sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre Tornar-se a Si Mesmo

Para que haja um bom funcionamento do organismo, o corpo deve contar com o sistema imunológico que combate possíveis microrganismos invasores. Essa organização de defesas, além disso, é responsável pela manutenção de purificação do organismo. Na retirada de células mortas para a renovação das estruturas orgânicas e também afastar células alteradas, que nascem anormais e se não forem extintas, podem gerar tumores.


Assim como ocorre nos organismos, também uma mente saudável deve contar com recursos defensivos prontos a atenderem as demandas em prol de um funcionamento adequado. É próprio do funcionamento mental, o movimento de auto-preservação. E aquilo que constitui a “verdade do eu” não está excluída dessa perspectiva. Quero apoiar que por conta de certo pressuposto de fragilidade, o questionamento das próprias verdades é algo muito raro no funcionamento mental do humano. Ainda que o próprio funcionamento mental dependa fundamentalmente disso para viver experiência de expansão e então poder ser chamado de saudável.


No decorrer da vida emocional o sujeito evita até as ultimas consequências examinar com cuidado aquilo que se tem como verdade. Evita-se questionar o próprio saber, naquilo que se acredita realmente ser. Evitamos todo tempo refletir se somos realmente aquilo que imaginamos ser e de que forma estamos sendo. Evitamos analisar sobre aquilo que sentimos. Dificilmente questionamos se aquilo que chamamos de medo, inveja, ou amor, ainda faz sentido como tal. Muitas vezes chegamos a evitar até questionar o que realmente temos.Evitamos pensar se aquilo que chamamos de “meu”, mesmo depois de certa reflexão, ainda se confirma na realidade. Apenas crescemos, nos tornamos adultos e agora passamos a acreditar que já “sabemos de tudo”, crendo que nos conhecemos a nos mesmos completamente.

Nisso que chamamos aqui de funcionamento mental existe um conflito constante. Certa disputa inexorável entre dois princípios da qual propusera Sigmund Freud (1856-1939) em seu texto “Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental”publicado em 1911. De um lado um modelo primitivo de funcionamento, apoiado na noção de que o “eu” e o “tudo” coincidem, Freud denomina esse modelo de processo primário.Por outro lado Freud descreveu outro funcionamento que busca ligação com aquilo que existe além do eu, denominado por Freud de processo secundário. Na primeira infância é vivida a primeira experiência de passagem de um modelo de funcionar para o outro. Entretanto, essa passagem só pode ocorrer se o bebê pode contar com um ambiente suficientemente bom, onde possa se sentir seguro para acreditar naquilo que está para além dele mesmo. Se pudermos sugerir aqui a teoria de Wilfred Ruprecht Bion (1897 —1979), contando com um ambiente continente formado por invariâncias proporcionado pela mãe, o bebê que em sua primeira etapa da vida é simplesmente conteúdo de pura transformação, pode ser contido e ganhar forma para si mesmo. Nessa mesma configuração a mente trabalha o tempo todo na tarefa de passear entre os dois processos, hora buscando a expansão no vínculo com o outro, hora recolhendo-se defensivamente.
É interessante termos a mão o pressuposto de que a parte inconsciente da mente é imensamente maior do que essa parte ínfima da qual podemos chamar de consciente. Isso nos permite afirmar que mesmo sendo o processo secundário a função mais evoluída dos processos mentais, apenas uma parte da mente funciona assim. Na maioria do tempo, o aparelho psíquico funciona pelo processo primário, onde o pensamento mágico impera. Justamente a forma de “pensar” que está disponível a um bebê em seus primeiros anos de vida.


Dessa forma, aquilo que chamamos de “eu” tem grande ligação com aquilo que desejamos ser e liga-se em grau inferior com aquilo que realmente somos. Daí vem a dificuldade em questionar as próprias verdades. E é antes de tudo um modo de preservar aquilo que já se tem, contudo é também um sinal de descrédito a própria capacidade de expansão do pensamento. Isso ganha maior importância na medida em que se percebe que assim que nascemos, logo iniciamos um processo inevitável de esquecermos quem realmente somos, para nos tornarmos aquilo que o outro deseja. E no decorrer da vida podemos levar isso a tal consequência, que acabamos por abandonar nosso eu verdadeiro em troca de assumirmos um falso eu, criado em prol da aprovação do outro.


Wilfred Ruprecht Bion
(1897 —1979)
       “Em uma idade precoce, nós já aprendemos não só a não ser nós mesmos, mas quem devemos ser”. Bion (1978-80, p.g. 76)


O ser humano é sem dúvidas, uma espécie de animal extremamente inteligente aprende com muita facilidade. Aprendemos truques para sobreviver, aprendemos a identificar muito cedo o desejo do outro e passamos a desempenhar truques com o intuito de sermos aprovados. Contudo, nessa tarefa de aprender e executar truques, abandonamos a capacidade de intuir, que é algo fundamental para o funcionamento saudável da mente.
Essa experiência leva ao distanciamento do eu verdadeiro que guarda nossa essência, nossa identidade. Abandonando a manutenção dessa parte do eu, vamos nos tornando desconhecidos de nós mesmos. Esquecemos nosso desejos não reconhecemos nossos medos e dessa forma, passamos pela vida sem nos preocupar em reconhecer quem somos. Não nos ocupamos em criar um vínculo saudável com o “si mesmo” e então empobrecemos o verdadeiro eu. Daí por diante, não suportamos a nossa própria companhia. Desse modo não toleraremos ficar sozinhos, por mais breve período que seja. Acabamos assim, nos vendo cercados de gente que nos trata tão mal quanto nós mesmos nos tratamos. Talvez por não percebermos que poderemos nos livrar de todos que nos rodeiam, menos de nós mesmos.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

2 comentários:

Jacqueline disse...

Simplesmente... Sensacional!!!

Luciano Alvarenga disse...

Você disse nesse último sábado, dia 12, no encontro em que também estive, que o corpo deseja, não a alma. Por alguma razão, me parece essa sua afirmação algo ligado a esse texto; mas não compreendo onde nem como. Quer dizer algo, sobre?