terça-feira, 11 de maio de 2010

Entre o amor e a amizade

Arte: Orlandeli



Um relacionamento que se inicia muda a rotina.
O casal quer encontrar-se em todos os momentos livres.
Estar junto é o que importa.
Porém, os amigos antigos começam a cobrar sua presença.
“Esqueceu dos amigos? Não gosta mais da gente?”

Manutenção da amizade

O professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino não acredita que uma amizade saudável possa ser destruída por um terceiro, no máximo um afastamento temporário. “De maneira contrária, é um bom sinal de que nunca foi realmente amizade”, diz. Na realidade, é interessante que cada um perceba a qualidade do vínculo que mantém e escolher como mantê-los, seja com amigos ou com amores. “Muito perigosa é a relação onde um decide com quem o outro deve se relacionar”, afirma Martino.

No entanto, mulheres podem manter amizade com amigos. E homens podem continuar o vínculo com amigas sem que isso interfira no relacionamento. E isso só é possível quando existe a capacidade de percepção e manutenção de certo limite que guarda e protege as relações, e para isso, responsabilizar-se por si mesmo é imprescindível. “Aquele que não é capaz de estabelecer certo limite, nunca perceberá a qualidade das relações, e assim uma relação acaba por ameaçar a outra, pois nunca se sabe muito bem até onde vão”, diz Martino.


Entrevista na integra

Francine Moreno - Porque um novo relacionamento pode influenciar nas amizades existentes antes da formação do casal?
Prof. Renato Dias Martino - Quando um casal está apaixonado, cria-se sempre certa fantasia de completude na dupla, onde o resto do mundo fica de certa forma, desvalorizado. Na medida em que o casal vai criando maior confiança à paixão vai dando lugar ao amor e esse quadro tende a amenizar. Contudo, muitas vezes quando um casal se une, pode ter a chance de construir um novo modelo de vínculo, onde elementos como respeito e amor estejam mais presentes e frequentes e assim acaba-se por questionar as outras relações, que podem não apresentarem essas qualidades. Isso é muito claro no inicio de uma psicoterapia, que também é um novo relacionamento.

Francine Moreno - Muitas amizades terminam à pedido do novo parceiro (a). Até que ponto isso é positivo ou negativo?

Prof. Renato Dias Martino - Não acredito que uma amizade saudável possa ser destruída por um terceiro, no máximo um afastamento temporário, de maneira contraria é um bom sinal de que nunca foi realmente amizade. Na realidade, seria muito interessante que cada um pudesse perceber a qualidade do vínculo que mantém e escolher como manter-los, seja com amigos ou com amores. Muito perigosa é a relação onde um decide com quem o outro deve se relacionar.

Francine Moreno - Isso quer dizer que há insegurança na relação? O que mais representa esse tipo de pedido?

Prof. Renato Dias Martino - São infinitas as ocorrências e inúmeras às experiências de insegurança que se pode viver num relacionamento. Não obstante, num vínculo saudável, é muito provável que ao perceber algum movimento de vínculo num modelo tóxico com algum “amigo”, o novo parceiro possa sugerir que isso não esteja fazendo bem e assim mostrar que talvez não seja uma boa companhia. O perigo é quando isso se transforma num vínculo de dependência onde um escolhe pelo outro.

Francine Moreno - Porque algumas pessoas aceitam esse tipo de contrato. Ou eu ou seu amigo (a)?
Como fazer o parceiro (a) relevar o pedido e fazer com que não perca amizade? È uma questão de diálogo?


Prof. Renato Dias Martino – Muito provavelmente aceitem, pois já cultivam dentro de si um descrédito à própria capacidade e habilidade de perceber o que pode estar fazendo mal no que concerne à escolher amizades. A saber, isso muito provavelmente, guarda sua origem numa relação familiar onde pais não são capazes de estimar o que os filhos escolhem e na verdade acabam por desvalorizar as opções deles. O dialogo sempre é o melhor caminho, mas me parece que situações crônicas como essa de “ou eu ou seu amigo (a)” já revelam a ineficácia do dialogo. Já que grande parte de um vínculo doente, inclui muito menos a palavra, e muito mais a criação de certo ambiente emocional silencioso de dependência.

Francine Moreno - E quando há dialogo e a proposta de deixar a amizade permanece. Esse comportamento já dá detalhes de como será a relação?

