Arrisco-me, mais uma vez, nessa tarefa
aventurosa de dissertar sobre o amor. Assim como amiúde, agora também correndo
o risco das duras críticas dos catedráticos e doutores com suas gravatas
apertadas e suas gavetas lotadas de diplomas. Mais uma vez aqui, exposto aos
olhares reprovadores dos grandes estudiosos da psicanálise, que, com o acúmulo
dos mais variados títulos, questionadores certamente estarão, sobre a validade,
fidedignidade e até a utilidade desse texto, para a ciência ou mesmo para suas psicanálises.
Muito provavelmente, indagarão sobre eu estar sendo pretensioso ou mesmo piegas
com essa proposta de cogitação. São inúmeras as ameaças para aquele que se
arrisca nessa direção do pensar.
De qualquer maneira ainda mantenho
minha proposta. Se bem que o farei tendo como condição levar em conta o limite
do que se pode saber sobre algo que está quase que em sua totalidade imerso no
mundo desconhecido das emoções.
Os gregos sugerem
alguns tipos de amor como Eros, o tipo de amor passional. Platão nos fornece um
belo modelo no seu BANQUETE, por volta de 380 a.C., onde cogita sobre certa
“genealogia do amor”. Philia é uma outra forma de amor, segundo os gregos, o
amor virtuoso e fraternal. E também Ágape, o amor puro da alma. Como na
Primeira Epístola aos Coríntios, onde fica evidente a importância de certo amor
genuíno. No capítulo 13, pelas palavras do Apóstolo dos Gentios, Paulo de
Tarso, encontra-se em forma de poesia uma definição belíssima do amor.

Sigmund Freud (1856 – 1939), numa a
Carl Gustav Jung (1875 – 1961), chega a propor o fator capital na evolução pela
psicanálise: “Poder-se-ia dizer que a cura é essencialmente efetuada pelo
amor.” (Freud, 1906). Freud tem uma coleção de ensaios que abordam a questão do
amor, onde surgem reflexões geniais das vicissitudes dos elementos brutos
contidos na mente, no caminho rumo à expansão. Como numa escala evolutiva, a
psicanálise parte das paixões desenfreadas como protótipo daquilo que pode ou
não se transformar em modelos mais nobres do que poderia ser amor.

Dentro do modelo clássico da sua Teoria
das Pulsões, Freud dedicadamente nos ensinou usando do mito de Eros (pulsão de
vida), sobre a projeção da pulsão do interior para aquilo que está para além do
eu, configurando-se na libido objetal. Por outro lado, usa do mito de Tânatos
(pulsão de morte), que é o caminho inverso na direção dessa pulsão, na libido
do ego. A mistura dessas duas tendências, que segundo a psicanálise nunca
anulam uma à outra, é que define a qualidade dos vínculos, e definiria então a
qualidade disso que tentamos chamar de amor. Enquanto o primeiro propõe
desligar-se de si para ligar-se ao outro, o segundo propõe desligar-se do outro
e retroceder em direção a si mesmo, num movimento narcisista.

No entanto, não é necessária qualquer
formação ou graduação que possa trazer o título de sociólogo, psicólogo ou
psicanalista, para que o sujeito possa perceber que interesses narcisistas
estão, de uma forma geral, em primeiro plano na configuração de como o humano
atual vem se relacionando entre si e com os outros - se é que um dia isso foi
diferente. Isso é um sinal claro da limitada capacidade desse humano em
articular sobre o amor. O ser humano está sempre se defendendo dessa ordem de
experiências, a não ser que se encontre extremamente carente e se veja
desprotegido o bastante para arriscar-se na abertura afetiva.

O materialismo e o interesse em
“ter” sem dúvida vêm sobrepondo as tentativas na capacitação para o “estar
sendo”. No entanto, não existe dúvida de que aquilo que qualifica o sujeito
para amar está no “estar sendo”. Aquele que está sendo pode amar, enquanto
aquele que apenas possui (ter) não guarda essa capacidade. Lembro-me de um
amigo me presenteando com um ditado popular de sua terra, diz: “o sujeito era
tão pobre que só tinha dinheiro”.

Mesmo tendo em mãos um grande
cabedal de conceitos teóricos, mesmo com toda colaboração literária de alto
valor e da mais refinada origem, ainda assim somos extremamente desqualificados
para falar sobre o amor. Pois aí repousa o conceito que só nos interessa
mediante a certa experiência boa o suficiente para preencher o vazio da
palavra, que por si só não tem conteúdo. Não sabemos o que é o amor, entretanto
necessitamos do exercício do amar para nutrirmos nossa alma. Realmente questiono
se é possível saber o que é o amor, mas por outro lado, acredito ser
perfeitamente possível saber com clareza o que não é amor.

