quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O uso do “eu sei”

Surrealismo de Salvador Dali
Por que dizer “eu sei”?
Será porque sabemos realmente?
“Só sei que nada sei”.
Sócrates tomou essa máxima como seu lema e o imortalizou. Mas, se não conhecemos a nos mesmos, o que sabemos então? Estudamos anos a fio certa coisa e um dia nos damos conta que sabemos muito pouco sobre ela. A satisfação que obtemos com a sensação do “saber” é realmente gratificantes, mas penso ser útil encará-la como um domingo de descanso em uma semana de labuta, onde o ponto de interrogação é o norte do desenvolvimento e da expansão. Se não temos duvidas nos acomodamos. As certezas são as maiores ilusões criadas pela mente humana. Contentamo-nos com a certeza quando nos vimos incapazes de continuar a questionar e não porque estamos realmente certos.
Maurice Blanchot (1907 – 2003)
Maurice Blanchot (1907 – 2003) diz: “La réponse est le malheur de la question”, “A resposta é a desgraça da pergunta” (2002). A única certeza é a morte, logo; buscar incessantemente certezas e garantias é o equivalente a buscarmos a morte. A morte da pesquisa, a morte do amor (sentimento rico em incertezas), a morte da busca da vida. "Navigare necesse; vivere non est necesse" no latim, “navegar é preciso, viver não é preciso”, frase de Pompeu, general romano (106-48 AC.), dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu. O poeta português Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), ressuscita a idéia com a condição de que “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. A criação parte da falta, criamos aquilo que ainda não existe. Se não existe, logo não sabemos.
Fernando Pessoa (1888 — 1935)
Quando dizemos: “eu sei”, encerramos a busca. Já sabemos, logo; não há nada a aprender. Muitas vezes pronunciamos “eu sei” antes mesmo do outro concluir o que quer dizer. É uma maneira de não dar muita atenção, ou de ignorar alguém. Quando respondemos automaticamente: “eu sei”, o que realmente dizemos é “não estou ouvindo o que você diz”. Assim, tiramos o valor do discurso do outro. É como se parássemos de ouvir por achar que já sabemos tudo o que há para saber.
Sempre que ameaçados nos vemos impelidos a nos defender. Pode-se dizer, “eu sei” quando encontrar-se tomado por ansiedade, enquanto se espera a vez de falar. Também quando, simplesmente não estamos dispostos ou interessados em ouvir. Seja qual for o motivo, essa reação impede que possamos aprender coisas que podem ser importantes. Em um ato de descrédito em si mesmo e na própria capacidade de aprender, criamos um abismo entre o “eu” e o outro.
O “eu sei” pode servir como uma defesa para aquele que se sente ignorante e envergonhado por realmente não saber. Defendendo-se assim, acaba por não aprender.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor 
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Grupo de estudo


Primeiro Passo para se entender Psicanálise

Primeiro Passo para se entender Psicanálise
Renato Dias Martino


O que é Psicanálise?


Primeira Tópica é um modelo organizado por Sigmund Freud (Viena, 1856 – Londres, 1939), médico austríaco e fundador da Psicanálise, que se tornou a base para o pensamento psicanalítico. A partir dessa idéia metapsicológica, trazida pela Psicanálise, houve considerável mudança no vértice, na percepção, entendimento e pensamento sobre a Psicologia, Sociologia, Antropologia e, sobretudo, na forma de perceber aquilo a que chamamos de aparelho psíquico.

Quem é Freud?
Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Moravia, pequena cidade situada onde hoje é a Tchecoslováquia. Seus pais eram judeus e ele próprio continuou judeu. Em 1860, por motivos de guerra, sua família é forçada a se mudar para Viena, onde Freud recebeu sua educação e passou boa parte de sua vida. Primeiro filho de oito irmãos e do terceiro casamento de seu pai, Jacob Freud com Amalie Nathansohn Freud, Sigmund Freud, muito cedo, se mostra interessado pelas questões da alma, assim como pela história da Bíblia.