Prof. Renato Dias Martino - Perceba que é justamente o que proponho na questão anterior, ou seja, o que acontece com relações doentes. A palavra não tem qualquer efeito, pois ambas as parte consentem no vínculo de dependência, de forma muitas vezes inconsciente, logo incapazes de serem discutidas conscientemente, onde o “eu” (cada um) responsabiliza-se por si mesmo. São resquícios de experiências emocionais pré-verbais onde não se podia contar com a expressão falada.

Francine Moreno - Como mulheres podem manter amizade com amigos. E homens podem continuar o vínculo com amigas sem que isso interfira no relacionamento?

Prof. Renato Dias Martino – Isso só é possível quando existe a capacidade de percepção e manutenção de certo limite que guardam e protegem as relações, e pra isso responsabilizar-se por si mesmo é imprescindível. Aquele que não é capaz de estabelecer certo limite, nunca perceberá a qualidade das relações e assim uma relação acaba por ameaçar a outra, pois nunca se sabe muito bem até onde vão.

Francine Moreno - A protagonista do seriado "Ghost Whisperer" disse certa vez ao marido que o problema não era o amigo, mas no que o parceiro que transformava quando estava com ele. E realmente isso acontece diariamente. Porque algumas pessoas se modificam quando estão com o amigo (a)?

Prof. Renato Dias Martino - Talvez, por um despreparo na capacidade de se manter integro. Possivelmente ele se sente limitado em ser realmente quem é quando no ambiente do casal. Ao encontrar com o amigo sente-se seguro para revelar a parte que é reprimida na companhia dela.

Francine Moreno - É possível ser feliz só com amigos ou só com o parceiro (a)? Como encontrar o equilíbrio perfeito?
Prof. Renato Dias Martino - Quando podemos reunir os dois e criarmos certo vínculo onde compreenda sermos também amigos daquele que escolhemos como parceiros, muito provavelmente diminuiremos as amizades externas, mantendo apenas as mais próximas e escolhendo um modelo menos achegado para a maioria. Assim, se pode criar um ambiente menos perigoso para se viver aquilo que está na ordem das experiências de afeto e das emoções.

Linck para a matéria na integra: http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Divirtase/Comportamento/8955,,Entre+o+amor+e+a+amizade.aspx
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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 

renatodmartino@ig.com.br
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domingo, 9 de maio de 2010

Reflexão sobre perversão

Os desvios no amor
Renato Dias Martino


...A saber, que o homem não é realmente um só, mas verdadeiramente dois em um. Digo dois, porque o estado dos meus conhecimentos não vai além desse ponto. Outros virão, outros me ultrapassarão nessa mesma direção, e aventuro-me a pensar que o homem será finalmente conhecido como um simples agregado multiforme de cidadãos incongruentes e independentes uns dos outros. O Medico e o Monstro, Robert Louis Stevenson (1850-1894).




Dr. Jekill deixa uma carta relatando sua experiência. Escreve uma longa carta que antes de tudo traz a revelação de um momento reflexivo daquele que tivera um insight (compreensão interna) sobre si mesmo. Alguém que descobrira o terrível fato de que talvez sua maior perversão fosse justamente o que o permitira manter-se intenso em suas realizações.


