domingo, 15 de novembro de 2015

DO MEDO À ARROGÂNCIA - Prof. Renato Dias Martino

Segundo nos ensina a etimologia, a palavra arrogância tem em sua raiz o ato de arrogar-se. Certo movimento de atribuir a si mesmo direitos, poderes ou privilégios. Com isso o sujeito assume certa característica prepotente de menosprezo quanto ao outro. O vocábulo vem do latim arrogans, que quer dizer “o que exige”.
A exigência, por sua vez, é um ato que encontra-se num nível primitivo de imaturidade, no curso do desenvolvimento no exercício do pensar. Num ímpeto desesperado, exige-se aquilo que se deseja, sem considerar a própria realidade dos fatos. O bebê exige a presença da mãe, sem ser capaz de se importar com o bem estar desta que ora cuida dele. Aquele que exige, revela assim, a incapacidade de autonomia. Quando se exige algo, revela-se o fato de que, sem isto que esta sendo exigido, o sujeito se vê vulnerável. Bem como um bebê a chorar compulsivamente, exigindo a presença da mãe. Nesse nível do funcionamento mental, o agir deve ser a forma fundamental de lidar com a descarga desconfortável gerada pela insegurança.
Do modo como nos orienta a psicanálise, e também outras das mais nobres vertentes do pensamento humano comungam dessa mesma ideia, nascemos na mais densa ignorância, necessitando portanto, de apoio de qualidade para conseguirmos desenvolver a consciência de nossa natureza. 
A natureza humana é afetada constantemente pela péssima qualidade de cuidado emocional nas fases iniciais do desenvolvimento,  assim como é comprometida pela privação de ambientação saudável o bastante para propiciar sucesso no processo de maturação. 

"Se sentindo ameaçado cria um falso eu que parece superior, mas que na verdade não vai além das aparências. Um ego quando bem estruturado traz características de humildade, compaixão e capacidade para o acolhimento, diferente de um ego inflado que, sem substância ou conteúdo, arma-se sempre de arrogâncias e exclusivismos." Martino (2015)

Melanie Klein (1882 —1960)
Assim, quando se está exigindo, atesta-se o distanciamento que existe da realidade dos fatos, numa incapacidade de reconhecer o limite do outro, do qual se exige algo. Dessa maneira o desejo de um sobrepõe a realidade do outro, na expressão da voracidade. Melanie Klein (1882 —1960), em INVEJA E GRATIDÃO, de 1957 descreve a voracidade como sendo uma ânsia impetuosa que ignora o limite do outro no exclusivo objetivo de saciar o desejo. Melanie Klein relaciona a voracidade à inveja, que segundo a autora, amiúde andam juntas. Para Klein a voracidade é uma tentativa de controlar,  por meio da total possessão. "Isto é utilizado para neutralizar a inveja." Klein (1957). Incorporando o objeto ele passa a fazer parte do eu, logo, não há do que sentir inveja.
Artur Schopenhauer
( 1788 — 1860)
 
Um desejo sem a menor capacidade é gerador de inveja. O mesmo desejo do qual Artur Schopenhauer ( 1788 — 1860) em O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO, de 1818, já havia alertado quanto ao perigo. Vontade que se estendendo desde o desejo mais superficial de obter algo material, até a ânsia por viver. Seja como for, o convite para se perder num desejo estará sempre à espreita. Quando perdidos no desejo, a arrogância pode ser um conveniente recurso de manutenção desse estado.
Bem, a ignorância quando vivida num clima de insegurança, numa assustadora incerteza de sobrevivência, gera medo aterrorizante de aniquilamento.
Eros e Tânatos
O arrogante, na realidade é alguém com muito medo, que então, usa da hostilidade para tentar amedrontar o outro. Uma tentativa de aplacar esse temor que o aterroriza. O medo que é representante da pulsão de vida e de morte, na ilustração freudiana de Eros e Tânatos.
Sigmund Freud (1856 - 1939)
Sigmund Freud (1856 - 1939) em ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER, de 1920, introduz o conceito de pulsão de morte em sua obra; como certa tendência, constituinte da natureza, que leva à segregação de tudo o que é vivo. A manifestação do instinto de autopreservação num desprendimento e no recolhimento do interesse no mundo externo.
No artigo SOBRE ARROGÂNCIA (1958), Wilfred Bion (1897 — 1979) propõe certo momento em que a arrogância pode emergir e instituindo com isso um clima caótico na qual paciente e analista conformam-se numa dupla frustrada.