Desafios


Um grande admirador de Charles Darwin (1809—1882), e sua teoria, o tem como referência em grande parte de suas obras. Demonstra o valor da teoria darwinista, analisando-a como um pensamento que vem quebrar o que chamou de ilusão narcisista. Em seu texto “Uma dificuldade no caminho da Psicanálise”, datado de 1917, escreve sobre três feridas narcísicas da humanidade. Quando desenvolve a Metapsicologia, demonstra que o ser humano não é totalmente dono de si mesmo.
Despertou, com isso, grande oposição, pois tira o homem do domínio de sua própria vontade. Coloca, assim, a Psicanálise entre Nicolau Copérnico (1473-1543), que corajosamente introduz a idéia de que a terra não seria o centro do universo, e o darwinismo, que propõe que o homem não está no topo da evolução biológica, sendo um animal entre os outros em evolução. Assim, inaugura certo conflito com o pensamento científico vigente em sua época, já que os olhares da Psicologia se voltavam para o ponto de vista de escolas de pensamento experimental como a do fisiologista Wilhelm Wundt (1832- 1920).


A histeria




Dr. Joseph Breuer (1842-1925), um dos médicos mais respeitados de Viena, e colega a quem Freud tinha uma grande afeição, já, em 1880, desenvolvera um estudo sobre histeria. Partindo do radical “histeros” (útero), nasce o termo histeria, que designaria um estado patológico que, a princípio, ocorreria apenas em mulheres.
A paciente, senhorita Bertha Pappenheim (1859-1936), ganha, nos estudos de Freud e Breuer, o pseudônimo de Anna O. (caso que seria publicado só 13 anos mais tarde).  

Jean-Martin Charcot (1825-1893)

 Transformações metodológicas


Em 1885, Freud recebe uma bolsa e viaja a França para estudar a histeria com Jean-Martin Charcot (1825-1893), de quem Freud já tinha conhecimento como brilhante estudioso das doenças da mente e que lhe despertara intensa admiração. Na escola Salpetrière, Charcot também fazia uso da hipnose no método da “cura” desta patologia psíquica. Freud usa o método catártico por mais algum tempo, mas começa a perceber que a hipnose, assim como o método da catarse, na busca da ab-reação, não apresentava bons resultados em todos os pacientes e passa a desenvolver e utilizar-se do método que chamou de associação livre. Com isso, inicia o rompimento com os estudos do método catártico do velho amigo e colega de estudos, Breuer.


No discurso do paciente, estariam dois tipos de conteúdo:


1) manifesto: representado nas questões explícitas;
2) latente: representado nos pontos cegos da mente.


A perspectiva passa da antiga visão horizontal para um vértice vertical, revelando uma conotação de profundidade, o que poderíamos chamar de mapeamento mental.
O aparelho psíquico pode ser estudado e entendido tendo como referência três prismas ou pontos de vista: o topográfico, o dinâmico e o econômico. Neste primeiro tópico, Freud divide o aparelho psíquico em três sistemas que, apesar de sua condição de interdependência, serão estudados, posteriormente, um a um:




- Inconsciente (Ics),
- Pré-consciente (Pcs) e
– Consciente (Cs)



Melaine Klein (1882 – 1960)

Quem ajudou?

Carl Gustav Jung (1875-1961), um grande pensador suíço e estudioso da mente humana, rompera com Freud, em 1912, uma amizade que rendera um grande avanço para o estudo da Psicanálise, o que o indicaria ao título de precursor de Freud (título esse sugerido pelo próprio Freud). Jung esteve próximo do pensamento psicanalítico em uma fase de grande expansão.
Melaine Klein (1882 – 1960) iniciou seus estudos e publica seu primeiro trabalho na década de vinte, quando a Psicanálise já se fazia uma teoria psicológica que alcançava respeito e o nome de Freud já conquistara reconhecimento e prestígio pelo mundo todo. Ela desenvolve o método da ludoterapia no tratamento e análise de crianças. Enfrenta inúmeras dificuldades como a “rivalidade teórica” com Anna Freud (1895-1982), filha de S. Freud, que, nessa época, desenvolvera também um método de psicoterapia infantil.
Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), pediatra e psicanalista inglês, o frances Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979), Antônio Ferro e, no Brasil, Walter Trinca, Antônio de Muniz Rezende e David Zimmermann, pensadores que trazem conceitos de enormes proporções para a Psicanálise. E, assim como o próprio Freud escrevera, “outros virão”.


