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Édipo e a esfinge (Oedipus et Sphinx),
1808, pintura de Jean Auguste Dominique Ingres;
Paris, França. |
O Afastamento da figura paterna na estrutura da família, traz certas conseqüências, que merecem aqui, um olhar mais atento. Tento aqui propor um pensamento que diz respeito muito mais a presença emocional e afetiva da função paterna do que aquela presença de ordem física. Proponho isso pensando num modelo onde essa figura encontra-se presente fisicamente, contudo, ausente de alma.

Freud (1856-1939) utilizou-se do modelo triangular, baseado no mito de Édipo, para demonstrar o mecanismo de intersecção civilizatória na vida sexual da criança, onde os investimentos afetivos se deslocam em busca de melhor adequação quanto ao objeto de amor. A narrativa grega de Sófocles (496 – 406 a.C.) traz a história do herói que vive o terrível destino de se descobrir casado com a própria mãe, sendo ele assassino do próprio pai. Nesse vértice, reconhecemos os conteúdos do mundo interno de uma criança repletos de fantasias, imaginações que governa a mente daquele que está iniciando-se no doloroso processo do reconhecimento do mundo e da realidade.
O menino descobre que tem um pai, no entanto, não faz essa descoberta de forma simples e harmoniosa como tendemos pensar ao assistir um bebê no colo do progenitor. A figura do pai está carregada de certas verdades duras para criança. A criança reconhece o pai e logo percebe que o amor da mãe não é só para ele, mas, terá que dividir a atenção da mãe com esse que passou a reconhecer. Essa experiência é por si só geradora de sentimentos como a raiva daquele que vem destruir um sonho de união exclusiva com a mãe. Esse é para Freud, o ápice do golpe da realidade no narcisismo. Ele descobre isso aos poucos e é interessante que comece o quanto antes, a desenvolver recursos para lidar com essa realidade. Através desse novo vértice da realidade, terá que encontrar outra pessoa para que possa viver certas experiências das quais, com a mãe não serão adequdas. Experiências das quais está impedido de viver com a mãe, mas que por outro lado, nutrira por muito tempo a fantasia de fazê-las com ela.

Isso que tento propor aqui, é um ensaio para pensarmos um modelo clássico do que Freud chamou de complexo de Édipo, até aqui, tendo a vida de um sujeito do sexo masculino como foco. Contudo e antes de prosseguirmos, seria prudente nos lembrarmos que, na verdade esse é um modelo que pode ter, e na realidade tem, um desfecho diferente tomando-se em conta as experiências familiares de cada ser humano em particular, assim como o modelo familiar que se adota em cada diferente cultura e época.
No caso da menina, a história tem algumas modificações. Com a garotinha, o interesse que era, até então, investido na mãe, em certo momento é deslocado para o pai, assim, proporcionando o que poderíamos chamar de melhor adequação do objeto de investimento. Ela percebe algumas diferenças entre a mãe e pai, quanto à posição na família, assim como elementos relacionados a gênero. A sexualidade passa a ser percebida de forma mais clara e a menina desiste em certa medida da mãe e passa a se interessar pelo pai. Entretanto, essa aproximação também lhe propõe certos impedimentos.

Lugar emocional gerador do que Freud denominou superego. O superego, regido pelo ideal de eu se estrutura por um introjetado de imagens e referenciais de interdição da satisfação do prazer. Ou seja, a parte da mente que tem função moral. O superego cria um "deveria ser", passa a nos fiscalizar e nos cobra certos pensamentos e condutas. Essa função para a menina, feita aqui pela mãe, assim como as normas culturais, são elementos provenientes da consciência que é adquirida através do contato com a realidade, mas, caminha lado a lado com elementos do mundo interno que se estruturam como fantasias. O desejo pelo amor do pai – aqui admitido como figura que esteja presente –, assim como toda fantasia que o acompanha. A possibilidade de que se viva num ambiente onde o que rege as relações é o amor, respeito e sinceridade, é o que definirá certas questões que influenciarão as futuras relações amorosas dessa criança.
Na medida em que esse interesse, investido no pai é correspondido em forma de afeto e carinho, tende a se desvincular de impulsos sexuais (mais adequadamente falando; impulsos genitais), que agora busca outro objeto mais adequado, fora do circulo familiar, socialmente aceito e sem o sentimento de culpa por usurpar o companheiro da mãe.

Se estamos de acordo até aqui, a família (ainda) é então, o lugar mais seguro para se viver experiências como a descoberta da sexualidade, que são naturalmente, assustadoras e repletas de ameaças e entraves. Penso que, no período onde a figura paterna pôde nutrir a menina de afeto e verdade, existe maior chance de desenvolvimento adequado de questões afetivas e emocionais referentes à vida erótica e consequentemente, o desenvolvimento físico e biológico pelo resto da vida, já que estamos tratando de um modelo introjetado.
A experiência na prática clínica da psicanálise nos mostra que, sujeitos que trazem queixas de impotência sexual, ou qualquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável da vida sexual e até mesmo certos casos de homossexualidade, em sua maioria carregam certo histórico extremamente conturbado na descoberta da vida sexual, em que foram obstruidos de experiências saudáveis, resguardada de respeito e afeto. Existe, nesse sujeito certa insuficiência na criação de recursos para lidar com Eros, ou seja, aquilo que une os seres humanos e responde pela proliferação da nossa espécie. Recursos esses que tem sua origem no seio da família e na possibilidade das vivências edípicas.

Prof. Renato Dias Martino