Wilfred Bion (1897 — 1979)
“É possível ter uma indicação do significado que desejo conferir ao termo ‘arrogância’, se recorrermos à hipótese de que, na personalidade em que predominam os instintos de vida, o orgulho se converte em respeito a si mesmo; predominando os instintos de morte, o orgulho se transforma em arrogância.” (Bion, 1994/1985)

Sob a regência da pulsão de morte, erguem-se defesas em forma de arrogância para lidar com a ansiedade. Numa tentativa de reequilibrar o funcionamento que foi abalado pela insegurança, geradora de ansiedade. Para Bion, quando a tendência que nos retrai, num movimento de desligamento das relações, sobrepõe a disposição que nos abre para a vida e para os vínculos, o que seria autoestima então se converteria em arrogância. 
Através da hostilidade, arma-se o ataque que se articula como barreira e a violência convida à estupidez, num agir como se conhecesse a verdade, sem de fato conhecê-la. Quando as palavras se encontram vazias de experiência e são projetadas para ferir. O arrogante aferra-se à racionalidade dos fatos, descartando qualquer possibilidade de nova experiência. 


"O grande prejuízo nesse ponto da razão é que, quanto mais enriquecidos de saberes inquestionáveis, ainda mais empobrecidos das faculdades do pensar nos tornamos. Dessa maneira, quando em ocasião da crise e percebendo-se inseguro, alguma força só pode ser gerada da imposição desse saber inquestionável e isso, então, logo se manifesta como arrogância". Martino (2013)

A prática psicanalítica deve ser totalmente prejudicada quando inundada pela experiência da arrogância. A proposição de que 'se não for capaz de dizer com amor, não diga' é uma condição fundamental para a prática da psicanálise e não uma simples frase romântica. Ora, o que poderiamos esperar de certa experiência emocional onde existe a falha no amor? Um analista arrogante é um analista amedrontado dentro do ambiente da dupla, assim como a arrogância do paciente denuncia a insegurança vivida frente a dupla.


"Muitas vezes, pronunciamos “eu sei” antes mesmo do outro concluir o que quer dizer. É uma maneira de não dar muita atenção ou de ignorar alguém." Martino (2011)

No Congresso do IPA, em Edimburgo realizado em 1962, Bion apresentou a teoria que vinha desenvolvendo sobre sua releitura do mito de Édipo. Nessa releitura da alegoria iniciada em seu artigo SOBRE ARROGÂNCIA (1958), Bion adverte não sobre o crime sexual, mas a propósito da formas arrogante que Édipo conduz a busca pela verdade. 
Quando resolve o charada da Esfinge, Édipo acredita ter desatado Tebas de sua moléstias e isso é confirmado quando valeu à ele, como recompensa, a mão da rainha Jocasta e o trono real. No entanto, ele resolveu o 'complicado' da história no enigma, mas ficava sem solução aquilo que é 'complexo' e que está representado pelo mistério. O ponto complexo era mesmo a questão da verdade, da qual Édipo permanecia desconhecendo, ainda que agisse como se a conhecesse.
Agride Tirésias, o velho cego adivinho do qual a pouco havia enaltecido e colocado a verdade nas mãos. Tirésias, amedrontado pela possível reação de Édipo ao saber da verdade diz: "Fica certo de que a verdade, ainda que eu a encubra com meu silêncio, chegará a seu tempo". Assim sendo, mesmo que a ilusão seja prazerosa, a verdade, mesmo que dolorosa, prevalecerá.
Pois bem, as questões referentes ao complexo edípico são fundamentais e a psicanálise nos orientou sobre o fato de ser o Édipo, em sua elaboração, estruturante da personalidade. O Édipo é então, de onde as relações entre as personalidades estão sobremaneira subordinadas. A elaboração dessa ordem de experiências propicia o reconhecimento verdadeiro que permite o estabelecimento do respeito para com os vínculos afetivos. Assim a personalidade passa a assumir o caráter de estrutura nas relações que sendo de natureza afetiva e emocional, gera comunicação mais verdadeira entre as personalidades vinculadas.
Reconhecer o conflito edípico promove a capacidade do desapego, questão de fundamental importância quanto ao tema da arrogância. Sempre que apegados ao saber corremos o risco de nos seduzir pela arrogância. De sorte que a arrogância traz a sensação de força e poder à aquele que na realidade se sente inferiorizado. No entanto, a realidade não é definida pela vontade do humano.