As instancias da mente


- O Consciente (Cs)Do ponto de vista tópico, o sistema percepção-consciência está situado na periferia, ou na mais alta camada do aparelho psíquico. Do ponto de vista dinâmico, ou funcional, nele, não se inscreve qualquer traço durável das excitações. No vértice econômico, caracteriza-se pelo fato de se dispor de uma energia livremente móvel, suscetível do sobre-investir este ou aquele elemento, a energia – catexias – muito clara no mecanismo de atenção.
Funciona na base do princípio da realidade, ou seja, tem a realidade como referencial para reconhecer o que são as produções da mente, ou percepção da realidade. Mas essa é apenas uma pequena parte do que é psíquico. Logo abaixo, num referencial de vértice vertical, fica o sistema pré-consciente ou Pcs.



- O Pré-consciente (Pcs)

Freud escreve em 1915:
“O conteúdo do sistema Pcs. (ou Cs.) deriva, em parte, da vida instintual (por intermédio do Ics.) e, em parte, da percepção”.
Os elementos contidos no sistema pré-consciente podem ser exemplificados, em parte, por tudo aquilo que lembramos, mas que, de alguma forma, não conseguimos trazer à consciência. Isso nos sugere um tipo de critério de seleção baseado em uma censura que barra estes conteúdos de se tornarem conscientes.
Freud coloca uma condição para que os conteúdos emirjam para as camadas superiores do aparelho psíquico quando declara em seu texto “Instintos e suas Vicissitudes”:
“Um instinto jamais pode se tornar um objeto da consciência – somente a idéia que representa o instinto é que pode.”
É no pré-consciente que ocorre a junção de algo que está dentro com algo que está fora, momento este em que um sentimento se liga a um objeto externo, formando o que Freud chamou de representação de coisa.

- O Inconsciente (Ics)



O eu desconhecido mora no inconsciente. Em 1911, Freud chamou a atenção com o texto “Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental”, para os processos mentais em funcionamento. Apesar de a função mais evoluída desses processos, o processo secundário (já descrito neste trabalho), fazer parte do sistema consciente, é apenas uma parte do aparelho psíquico que funciona assim. Na maioria do tempo, o psíquico funciona por um processo em que o pensamento mágico impera, cuja forma de pensar está disponível a um bebê em seus primeiros anos de vida.
O princípio do prazer é que comanda esse tipo de processo que Freud chamou de processo primário. Noções como as de tempo e espaço não têm lugar neste processo mental. Dentro deste funcionamento, a lógica se estabelece por meio dos mecanismos de condensação e deslocamento, o que permitem uma “realidade” diferente da realidade externa, conhecida do sistema consciente e compartilhada entre sujeitos. Esta realidade interna é sempre regida por um alto grau de narcisismo e onipotência, que tendem a se dissolver quando emergem para camadas mais altas do aparelho mental. Assim, as idéias passam por aquilo que Freud denominou de teste de realidade, e chegam à consciência em forma de pensamento. Já no funcionamento inconsciente o que se produz são fantasias que são dependentes do princípio do prazer.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Influência na psicoterapia

Matéria de Igor Galante.
Jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, 21 de agosto de 2009

As músicas e ideias de Raul Seixas exercem uma influência sobre as duas atividades do músico e psicoterapeuta rio-pretense Prof. Renato Dias Martino. É uma condição que hoje transcende a do fã - já que surge tanto na sua criação como artista quanto na prática clínica. A identificação do rio-pretense com as raízes calcadas na tríade blues-rock-country de Raul, assim como a influência sobre timbre de voz, fazem com que o roqueiro-terapeuta sempre inclua faixas do “Maluco Beleza” no repertório dos seus shows.


