Não é
com frequência que o sujeito se propõe a pensar sobre suas mágoas. Em geral,
prefere conservá-las como entraves, ideias cristalizadas e saturadas. A mágoa é
filha da decepção, que por sua vez é filha da expectativa. É como uma confusão
gerada por um conflito interno que, consequentemente, emerge na ação, numa
tentativa de livrar-se de sentimentos desagradáveis. As mágoas sempre estão
vinculadas a sentimentos como vergonha, humilhação e exclusão. Dessa forma, a
iniciativa de refletir sobre essas ideias é evitada até as últimas
consequências.
Alguém
magoado é alguém impedido de amar. A mágoa é a “água maldosa” que insiste em
represar-se no coração, obstruindo a capacidade de amar. Afetivamente
represada, a mente não permite o fluxo natural da vida. Guardar mágoas é
insistir num ressentimento e “re-sentir” é sentir novamente algo que já passou,
mas que ainda magoa. Cultivar mágoas é não permitir que a ferida cicatrize. Com
o ferimento sempre exposto, a pessoa mantém-se presa ao passado,
impossibilitada de viver o presente. A raiz dos transtornos no funcionamento
emocional, como as neuroses, está justamente no desejo que se perdeu no
passado. Um desejo frustrado que se transformou em mágoa e que, por isso, é
ressentido constantemente. O que mantém as mágoas é um fator ancorado no
passado, portanto distante da realidade, que flui no presente. Como o registro
do passado é função da memória, ele pode ser lembrado ou esquecido conforme o
desconforto que traz. Tratamos, então, de um dado distante da realidade e
inerente às produções da ordem fantasiosa da imaginação, servindo às
conveniências do princípio do prazer/desprazer.
Inúmeras
enfermidades físicas têm origem em ressentimentos e outras moléstias que não
tenham origem emocional podem ser utilizadas a serviço da mágoa, como “troféu”
para culpabilizar aquele de quem se guarda rancor. De qualquer forma, aquilo
que é ressentido repetidamente tende a criar um representante no corpo, onde
pode, de forma mórbida, ser cultivado como símbolo dessa mágoa.
Aquele
que cultiva a mágoa consegue um benefício secundário ao manter-se dessa forma:
está depositando no outro a frustração que, na verdade, não está sendo capaz de
tolerar. Quem não está conseguindo amar e nutrir esse amor pode encontrar na
mágoa um modo de manter-se unido ao outro, num vínculo alimentado pela culpa,
garantindo, assim, que não será abandonado.
Contudo,
não escolhemos ficar ou não magoados. Simplesmente vivemos certas experiências
com o outro e conosco, que podem nos deixar marcas em forma de mágoa. Aquilo
que, na saúde emocional, é representado pelo laço afetivo, na perspectiva da
mágoa torna-se um nó de ressentimentos. Desatar o nó da mágoa não pode ser
feito sozinho. A ajuda “desatadora de nós” deve estar presente num vínculo
saudável, necessariamente com um outro capaz de criar e manter vínculos
profícuos.
Parece
claro que aquilo que liberta o nó da mágoa está no possível acordo que se possa
estabelecer com a realidade. O pensar, que leva ao acordo com a realidade, só
se realiza tendo o outro como referência. Caso contrário, sem parâmetros,
induz-se a ideia para onde se deseja, ou evita-se reconhecer o que realmente
acontece. Surge, então, a necessidade da introdução do outro — mesmo que seja o
outro internalizado no eu. Aquele que pensa sozinho não está, na verdade,
pensando, mas, no máximo, imaginando.
Cultivar
bons vínculos é o que pode propiciar a reparação do aparato emocional. O
cultivo do amor, aliado ao reconhecimento da realidade, forma o fundamento do
modelo de vínculo capaz de desintoxicar uma mente envenenada de ideias
destrutivas e emperrada nas mágoas. Se é através do vínculo saudável que se
desfaz a mágoa, é prudente estar atento àquele que supostamente provocou a
decepção — ou, ao menos, àquele com quem não se conseguiu constituir essa
qualidade de vínculo. Talvez porque esse suposto provocador de mágoas não seja
capaz de respeitar as fragilidades daquele que foi magoado. Manter-se ligado a
alguém assim é manter-se exposto a novas mágoas.
Respeitando
as próprias limitações e fragilidades, pode ser prudente afastar-se de qualquer
ligação que se mostre nociva. No entanto, de forma natural, isso é um atributo
do instinto de autopreservação, que reconhece a ameaça e tende a afastar-se.
Tarefa difícil, pois a mágoa é uma forma de funcionamento mental que encontra,
com frequência, convites de colaboradores no mundo.
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