BION, W. R. [1952]. Uma teoria sobre o pensar. In: Estudos psicanalíticos revisados – Second thoughts. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
KLEIN. M. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1957.
MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica.Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011. 
_____ . Primeiros passos rumo à psicanálise,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
 _____ . O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva , 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
_____ . O Livro do Desapego,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação (III parte); Crítica da filosofia kantiana, Parerga e Paralipomena (capítulos V, VIII, XII, XIV), In: Coleção Os pensadores, trad. de Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola, São Paulo, Nova Cultural, 1997.






quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DA MAIOR CAPACIDADE DE AMAR

Já me propus, em outro momento, a refletir sobre os desencontros que ocorrem frequentemente na busca pela satisfação sexual entre homens e mulheres (Dos Desencontros do Sexo). Na ocasião a reflexão nos revelou que o funcionamento feminino, no que se refere à satisfação sexual é enormemente diferente do que ocorre com o homem. Nessa ocasião, pode ficar evidente que essa diferenciação tem origem e desfechos desde a dimensão orgânica até o nível das relações afetivas, no plano emocional. Cá proponho algumas características que se mostram de grande importância na expansão da cogitação nesse assunto.
No processo que busca ajustamento da satisfação sexual com a função reprodutora são inúmeros os desencontros e para cada evolução na maturação sexual segue uma nova configuração de adequação.
Segundo Sigmund Freud (1856 – 1939) nos ensinou em 1905, nos seus TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE, junto com a experiência da criança que a leva a aprender a controlar os esfíncteres, a erotização desloca-se da região anal para então concentrar-se nos genitais. “Nesta fase surgem questões a respeito da diferença entre os órgãos genitais entre meninos e meninas, não com habilidade de compreensão, mas com toda duvida e ansiedade que é peculiar deste período.” (Martino, 2012) 
A sensação de ser o detentor do falo, como símbolo de poder, traz a fantasia de grande domínio e força para o homem, ou mesmo à mulher que carregue a ilusão de possui-lo. É característica de certa fase do desenvolvimento emocional a evidenciação dessa formação anatômica. Biologicamente a área de maior excitação passa a concentrar-se na região dos genitais. Nesse contexto, características masculinas podem ser incorporadas naquela mulher que não foi capaz de elaborar a inveja de se descobrir sem pênis. “A tentativa é de demonstrar a ausência da distinção dos gêneros (masculino/feminino) por uma visão onde se encontram fálicos ou castrados.” Martino (2012). A menina que por ventura nunca tenha se sentido realmente amada pode atribuir a esse motivo a razão de seu infortúnio.
Nessa época do desenvolvimento da sexualidade a atenção é toda voltada para o órgão genital masculino (o falo), por conta da configuração interna do órgão sexual feminino que fica escondido.
“O complexo de castração nas meninas também inicia ao verem elas os genitais do outro sexo. De imediato percebem a diferença e, deve-se admiti-lo, também a sua importância. Sentem-se injustiçadas, muitas vezes declaram que querem ‘ter uma coisa assim, também’, e se tornam vítimas da ‘inveja do pênis’; esta deixará marcas indeléveis em seu desenvolvimento e na formação de seu caráter, não sendo superada, sequer nos casos mais favoráveis, sem um extremo dispêndio de energia psíquica.” (Freud, 1905).
Assim como nos orienta Freud, essa ilusão de supervalorização do falo, quando na mulher, pode perdurar longos anos, sendo que em alguns casos perpetua pela vida toda, sem nunca ter sofrido grandes transformações. No entanto, no sujeito masculino isso corre o risco de se fixar como um modelo mórbido e intransponível. Quando se aferra nesse representativo deve desenvolver certa arrogância fálica. A rivalidade assim, estará sempre à espreita nas relações, sendo que  muitas vezes o encontro que deveria surtir uma união dos opostos, se transforma num ambiente de competitividade onde no final sobreviverá apenas um.