Pois bem, isso que chamamos de amor
pode partir de certa forma rudimentar de relação emocional, em sua forma mais
simples, de ligação intensa e momentânea que expira assim que se alcançou esse
objetivo. Se assim for, certamente está na ordem da satisfação sexual. No
entanto, pode também se estender, de maneira durável, muito provavelmente por
ser possível prever o retorno da necessidade que acabara de cessar através da
satisfação. Não parece absurdo afirmarmos que é esse o primeiro motivo para
criar-se uma forma duradoura de relação com o objeto sexual.
Sem dúvida é esse o primeiro e maior
motivo para que seja possível continuar ligado a ele, enquanto não se encontra
apaixonado.
Esse vértice de pensamento tem início nas obras de Sigmund Freud,
que publicou vários ensaios tratando das cogitações sobre o amor e em
PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DO EGO, que traz uma importante dissertação
sobre o estudo do amor. No capítulo VIII, Freud descreve de maneira muito clara
certa etapa do desenvolvimento afetivo da criança, quando ela se liga
afetivamente pela primeira vez em um ou outro dos pais, direcionando ali todos
seus instintos sexuais. Logo ocorre certa repressão e a obriga a renunciar à
maior parte desses objetivos sexuais infantis. Essa experiência gera densa
alteração no vínculo com os pais. “A criança ainda permanece ligada a eles, mas
por instintos que devem ser descritos como ‘inibidos em seu objetivo’.” (Freud,
1921).

Sendo assim, é possível dizer que a
saúde dos vínculos depende, então, da capacidade de efetuar certo grau de
síntese entre o amor não sensual e afetuoso e o amor sexual que parte do
instinto. E esse modelo primário de experiência de vínculo servirá ao sujeito
como molde para as relações futuras em sua vida amorosa. Fica claro que a capacitação
adquirida das experiências vividas nas primeiras relações servirá de base para
que o sujeito se sinta seguro o bastante para enfrentar a dura tarefa de
vinculação fora do âmbito da família original.
Dentro
dessa perspectiva, passamos tratar o amor como certa ordem de capacidades, e,
como toda capacidade, também o amor depende do exercício de falhas e êxitos
para que possa se desenvolver. Sendo que, não se aprende no êxito, mas sim das
falhas. Assim, é possível afirmar que se aprende a amar, amando.

Essa capacidade é permeada pela
experiência da perda, como não poderia ser diferente, já que a origem da palavra
vem do latim capacitas, referente à largura, amplidão, ou ainda de capax, que
diz respeito a aquilo que pode abranger muito, um exercício que conta com a
presença do vazio. Só pode desfrutar da amplidão aquele que abrange o vazio, o
que nos remete diretamente à ideia do psicanalista indiano naturalizado inglês
Wilfred R. Bion (1897 – 1979), em sua obra publicada em 1970, ATENÇÃO
E INTERPRETAÇÃO, quando nos propõe a inteiração entre continente e contido.
Nesse modelo Bion descreve um continente que se dispõe vazio, podendo receber
com acolhida certo conteúdo. Não precisaremos ir muito além desse ponto de
vista para percebermos que aquele que é capaz de conter-se a si mesmo é mais
capacitado para amar (acolher) o outro.
Não obstante, aquilo que não pode estar
“dentro” (contido) não poderá ser amado. Permanece tão somente no mundo
externo, material e dependente dos órgãos dos sentidos, dessa maneira deve
receber o valor que compete a essa dimensão. Isso coincide com a ideia do
princípio do vazio, sobre a qual os mestres orientais já cogitavam. O vazio é
um dos conceitos fundamentais do pensamento oriental, no qual Bion muito
provavelmente tenha se inspirado para o desenvolvimento de seus estudos. A
importância do conceito fica evidente se percebermos que aquilo que está lotado
não pode receber nada. Se estivermos tratando da dimensão emocional, enquanto a
mente estiver entulhada de preocupações, estaremos obstruídos de nos ocuparmos
para pensar (amar).