Sob o ponto de vista da psicoterapia, Martino chama atenção para a capacidade de Raul explorar através de suas letras campos da subjetividade que em geral as pessoas não querem explorar - e é algo que o psicoterapeuta deixa transpassar em seu trabalho com os pacientes. “Raul trouxe ao público a difícil tarefa da reflexão sobre a realidade. Ele nos tira do narcisismo e nos coloca para enxergar uma realidade que possa ser compartilhada”, explica Martino, que compôs um Tributo a Raul em parceria com o psiquiatra Altino Bessa Marques, outro entusiasta do legado de Raulzito.


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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

I Semana de Psicologia da Unilago


I Semana de Psicologia da Unilago


Acontecerá nos dias 24, 25, 26, 27 e 28 de agosto a I Semana de Psicologia da Unilago,

tema central: Ciclo da Vida: Viver, sonhar, morrer...
Segue abaixo a programação:


24/08/09: Processo do Luto


25/08/09: O Sonhar - Dr. Renato Dias Martino - Psicólogo


26/08/09: Sexualidade Humana: identidade sexual e orientação do desejo - Dra. Fabiana Augusta Donati - Psicóloga

27/08/09: Inclusão Social - Dra. Ana Cristina Polycarpo - Psicóloga


28/08/09: Psicoterapia e Terapia - Dr. Luiz Tadeu Pessutto - Psicólogo - Coordenador subsede CRP-06 S.J.Rio Preto

Maiores informações com a Coordenadoria do Curso de Psicologia ou no


onte: Profa Sandra ChalelaCoordenadora do Curso de Psicologia

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Relações obsoletas

Relações obsoletas
Ariana Pereira


A cada dia incontáveis novidades são adicionadas à lista de invenções tecnológicas desenvolvidas para ajudar o ser humano. Provavelmente, o computador de última geração comprado há um ano já é precedido por outras máquinas superiores, hoje. Assim acontece com aparelhos de televisão, telefones celulares ou técnicas desenvolvidas pela medicina. O homem e a mulher acostumaram-se a trocar rapidamente os produtos que ficam ultrapassados ou que não oferecem mais tantas vantagens quanto na época em que foram adquiridos. Em uma imensa confusão de valores, acaba-se transferindo a ânsia por novidades tecnológicas e novas aplicações de utensílios aos relacionamentos.


Dessa forma, não apenas as invenções humanas como também os relacionamentos tornam-se obsoletos e inicia-se, assim, uma busca incansável pelo parceiro ideal ou que ofereça mais “vantagens” do que o anterior. Relacionamentos relâmpagos, insatisfação constante e solidão são apenas algumas das consequências negativas de uma busca desenfreada pelo mais novo, pelo que proporcione melhores sensações com mais benefícios possíveis. Sem esquecer a necessidade de baixos investimentos de tempo e emoção.

Como estamos habituados a trocar de celular e de carro compulsivamente assim que eles perdem o charme de coisa nova, as pessoas passam a ver a relação amorosa da mesma forma. Buscam permanentemente a sensação de novo que cada relação tem, mas que não é possível perdurar. A ansiedade dos primeiros beijos e transas abre espaço para outro padrão de relação em que o familiarizar-se ocupa o espaço do desbravar. Ocorre que estamos vivendo um momento histórico em que trocar pelo novo tem mais valor do que conhecer o ‘antigo’”, avalia o sociólogo Luciano Alvarenga. O costume de se afastar do outro quando a relação é custosa ou proporciona algum tipo de decepção natural a qualquer ser humano pode custar caro, na opinião do psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino.