Talvez em sua busca por ser alguém livre de imperfeições, tivera que criar no quarto dos fundos de sua alma, um perverso. Alguém que ele mesmo não conhecera. E quando o pode conhecer, foi o fim. Na obra de Stevenson, Dr. Jekyll, um dedicado medico que reunira em torno de seu nome, qualidades como as de cavalheirismo, educação e bondade, desenvolve uma formula que permite transformá-lo em Mr. Hyde, um ser frio e nefasto que age essencialmente por seus impulsos. O uso da poção decompunha a personalidade do medico que assim, se tornava alguém dividido. Um recurso criado por ele, antes de tudo, para conseguir continuar vivendo. Justifica-se com o argumento de que, amiúde era tomado por certos desejos estranhos que ameaçavam o desenvolvimento e até a existência do medico bem sucedido. O preparado farmacológico não criava alguém novo, mas revelava uma parte escondida no interior do gentleman. Ao beber da poção, o medico era arremessado para a extremidade avessa do médico, ocupando sua alma da irracionalidade do monstro. O uso da substancia química criava um fenômeno onde era evitando assim a experiência do conflito, já que delegava a cada parte do eu, uma escolha. Enquanto Dr. Jekyll (que carrega a morte em seu nome; kill), abriria mão do desejo proibido e assim revelava um homem amável e preocupado com o outro; Mr. Hyde (escondido em inglês), de forma inversa, abre mão da realidade e satisfaz o impulso perversamente, atacando pessoas num ódio mortal pelo ser humano. Entretanto, o maior oprimido e grande sacrificado pelos atos perversos de Mr. Hyde seria exatamente Dr. Jekyll.
O que poderia nos permitir cogitar, com propriedade sobre o que é perversão, que tipo de argumento poderia nos autorizar diagnosticar ou designar algo como sendo perverso?
A palavra "perversão", se entendida por um vértice onde é utilizada a linguagem coloquial, ganha logo um formato malévolo, um representante venenoso da crueldade. No dicionário (Michaelis 2003), encontraremos a palavra como sinônimo de expressões que aparecem desde contaminação, infecção, até corrupção, ou mesmo depravação. Se estivermos utilizando um estilo em que se usa vocabulário e sintaxe bem aproximados da linguagem do dia-a-dia, ou seja, coloquialmente, encontraremos a palavra perversão como significado de algo que se encontre, quem sabe, no avesso do que é humano. Na medicina (quiçá a primeira ciência a estudar o termo), a palavra perversão aparece como classificação de uma enfermidade, ou descrição de algum tipo de degeneração. Contudo, se procurarmos a origem da palavra, encontraremos no latin, per vertio, por sua vez
derivado de per vertere, que remete à noção de "pôr de lado", ou "pôr-se à parte".
A partir dos estudos da psicanálise, sobre tudo na obra de Sigmund Freud (1856-1939)
publicada em 1905 “TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE”, a conotação ganha alguns importantes ponderadores, apontando para a mesma direção semântica do radical determinador da palavra. Através de um exame mais polido, podemos apreciar maduramente a palavra em seu significado e assim perceberemos certos pontos de vista que permitem deslocar o conceito da posição fixa, no extremo oposto do bom, do bem, do humano e perceber um significado mais amplo que poderia abarcar o termo. Na psicanálise, o termo foi e é (esse trabalho é um exemplo disso) de essencial importância no escopo dos pensadores. Sendo cuidadosamente estudado e debatido desde o inicio dos estudos de Freud.
No segundo tópico do primeiro capitulo da obra freudiana de 1905 o termo é descrito como uma espécie de desvio. Mas, é importante percebermos que esse desvio ocorre no caminho em direção ao encontro sexual, ou a copula em si. Como que um adiamento temporário no objetivo da copula, assim como um desvio no caminho do desenvolvimento sexual, descritos como sadismo, masoquismo, pedofilia, exibicionismo,voyeurismo, etc. Um atalho que desvia do outro, ou do objeto e se direciona a satisfação narcísica. Como se em certo momento, o desejo de buscar o objeto externo convertesse simplesmente em desejo de satisfação do impulso.


Em “UMA CRIANÇA É ESPANCADA - UMA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ORIGEM DAS PERVERSÕES SEXUAIS” de 1919, Freud propõe que:
“Uma fantasia dessa natureza, nascida, talvez, de causas acidentais na primitiva infância, e retida com o propósito de satisfação auto-erótica, só pode, à luz do nosso conhecimento atual, ser considerada como um traço primário de perversão”.
Porém, é importante percebermos que, apesar de parte do eu pressionar a totalidade a olhar para outro lado, só pode desviar-se aquele que segue alguma direção. Freud postulara em 1905 sobre uma polemica idéia que ainda hoje nos parece de difícil compreensão, ou no mínimo, pega o leigo de surpresa, com certa sensação (muitas vezes repleta de restrições em seu reconhecimento) de que sempre sentira algo que ao mesmo tempo acaba de conhecer.
Logo, perceberemos o fato de que, utilizamos muito mal a palavra perversão, ou pelo menos limitamos muito sua utilização se atribuirmos a ela um movimento de reprovação. A idéia é que, a perversão se apresenta como componente, até mesmo da vida sexual sadia, sendo considerada pelo sujeito como qualquer outro pensamento secreto. Freud da um passo imenso na direção da necessidade de desfazer a fronteira insolúvel entre saúde e doença, pelo menos no âmbito psicológico, ou seja, quando se estuda a mente humana.