Isso nos leva a propor que aprendemos
a amar justamente na falta do objeto amado. A cada experiência de perda, por
mais dolorida que possa ser essa ordem de experiências, é justamente através
dela que teremos a chance de nos amadurecer afetivamente e nos tornarmos mais
capazes de amar. Além disso, é justamente na perda que temos a chance de
reconhecer nossos próprios limites, o que será muito útil e nos qualificará
para arriscarmos nas próximas ligações afetivas.
Uma ocorrência de grande importância
nessa proposta de pensamento é o fato de que a condição fundamental para lidar
melhor com a perda está justamente na qualidade do vínculo que pôde se
estabelecer com aquele que se foi. Quando o modelo de ligação afetiva esteve na
ordem de certa extrema dependência, ou seja, na situação do outro encontrar-se
demasiadamente apossado do amor do eu, quando ele se afasta, o eu sente-se
impossibilitado de amar-se a si próprio. O sujeito passa então a se culpar pela
solidão sem aquele que tanto (o) amava. Condena-se por não ter sido bom o
bastante ou por outra justificativa dessa mesma ordem. Freud chamou este estado
de funcionamento da mente de melancolia (Freud, 1917).
Para que a perda do outro não seja
desastrosa o sujeito deve impreterivelmente ser capaz de amar-se a si mesmo,
isso garantirá uma forma menos drástica dessa experiência. Contudo, quando não
se é capaz de reconhecer-se a si mesmo, e assim ser capaz de amar-se a si
próprio, ficamos à mercê do amor do outro. Muitas vezes levando o sujeito a se
manter em relacionamentos falidos, por medo das consequências da solidão.
Impossibilitados no amor do si mesmo fica propensos a sofrer de forma
arrebatadora na situação da perda do outro.
Ora, essa é a base da experiência
do desapego, como sendo a capacidade de tolerar a frustração implicada em não
ter a confirmação da posse de algo, e que essa confirmação estaria sobretudo
dependente dos órgãos dos sentidos, falamos então da capacidade emocional. A
mente funciona em certo nível onde os órgãos dos sentidos não têm acesso, e
sendo assim o apego não pode ter confirmação nessa ordem de experiências.
A psicanálise nos ensinou, e o fez com
muita propriedade, que o bebê começa a aprender a pensar justamente na ocasião
da ausência da mãe. É quando sente a falta dela que começa a imaginar o que
está faltando, e percebe-se assim sendo outro, além dela. Esse é o princípio do
processo do pensar, que gradualmente deve se desenvolve no bebê. Mas só se
pensa em algo sendo capaz de tolerar a falta que esse algo possa fazer.
Portanto, só pode aprender a pensar na ausência daquela mãe, na qual pôde se
confirmar como sendo real. Ou seja, o bebê que se apegou à mãe agora aprende a
desapegar-se através da mãe simbolizada, numa recordação afetiva. É como se o
bebê dissesse: A mamãe continua existindo quando não a vejo, mas agora como
símbolo dentro de mim.
Bem, se estivermos de acordo até esse
ponto, então temos argumentos o bastante para afirmar que a capacidade de
desapego deve representar sinal do contato mais próximo da realidade simbólica.
Nascemos num mundo material onde a dependência orgânica (material) do outro
(mãe) era inevitável, já que um bebê não pode viver sem sua mãe (ou alguém que
se disponha a essa função), e aos poucos temos o desafio de nos desapegar dessa
dimensão de experiências, para nos envolvermos com um mundo simbólico, onde na
saúde mental, a necessidade de verificação pelos órgãos dos sentidos não deve
ter tanta urgência. Isso deve definir o grau da maturidade emocional.
Se o intuito aqui for o de pesquisarmos
sobre a realidade mental, logo perceberemos que o apego às materialidades da
vida não passa de uma grande ilusão inerente ao desenvolvimento emocional, e é
própria da imaturidade mental. Essa ilusão serve como defesa das partes
primitivas da mente e é mantida pela incapacidade de reconhecer o fato de que
aquilo se se pode obter não garantirá aquilo que se está sendo. Sabemos bem que
aquele que pode desfrutar do reconhecimento do verdadeiro eu, passa a ser capaz
de amar e certamente conseguirá obter aquilo que é necessário e o suficiente
para viver e expandir-se cada vez mais em sua própria capacidade. Por outro
lado, aquele que simplesmente obtém coisas, não conseguirá através de suas
posses o mesmo resultado, pois sempre estará desconfiado se o outro está sendo
alguém verdadeiro para ele, ou se o outro também foi adquirido, como tudo que
conseguiu.
Fica claro então que aquele que
desenvolveu a capacidade de amar abre mão da ilusão do “ter o outro” em nome da
realidade do “ser para o outro”. Além disso, aquele que é demasiadamente
apegado às coisas teme perder o que tem, enquanto aquele que ama terá para
sempre, dentro do coração (simbolizado). Isso, tendo aqui certa concepção de
que o verdadeiro amor liberta (simboliza).
Essa cogitação acaba se confirmando
quando levamos em conta que só desejamos aquilo que ainda não obtivemos, depois
que conseguimos ter já não desejamos mais. Assim, o desapego é fundamental para
uma vida dinâmica de realizações e cada vez menos fundadas na mediocridade do
objetivo de posse de pessoas e coisas. Nada mais empobrecedor do que a
dedicação desmedida ao acúmulo de bens. Enquanto muito apegados às
materialidades, somos impedidos da simbolização e passamos, assim, a ser
dependentes de uma realidade que, por um lado, nos cobra constantemente e, por
outro, nos empobrece de nós mesmos.
BION, W.R. (1970) ATENÇÃO E
INTERPRETAÇÃO. Rio de Janeiro, Imago, 2007.
FREUD, Sigmund. EDIÇÃO
BRASILEIRA DAS OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS – Edição Standard Brasileira, Imago
(1969-80)
FREUD, Sigmund; JUNG, Carl G.
A CORRESPONDÊNCIA COMPLETA DE SIGMUND FREUD E CARL G. JUNG. 2ª ed. Revisada
org. William McGuire; trads. Leonardo Froes, Eudoro Augusto Macieira de Souza.
Rio de Janeiro: Imago, 1993.
MARTINO, Renato Dias,
O AMOR E A EXPANSÃO DO PENSAR: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento
da capacidade reflexiva / Renato
Prof. Renato Dias Martino
Fone: 17- 991910375