Para ele, a cada dia as pessoas se afastam mais e o maior problema na redução do espaço dedicado aos vínculos com o outro é limitar o vínculo consigo mesmo. A capacidade de pensar é o que faz os seres humanos melhores e o pensamento só pode ocorrer quando se compreende o outro em si próprio. “Talvez por não ter ainda desenvolvido a capacidade de ‘ser’ e se ligar às pessoas como se liga às coisas, ou seja, por meio do ‘ter’, algumas pessoas encaram os parceiros como um produto que deve ser trocado quando encontra-se um defeito. Esse tipo de indivíduo me parece materialista. A característica da personalidade materialista tem raízes profundas na experiência da falta na capacitação do reconhecimento do real. Daí a necessidade de confirmação constante do concreto, material, o real sensorial”, afirma Prof. Martino.

Desmascarar

A melhor forma de encarar um relacionamento é saber lidar com o outro passada a magia dos primeiros encontros e iniciada a fase em que as máscaras caem e o parceiro (ou parceira) mostra, aos poucos, quem realmente é. Para isso, de acordo com o psicoterapeuta, é preciso aprender a criar vínculos com alguém real e cheio de incertezas, como qualquer ser humano. O vínculo, prossegue Prof. Martino, possibilita a alguém manter-se ligado a outra pessoa, ainda que não haja a presença física. “Na criação disso que aqui estamos chamando de vínculo é imprescindível a experiência da falta, ou seja, viver a falta deve ser algo possível. Do contrário nunca aceitaremos aquilo que difere do que desejamos que o outro seja, daquilo que ele realmente é.”
Crise sinaliza amadurecimento

O fato de as pessoas evitarem cada vez mais o envolvimento e a superação dos problemas que qualquer relação traz tem feito seres humanos cada vez mais solitários e indispostos a relações sociais. A dificuldade narcisista de sonhar com algo futuro, que inclua o outro, é cada vez mais frequente e o sonho diminui na mesma proporção em que se criam novas embalagens de produtos destinados a pessoas que optaram por viver só, de acordo com o psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino. “Porém, o outro entra em nossa vida sem pedir licença, e daí é muito prudente que possamos ter preparado um espaço dentro de nós para recebê-lo, caso contrário, a confusão é certa. A rivalidade é certa. Um filho aparece e se dá a formação de famílias não pensadas.”

Prof. Renato Dias Martino
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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Em não ver

Renato Dias Martino

E quando vem o vazio?
Se enche com que?
E quando é escuro e frio,
E se tenta esquecer?
E quando o fluxo do rio
Se tenta interromper?
E quando esta aqui,
Mas insiste em não ver?





quinta-feira, 23 de abril de 2009

Conhece-te a ti mesmo









"O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção, abastecido de crises existenciais, mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável"

Por Renato Dias Martino



Na busca por instrumentos que nos possam auxiliar na tarefa de pensarmos o conteúdo psíquico, faces da alma, ou qualquer nome que possamos criar para os aspectos da personalidade (aquilo que transcende o corpo físico), cogitaremos sobre algo dinâmico, algo que se forma como processo e nunca como produto. Sugiro até uma analogia com algo fluido e corrente, como a água que corre num rio. Apesar de tendermos a pensar a personalidade como algo estático ou um produto pronto, ou acabado, e a criticar veementemente qualquer possível falha, não nos esqueçamos que se trata de algo vivo e, portanto, só estará concluído na morte (e ainda assim viverá nas impressões que deixará no mundo). Perceba que, por mais fiel que possa ser o retrato de um rio, ele nunca mais será aquele que fora retratado anteriormente. Os conteúdos psíquicos estão, e é bom que estejam, em constante movimento. Sob o olhar psicanalítico podemos pensar em impulsos internos, em suas tentativas de encontrar no mundo externo o que possa representá- los. Cada experiência que permita o vínculo de um impulso interno (psíquico) com um objeto do mundo externo como representante é, para o eu, um tijolo em sua construção, um passo na busca pela maturidade. Assim, no encontro impulso interno/ representante externo dá-se à capacitação do Ego, ou em outras palavras, o desenvolvimento do que poderíamos chamar de órgão emocional. Assim como no corpo é função do fígado certa tarefa no funcionamento biológico, na alma é função do Ego organizar o que se sente, transformá-lo em pensamento e, finalmente, em palavras comunicáveis ao outro. Essa capacidade do Ego progride conforme a qualidade do vínculo que se pode ter com o real, a realidade ou a verdade sobre o que se vive.