“As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança, e cuja supressão ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados — sua “sublimação” — destina-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais.”

É o que sugere Freud no seu “FRAGMENTO DA ANÁLISE DE UM CASO DE HISTERIA” (1905[1901]), e se pudermos sustentar a direção deste pensamento freudiano, verificamos que reprovar a perversão é reprovar parte do eu. Este afastamento temporário do objeto externo, tem a exclusividade e fixação (Freud 1905) como constituinte em seu modelo. Freud nos dizia que "a neurose é o negativo da perversão", ou seja, enquanto o neurótico fantasia, o perverso atua (accting out). Esse desvio ocorreria por uma impossibilidade de satisfação do desejo sexual, o que faria com que no neurótico, a partir da repressão do impulso, criassem-se sintomas que serviriam ao aparelho psíquico como substitutos da satisfação sexual. Logo entendemos que, a neurose esconde um desejo perverso, encoberto pelo sintoma. A partir deste ponto de vista, com auxilio da psicanálise, pudemos reconhecer que todos nós temos uma coleção de neuroses e da mesma forma, passamos assim a perceber a perversão como certa característica que pode ser descoberta, até mesmo no sujeito dito normal ou saudável. Mesmo no adulto que, pelo menos a priori, conquistara o status de maturidade, conserva-se em sua personalidade (em um lugar secreto) partes infantilizadas que amiúde se revelam em situação de hiperexcitação, ou mesmo no prenúncio da perda do objeto amado.

Através de um exercício de subjetividade poderíamos pensar em algo que se manifesta através do desejo, vem sempre acompanhada de certa ânsia. Desse modo, gradualmente suscita-se um processo gerador de um modelo de estrutura, algo que possa sustentar a viabilização desse desejo, mesmo que apenas imaginativamente. A partir dai produzir-se-ia uma qualidade especial de vínculo com aquilo que é da realidade, exatamente onde está o outro, o objeto externo. Antes de tudo, no caso aqui estudado, uma espécie de dificuldade de reconhecer, integrar-se e interagir com o real. Isso se pensarmos o ato sexual como um modelo de encontro entre duas partes diversas da realidade onde existe a possibilidade de criação de uma terceira.
Verificamos por esse caminho que através de uma escala de evolução, a perversão estaria para o amor, como um primeiro tipo, um modelo menos desenvolvido, entretanto, em desenvolvimento. Um protótipo do amor que tenta bravamente seguir em frente na tentativa de desenvolver-se.

Longo é o caminho que percorre o bebê até que aprenda a amar. Até que possa ser capaz de retribuir aquilo que recebeu de seus dedicados cuidadores e criar assim um modelo que possa servir a cada nova aproximação amorosa em sua vida. Tento propor que, talvez quem hoje ame, um dia desejou perversamente. Eros (deus do amor) é filho de Afrodite (deusa da beleza, sedução) a geradora do afrodisíaco.
Mas voltando a belíssimo romance proposto no inicio do texto, se o medico tivesse sido capaz de suportar a imperfeição de seus pensamentos perversos teria a chance de integração das partes de sua personalidade abrindo assim a oportunidade de viver algo real, logo imperfeito. Talvez custasse a ele momentos de “monstros”, contudo sob sua responsabilidade em detrimento da perfeição do gentil medico bem sucedido. Seguindo o mesmo caminho, percebemos que a despeito da formulação popular, onde o titulo de perverso é atribuído a descrição do vilão, malvado e agressor, também o papel de vitima se encaixaria na descrição perversa, quando cada agressor carrega uma vitima dentro de si, pronta a ser projetada naquele que possa oferecer um modelo adequado para receber essa função.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Pedofilia


