do conhecimento humano, nós temos esta configuração. Uma filosofia de péssima qualidade, conduz esse pensamento para o mal propósito.