Porém, o desenvolvimento de um processo implica sofrimento. A própria expressão da fala coloquial nos orienta quando diz: “sofrer o processo”. Penso que todo e qualquer movimento de expansão implica em crise e é, em si, uma fase no processo de crescimento da alma, ou qualquer que seja o objeto de observação e estudo. O sofrimento estará presente, mesmo que em uma pequena dimensão, tanto naquele (ou naquilo) que busca crescer, como naquele que impede o desenvolvimento.




Ser ou não ser
Eis a questão; se é mais nobre ao espírito suportar as pedradas da sorte ultrajante ou se opor a um mar de percalços e vencê-los, continuaria Shakespeare. Em outras palavras, ou nos conformarmos com o que somos e/ou temos, ou enfrentamos as diversidades conscientemente. Mas, diante de uma ou outra opção enfrentaremos o mar de percalços, isto é pagaremos “seu preço”, o preço da crise existencial de ter que escolher as conseqüências da decisão tomada.




Somos dotados de uma parte da alma chamada identidade (iden-entidade). Idem, que sugere algo que é sempre igual, ou numa visão mais ampla, aquilo que é como o outro, e entidade, como figuração de algo vivo, algo que existe. Esse é o lugar de nossa origem, da nossa herança e mais profundamente daquilo ao qual o psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), discípulo de Sigmund Freud (1856-1939), chamou de inconsciente coletivo, o conjunto de arquétipos que nos liga a toda humanidade. É nossa essência, o que realmente somos, aquilo que podemos evitar, mas não podemos fugir - ou seja, aquilo que explicaria nossa existência. O pensamento que nos antecedeu e que nos tornou pensador.

Se tomarmos esse vértice, podemos pensar a crise existencial como o resultado de conflito entre o que sou e aquilo que gostaria de ser. É como se nosso ‘si mesmo’ se sentisse ameaçado de abandono por não ser bom o bastante. O reconhecimento de partes de nossa identidade é sempre um desequilíbrio do eu, e é em si o processo doloroso da expansão da alma. Existe sempre um medo implícito no processo do desenvolvimento, algo que surgirá, como no primeiro vôo de um pássaro, a liberdade e a insegurança. A dor gerada pelo confronto entre o narcisismo (Freud, 1914) e nossa real capacidade. Nunca somos exatamente o que imaginamos, ou queríamos ser, e isso é o que nos faz lutar pra melhorar. Quanto mais se amplia a visão da alma, maior será a sua capacidade de expandir-se no mundo.

A tarefa de reconhecer-se é, antes de tudo, uma tarefa de tornar-se consciente de nossa própria ignorância

Contudo, todo momento de crise é também caracterizado por uma bifurcação das escolhas. Nesse trecho o caminho abre-se em dois. Um lado é especialmente atrativo por sua acessibilidade, porém se apresenta como círculo e volta sempre no mesmo ponto; o outro lado é sempre mais difícil e sem dúvida menos atrativo, pois exige paciência. Nesse caminho existe uma ponte após a qual nunca mais somos os mesmos. Uma vez cruzada a ponte da maturidade da alma, não mais se retorna. Como coloca o poeta chileno Pablo Neruda em Adioses: “Quem volta jamais partiu”. Para que possamos reconhecer- nos a nós mesmos, ou aquilo que podemos chamar de substância do existir, é necessário um movimento de regressão. Um caminho de volta, porém agora, percorrendo-o em busca de responsabilizar- se pelo cuidado da própria vida, e aí sim não tem volta. Penso em uma seqüência de experiências que nos convida a aproveitar como aprendizado. Nessa direção reconhecemos cada falta existente no eu e iniciamos um trabalho de capacitação para viver com elas.
Mas não é sempre assim, podemos aproveitar a crise para crescermos, ou como um motivo para alimentar uma possível crença de destino para o fracasso. Nesse segundo modelo, no lugar da maturidade do eu, o que se dá é uma fixação regressiva, é como se caminhássemos com a cabeça voltada para trás, fixados num ponto do passado. Reconhecemos o ‘si mesmo’, porém não conseguimos nos responsabilizar por ele, assim, responsabilizamos o outro pelo fracasso do eu.