Um termo que há muito pouco tempo era desconhecido da população. Muitas edições de dicionários da língua portuguesa sequer trazem essa expressão. Só nos últimos tempos é que nos vemos esbarrando nessa palavra com certa freqüência. Na verdade estamos sendo inundados por uma enxurrada de pedófilos que são despejados dentro de nossos lares todos os dias pelos meios de comunicação. Esse texto não pretende ser simplesmente parte desse fluxo, muitas vezes desordenado e repetitivo. Cheio de ódio (com razão) que muitas vezes impede uma visão mais realista e em troca seguimos um caminho onde a vingança é o objetivo.
Apesar disso, a proposta aqui é pensarmos mais atentamente no que é pedofilia e avaliarmos se algo pode ser transformado a respeito da idéia que se tem sobre o aumento considerável de incidência de casos dessa ordem. Abrindo assim novas possibilidades de focar o assunto e talvez percebermos melhor onde realmente se encontra a emergência.
Bem, ao que me parece, os casos de pedofilia têm sempre alguns aspectos que pela coincidência se tornam invariantes de caso para caso.
E é justamente daí que partiremos. Quero dizer que existem sempre características em comum aos casos de pedofilia divulgados pela mídia. Talvez nesse ponto esteja um sinal daquilo que tem que ser cuidado mais atidamente. Dificuldade de punir as pessoas envolvidas na rede, sobretudo as que fazem parte de dois grupos em particular. Em primeiro lugar os mais abastados financeiramente e em segundo, aqueles que na realidade deveriam estar cuidando da criança. Falo de casos onde a própria mãe é quem leva o filho para as mãos do ‘lobo’.



Na realidade o que se percebe é que a ânsia por punir o agressor acaba por desfocar a real origem do problema. Até onde pude verificar em minha breve pesquisa, quase que a totalidade dos casos traz o aspecto ‘desestrutura familiar’ como invariante. Falo que existe no histórico de vida de cada criança abusada, enorme incapacidade de contenção familiar. Lares sem qualquer condição de gerar um bom funcionamento emocional, que é o que vai permitir uma possibilidade de reconhecimento da realidade e de mundo.
Sendo assim surge a questão, "quanto se investe na investigação e punição e a contra ponto, quanto se investe na prevenção do problema no que diz respeito ao preparo efetivo das famílias? "Percebo que a tarefa de prenderem os ‘lobos’ tem tido maior intensidade do que a busca por proteger os ‘cordeiros’. Então, vamos construir jaulas e mais jaulas, pois eles não vão parar de aparecer tão cedo. O que estou tentando colocar é que, por mais que pareça desinteressante aos olhos dos que cheios de ódio só pensam em se vingar, ainda assim, no histórico da vida de cada pedófilo, existem experiências muito semelhantes às das crianças que agora ele abusa. A cogitação é sobre algo que se prolifera num ciclo de geração para geração.



Na família é onde conseguiremos os modelos que nos guiarão por nossa vida a fora. Quando o lar é um ambiente tranquilo e acolhedor, o risco de se cair no colo do ‘lobo’ fica sempre menor . Se isso procede como verdade, e se o intuito é realmente ir de encontro com o real problema, o foco principal é na família. Reestruturação dessa instituição chamada família, que em minha avaliação, passa por um momento sem precedentes. Ao se renunciar um modelo tido como antiquado, ou atrasado, entrou-se num processo de severa degradação.

Prof. Renato Dias Martino
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Reflexões sobre ser feliz


Apostar toda felicidade em qualquer coisa que seja, pode ser algo perigoso, sobre tudo quando nunca se conseguiu arranjar felicidade de outra maneira. É muito perigoso depositar todas as expectativas em algo que, como tudo na vida, não tem garantias de que vingará. O casamento é bom exemplo daquilo que pode ser uma fonte de felicidade quando faz parte de uma construção desse estado de espírito. Estado de espírito do qual, se torna questionável em sua existência de outra forma que não seja por períodos breves da vida. Nada que é real pode trazer certa fonte inesgotável de felicidade. Uma união feliz só se dá entre pessoas que criam situações felizes, ou atividades que possam trazer a felicidade.


A contra ponto, temos aquele que busca a felicidade através da solidão. Quando o poeta colocou, “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”, Tom Jobim (1927 - 1994) foi corajoso em Wave, ao proferir tal afirmação, pois comprou uma grande antipatia daquele que optou pela solidão, contudo de fato dificilmente se pode ser feliz sozinho. Na realidade não se pode existir sozinho. Sempre se tem alguém, por mais superficial que possa ser a relação. Acatar a decisão que se possa tomar em não se empenhar na busca por um companheiro é uma questão de respeito à capacidade que se pode ter em se vincular afetivamente ao outro, contudo, pensemos nas possibilidades que uma pessoa possa ter de realmente sentir-se feliz sem alguém com quem possa dividir sua própria alegria.