Sigmund Freud
A lenda grega de Narciso, filho de um ato de estupro do deus-rio Cefiso à ninfa Liríope, é uma ótima ilustração do uso que podemos fazer da experiência do reconhecimento de nossa identidade. Em uma consulta, a mãe ouve do adivinho Tirésias que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Sua identidade não poderia ser reconhecida, ele não poderia passar pela crise existencial do reconhecimento do ‘si-mesmo’. Quando o fez, não suportou e morreu contemplando a própria imagem na margem do rio. Narciso não se preparou para o reconhecimento de ‘si-mesmo’. Se tivesse suportado conhecer sua essência, teria dado um enorme passo para sua individuação (Jung, 1916, Psicologia do Inconsciente, ed. Vozes), para o auto-conhecimento.


O desespero humano
Certa vez um sábio oriental falou: Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo - Este é o maior. É nesta perspectiva que o filósofo Kierkegaard (imagem) fala sobre o desespero humano: como um processo de conquista do próprio eu. Para ele, o homem em desespero tem o costume de se considerar uma vítima das circunstâncias, porque o desespero revela a miséria e a grandeza do homem, pois é a oportunidade que ele possui de chegar a ser ele mesmo. O desespero é universal.




As crises são partes de um processo natural de uma mente saudável. Podemos evitar o reconhecimento do ‘si mesmo’, mas não podemos evitar a crise. Se pudermos nos arriscar em uma metáfora, é só com a crise no ovo que o pintinho pode nascer. Se o ovo evita a crise, coloca em risco a vida do pintinho. Nesse modelo, a patologia, então, ocorre quando tentamos evitar a crise. Um modelo que nunca se propõe crescimento, ficando assim exposto aos desequilíbrios do mundo externo e interno, torna-se emocionalmente vulnerável e permanece imaturo em suas escolhas.
Wilfred Ruprecht Bion
(1897 - 1979)
Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), que foi o discípulo mais turbulento de Melanie Klein (1882–1960), propõem algo nessa direção quando escreve: “A personalidade desenvolve a onipotência como um substituto a associação da preconcepção, ou concepção, com a realização negativa. Isto implica a adoção da onisciência como um substituto do aprender com a experiência (...).”
Assim como duplas que estão juntas tentando evitar crises dentro de uma relação perversa e falida, o fazemos conosco mesmo. Não abrimos mão de certos conceitos que são inúteis (ou servem para mascarar a verdade) por medo de nos reconhecermos em nossa essência e abrirmos a mente para o novo. É a questão dos paradigmas. Acabamos por obstruir o reconhecimento do eu em nossas reais capacidades e assim adiamos o desempenho das mudanças necessárias em nossas vidas. Sabotamos dessa forma, nossas capacidades.

É só com a crise no ovo que o patinho pode nascer.
Se o ovo evita a crise, coloca em risco a vida do filhote

De qualquer forma esse processo emerge e manifesta-se em forma de comportamento; sentimos que algo errado ocorre em nosso interior e também no externo, pois nossos relacionamentos ficam também comprometidos. Ao evitar-se o conhece-te a ti mesmo (inscrição do portal grego de Delfos), transformam-se as relações em modelos de dependência, nos quais o que se percebe é uma alma comandando dois corpos. Num modelo de vínculo umbilical, depende-se exclusivamente do outro para que se possa desempenhar o pensar. Como na relação mãe/bebê, na qual ela é quem decodifica cada choro da criança, mostrando a ela (que sente apenas um incômodo) que chora por um motivo e não por outro. Nesse modelo as esco- lhas são sempre de relações como espelho. É como se a falta que está sendo negada e escondida do eu aparecesse no outro, naquele que mais importa para o eu. Aqui também é interessante a analogia com o mito de Narciso, que só despertara interesse por uma mulher em sua vida, Eco, a ninfa, que fazendo jus a seu nome tinha uma característica particular em sua fala: só repetia o que ele dizia.
A manifestação do conflito é em si o sintoma (manifestação do ‘sinto mal’). Identificamos que está ocorrendo esse modelo de funcionamento mental por meio do que chamamos popular- mente de auto-estima baixa. Percebemos que es- tamos incomodados, mas não sabemos por quê. É nessa fase do processo que geralmente procu- ra-se (ou pelo menos deveria se procurar) alguma forma de Psicoterapia. O choque do reconheci- mento do eu naquilo que somos e não no que queríamos ser implica certa desvalorização do próprio eu, sentida como baixa auto-estima ou complexo de inferioridade. Isso por que com- paramos o que somos àquilo que desejamos ser; nesse período do processo do desenvolvimento da mente, tudo parece importar mais que o eu.



Ao evitar-se o autoconhecimento,
as relações transformam-se
em modelos de dependência,
em que um comanda e decide pelos dois
Assim, podemos perceber a importância de encontrar na dupla analítica ou na relação terapeuta-paciente um ambiente seguro para se viver e pensar esse tipo de experiência. Existe um tempo para qualquer que seja a maturação e com a mente não é diferente. O medo da mudança pode ser um componente da prudência. Dessa forma, como poderíamos cobrar de um eu imaturo que se responsabilize por si mesmo? O impedimento no curso do desenvolvimento pode ser um indicativo de uma ameaça real, o eu pode não estar maduro o bastante para sua independência. Para percebermos essa capacidade egóica, a idade cronológica é um péssimo referencial, pois aquilo que se deve cuidar não está vinculado a nenhuma noção de tempo ou espaço, além de ser algo genuinamente imaturo por si só. Aqui, a tolerância em perceber-se imaturo é imprescindível. Mas, a tole- rância só é saudável se contar com a fé. Paciência sem esperança é comodismo e trans- forma o que seria um sujeito prudente em um covarde.

Paciência sem esperança é comodismo e transforma o que seria um sujeito prudente em um covarde

 Immanuel Kant (1724-1804),
 filósofo alemão
Na verdade, a tarefa de reconhecer-se a si mesmo é antes de tudo, uma tarefa de torna-se consciente de nossa própria ignorância quanto a nós mesmos - algo extremamente ambíguo. É ao mesmo tempo necessário e impossível, pois não há vida sem experiência, mas nunca nos conheceremos em nossa totalidade. Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, propõe-nos que a ‘coisa em si’ nunca poderá ser conhecida e que talvez a vida exija-nos preparação para viver frente às possibilidades. Contamos sempre com a capacidade de imaginação e criatividade para nos reinventarmos a cada dia, criando modos de nos relacionarmos com o mundo.
A própria Psicanálise, assim como toda ciência séria, carece de reconhecer-se a cada pensamento que toma conta de um pensador que nasce. Cresce e desenvolve-se por meio da descoberta de verdades que revelam suas falhas. A crise constantemente será uma chance de crescer e de regredir, sempre ao mesmo tempo. Penso que a necessidade é de nos fortalecermos com instrumentos de reflexão, desenvolvendo nossa capacidade para alavancar nossa vida com a crise. Com o estimulo da criatividade, propormos mudanças constantes em busca da melhor forma de nos instrumentar com aparatos emocionais em prol do crescimento.

Prof. Renato Dias Martino é Escritor e psicoterapeuta. Contato: renatodmartino@ig.com.br




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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