Pensemos então em que tipo de experiência levaria alguém à decisão de se viver sozinho e nunca mais se interessar por encontrar alguém para conviver. Em prol da saúde mental é bom que se cultivem momentos de solidão, na mesma medida, a prática da comunhão é um exercício da alma que nos faz evoluir como humanos e expandir nosso pensamento. Agora, aquele que só sente-se feliz sozinho e sempre se sente triste acompanhado está incluso numa caracterização de personalidade que guarda o narcisismo como principio. Na teoria psicanalítica, o principio do conceito de consciência para Sigmund Freud (1856-1930) diz respeito justamente aos elementos constitutivos do eu, que podem ser comunicáveis ao outro. Logo, se não se é capaz de comungar minha “felicidade” com o outro, dificilmente poderei acreditar que ela existe realmente.
Parece-me que felicidade e durabilidade são dois conceitos que vivem sempre se desencontrando. Penso que se existe algo que merece ser chamado de felicidade, talvez seja um conceito que defina um estado de espírito extremamente incerto. Para Dalai-Lama a felicidade é sempre o resultado da atividade criativa (1999). Assim, a felicidade é uma criação humana. Não existirá se não criarmos. A felicidade é filha da criatividade, sem uma a outra nunca será gerada e dificilmente permanecerá. Não podemos ser felizes com a criatividade do outro, aliás, não se pode “ser” feliz, podemos sim, nos encontrarmos no “estado” de felicidade. Felicidade me parece àquela frase que vem escrita no cartão de crédito, “individual e intransferível.” É possível que você seja capaz de ajudar o outro a encontrar a felicidade dele, contudo, não será necessariamente a sua. Muitas vezes tua felicidade pode até estar muito próxima da tristeza do outro.


Parece-me que a felicidade é como um gato que, por mais que você agrade, ele sempre acaba te arranhando. Fofinho, peludo, mas fugaz, escapa fácil. A única forma de se obter alguma certeza é castrando. Ah! Ai o bicho fica gordo e manso, no entanto, castrar, e ser feliz são coisas tão incongruentes.

Quero dizer que, se a proposta é vivermos na realidade, devemos admitir em nossas vidas certa dose de felicidade, assim como a mesma porção de tristezas. Apesar de o povo brasileiro ter uma característica muito marcante no que diz respeito a evitar a tristeza a qualquer custo, haja vista que o ‘carnaval’ inicia no natal e termina na páscoa, isso quando não alcança as festas juninas. O brasileiro sempre da um jeitinho para escapar da tristeza, contudo, escapar não é acabar com ela.


Brincadeiras a parte, é fundamental para o bom funcionamento mental, admitirmos períodos de tristezas, até para que se possa posteriormente, viver momentos felizes. A felicidade e a tristeza encontrar-se internos em nós e buscam encontrar representantes externos. Se nos sentimos tristes, nos identificamos com pessoas e coisas tristes e o contrario também é verdade, ou seja, alguém feliz se identificará com pessoas e coisas felizes e por elas se atrairá.
A capacidade de pensar é justamente o fator fundamental na definição do equilíbrio emocional. Na medida em que se é capaz de pensar de uma maneira afetiva nosso vínculo com o mundo e com o outro, é que nos tornamos senhores de nosso destino. Responsabilizando-nos por nossa própria tristeza e retirando da mão do outro a tarefa de nos fazer feliz. Tentando tolerar as tristezas, ou intemperanças do outro em prol da união. Respeitando a necessidade de cada um em ficar algum tempo sozinho.

Daí por diante o ambiente se forma para propor a si mesmo um modo feliz de viver, ou seja, uma vida onde exista espaço para momentos felizes que serão assim valorizados e cultivados. 


Capítulodo livro: MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica - 1. ed. São José do RioPreto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.



Prof. Renato Dias Martino







quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Desejo de Ser Outro


O ser humano é um ser desejante e assim como Sigmund Freud (1856 – 1939) coloca em 1914, Eros é o que o impulsiona em direção aos vínculos que deve fazer com o mundo externo, ou com aquilo que existe para além do eu. Contudo, porém não obstante Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981) da escola psicanalítica francesa, propõe que o primeiro e maior desejo do ser humano é o de ser desejado. Isso é de fácil compreensão se partindo de um pressuposto onde o bebê passa a primeira fase (a mais delicada e importante) do desenvolvimento da vida emocional, em inteira dependência do outro (mãe).


Nessa mesma direção o psicanalista e pediatra inglês Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) coloca em 1941, numa reunião científica da British Psychoanalytical Association, – ‘There’s no such a thing like a baby’ – ‘Isso que chamam de bebê, não existe’, isso se não pela mãe. Em seu texto A Deformação do Ego, em Termos de um Self Verdadeiro ou Falso (1960), Winnicott contribui com a ideia de que a personalidade tem duas partes constitutivas. O eu verdadeiro, que é a parte mais primitiva, onde estão guardadas as sementes do eu, como na polpa mais profunda de uma maçã. São conteúdos referentes a essência do eu, onde estão as reais capacidades emocionais da personalidade. Contudo, uma parte da personalidade que não é muito atrativa ao outro, pois guarda características primitivas e não evoluídas. Ainda assim são partes do eu, mesmo que amiúde indesejáveis. O verdadeiro eu não tem recursos para retribuir o amor, logo, é preso ao amor do outro. Frágil e dependente da proteção do outro, é um eu-objeto que anseia por ser escolhido.


Essa parte do aparelho emocional disputa lugar com o eu falso, que por sua vez tem a função de defender o eu verdadeiro. Como a casca de uma árvore que tem o objetivo de proteger o miolo (eu verdadeiro). Se até aqui estamos de acordo com a hipótese de que no princípio da vida a criança depende exclusivamente da mãe, e que isso que chamamos de bebê não pode existir, se não pelo outro (mãe), então o falso eu tem o objetivo de se fazer aceito e desejado por ele. Em nome de sua sobrevivência o falso eu fará de tudo para se adequar a aquela que cuida dele, isso naquilo que ela deseja, e assim necessariamente em suas falhas também.
Um vive para o outro, mas a situação patológica pode se instalar quando o falso eu suprime ou sufoca o verdadeiro.


Isso coincide de alguma forma com a teoria da Segunda Tópica de Freud, na medida em que diz respeito à experiência da criança em poder contar com a possibilidade de satisfazer o id de forma satisfatória, sem graves conflitos com a realidade e abrindo assim certo espaço de desenvolvimento do ego, ou quando isso não pode ser realizado e então passa a ser passivo de censura se agrega ao precipitado chamado de superego ou ideal de eu.
Assim como Winnicott coloca, o “bebê não existe” e dessa forma tenta mostrar que o bebê nunca existe por si só, sempre e essencialmente como parte de uma relação. Winnicott demonstra que, quem vê um bebê nunca vê apenas um bebê, vê também, inevitavelmente, alguém mais, um adulto ou mesmo uma criança maior com os olhos grudados no bebê. Direcionando o vértice com referencia ao gênero, Lacan coloca a ideia de que a mulher não existe.


Se o primeiro e maior desejo do humano é o de ser desejado, também é quebrando esse desejo narcísico que se olha pra o verdadeiro eu. Quebramos assim o espelho do qual dependia nosso desenvolvimento. Um processo inexorável de construção e destruição de espelhos no mundo, assim como a inteiração dos conceitos a priori e a posteriori da “Crítica da Razão Pura” e “Crítica da Razão Pratica” de Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão muito aludido na obra freudiana.


Segundo Freud em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade“ (1905), numa fase do desenvolvimento emocional (fase fálica), a criança vive a fantasia de que todo ser humano possui pênis. Aprende a justificar a ausência nos que não possui, através da crença de que ainda não cresceu ou perderam por alguma razão. O reconhecimento do valor do órgão genital feminino só é feito bem mais tarde na vida da criança. Esse é um dos motivos da desistência do amor da mãe pela menina, e o interesse no pai e conseqüentemente no sexo oposto. Freud denomina essas experiências como representadas no complexo de Édipo.
A experiência do reconhecimento fálico é muito confusa e dolorida para a criança. A capacidade racional nos auxilia reprimir grande parte dessas experiências doloridas e que foram incompreendidas. Aprendemos a esquecer até certo ponto que hoje, parece quase inviável admitir conscientemente. Contudo, como a sina de qualquer que seja o impulso reprimido, também a descoberta da ausência do falos, perdura inconscientemente e, amiúde é projetada naquilo que temos ou naquilo que não temos. Muitas vezes, justificamos nossas experiências de frustrações e vitorias e criamos valores em cima dessa fantasia de alguns são fálicos e outros castrados.


Capítulo do livro Para Além da Clínica. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.




Prof. Renato Dias Martino 
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sexta-feira, 5 de março de 2010

A MÃE E O BEBÊ

É a mãe quem diz ao bebê o porquê de seu choro. Em sua experiência vivêncial com a criança a mãe suficientemente boa – usando o termo introduzido por Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) pediatra e psicanalista inglês, dedicado ao estudo da relação do bebe e sua mãe - percebe e aprende a diferenciar cada choro e como o bebê o expressa. Logo nas primeiras semanas passa a reconhecer a diferença do choro por estar sentindo frio, do choro que possa indicar fome, por exemplo. Isso para o bebê é sentido simplesmente como um intenso desconforto que na medida em que se prolonga por não ser percebido pela mãe e contido pelos cuidados maternos, se intensifica e pode tomar proporções assustadoras para um ser tão despreparado para enfrentar tal privação.
Wilfred R. Bion (1897-1979) – um dos mais importantes autores da psicanálise contemporânea - propõe o termo rêverie para designar esta capacidade da mãe de receber com muito afeto esta manifestação confusa que brota do interior do bebê e desta forma conter e devolver a ele de uma forma organizada e emocionalmente inteligível, em outras palavras, em formas de cuidado e acolhimento. Para Bion desta forma também deve partir a conduta clinica do terapeuta ao receber a dor de seu paciente em analise. Esta ação de maternagem proporciona a essa nova vida que surge, um ambiente seguro que desenvolve a capacidade de pensamento onde permite que o bebê simbolize os impulsos que surgem de dentro (vontade ou necessidade) e vincule com uma força externa acolhedora, protetora e nutridora. A mãe, primeira pessoa que ele conhecerá nesse mundo.

Assim surge a pergunta: Como proporcionar um ambiente seguro se vivemos constantemente sujeitos a desequilíbrios e inseguranças? A resposta não é de forma alguma simples, mas por outro lado está nas simples e pequenas ações cotidianas da vida entre mãe e bebê, assim como as que precedem a chegada do mesmo. Talvez a união saudável e segura do casal possa ser o primeiro passo. Proporcionar um ambiente seguro e amoroso que conte com a presença e a ação da função paterna. É Disso que dependerá o quanto ela (a mãe) será acolhida, protegida e amada enquanto tiver que dar tudo isso sem esperar nada em troca (pelo menos no inicio da vida do bebê).
Uma união infeliz não poderá gerar frutos sadios. É ruim se sentir o motivo da desunião, mas é igualmente negativo sentir-se como a condição para que o casal esteja junto. Wilhelm Stekel (1868 –1940) foi um dicipulo austríaco de Sigmund Freud (1856 –1939) e escreveu brilhantemente em 1963, nas paginas de 
CARTAS PARA UMA MÃE sobre os fatores que estão presentes na formação e desenvolvimento da personalidade infantil e que ao receber uma criança, os pais revivem o próprio nascimento com todas as alegrias e dificuldades. È prudente que estejam preparados para essa revivência para que não confundam-se com os filhos. Quem nunca olhou para suas falhas pode tentar enxerga-las em seus filhos.

Contudo, assim como a falta o excesso também prejudica. No desejo de compensar falhas pode se cair no engano de mimar e superproteger alguém que crescerá insatisfeito com a realidade que por vezes é repleta de frustrações e que viverá sonhando com sua infância maravilhosa, cheia de satisfações e livre de frustrações. Desta forma a habilidade para lidar com a mesma estará limitada. De qualquer forma a chegada de um filho certamente é uma oportunidade para a mãe, de pensar sobre si mesmo e reconstruir a forma como cuida de si mesma. Coloco em forma de verso algumas reflexões:


Quando instinto que protege, ou razão de controlar
Quando nutre o seio bom, ou o mau vai devorar
Quando aprova o que produz, ou se fez arte apanhar
Quando sente o passo firme a hora é do horizonte indicar
Mas se sente abandonada não se deve sufocar
Quem vive aqui a tão pouco pra se culpabilizar
Cuida sempre bem sincera do que tem pra se cuidar
Pois se quer uma certeza; ame, que irá te amar.






Prof. Renato Dias Martino