A forma externa do órgão sexual masculino oferece maior acesso, logo maior facilidade de satisfação masturbatória.
Esse fácil acesso encontra ainda, no âmbito social, maior tolerância e isso fica evidente quando reconhecemos que se um garoto é por acaso surpreendido se masturbando tem bem menor punição do que acontece com as meninas. É muito comum o orgulho de alguns pais em exibir aos amigos o órgão genital do seu “filho homem”. Entretanto quando o assunto é o órgão genital da menina logo se instala certo desconforto geral. Ao menino se permite o que para a menina é proibido. Isso tudo constrói um modelo de funcionamento muito cedo na vida da criança, que permeará a vida toda se não encontrar chance de amadurecimento emocional.
A saber, o termo masturbação aqui mencionado refere-se ao ato de satisfazer-se a si mesmo sem precisar da presença física do outro e isso vai além da simples manipulação do órgão genital, se estendendo à outras práticas. Essas práticas onde o sujeito dispensa o outro (mantendo a imaginação dele) para chegar à satisfação de seu objetivo. Os Vedas nos presenteiam com o conceito de maya que mesmo sendo o domínio da característica criativa de Deus, é também a ilusão cósmica que propicia a ignorância, dificultando o acordo com a realidade ultima.
Apalavra maya tem sua raiz no sânscrito, onde “mâ” significa “medir” e “ya”, que significa “aquilo”, sendo que tudo que pode ser medido é parcial. Em maya o que temos sobre o mundo configura-se sempre num universo parcial e fragmentário. Por estar compreendida tão somente na realidade manifesta e material, portanto impermanete, está fadado ao ciclo de nascimento (Brahma) permanência transitória (Vishnu) e morte (Shiva).
Os modelos de normas da civilização e das fôrmas de sociedade patrocinam ao homem maiores oportunidades para manter-se maior tempo possível em maya. Isso dificulta o processo de maturação, enquanto a mulher não tem muita escolha. Uma garota deve provar condutas à sociedade, para ser aceita, das quais o rapaz não precisa demonstrar. Na verdade muitos atributos que se julgam socialmente positivos num rapaz, quando aplicados numa moça torna-se vulgar ou motivo de julgamento perante o olhar crítico do outro.
De qualquer maneira percebemos com certa clareza a tendência de maya a projetar-se como sendo naturalmente masculina, assim como o formato físico dos órgãos genitais o é. O sujeito masculino, então se vê envolvido com as “coisas externas” mais frequentemente. O mundo material parece ser mais articulável ao sujeito masculino e também às mulheres que carregam características masculinas. Já a concepção genital feminina indica a capacidade uterina da continência. Um modelo que deve revelar maior envolvimento com as questões internas. Isso enquanto ela se mostrar saudável e não fixada nas características masculinizadas próprias da fase fálica, o que a obrigaria se preocupar com as questões externas. Nesse âmbito surgem maiores os obstáculos impostos à mulher no que se refere ao desenvolvimento emocional, já que defender-se de uma ameaça interna é uma tarefa muito mais complexa do que proteger-se daquilo que vem do externo.
Por outro lado abre-se um mundo de opções fantasiosas (maya) favorecendo o sujeito masculino de subterfúgios imaginários de evasão, mesmo quando se tem a oportunidade de se desenvolver num ambiente saudável. O homem é normalmente favorecido por certos expedientes que não fazem mais que buscar satisfação narcisista, impedindo o desenvolvimento da capacidade de amar. Por estarem exclusivamente à serviço da busca pela satisfação à qualquer custo, não podem tolerar o mínimo dos desconfortos o que seria imprescindível no desenvolvimento da afetividade. Essa prerrogativa de subterfúgio imaginário da ao homem maior chance de desviar-se da tomada de consciência da realidade interna, fato que o obrigaria responsabilizar-se por ela. Bem, enquanto a menina configura-se em receber, num movimento de introspecção, o garoto tende a se pronunciar em direção do mundo exterior. Assim, a mulher, quando saudável em seu desenvolvimento, tem maior chance de ampliar a capacidade do trabalho de elaboração interna, enquanto o menino ainda esta testando sua força contra a natureza externa.
Wilfred R. Bion
1897 – 1979
Bem, se pudermos aqui nos utilizar do conceito de ‘amor’ como sendo a capacidade de continência, assim como bem nos orienta Wilfred Bion (1962), então isso nos permite a cogitação de que a mulher tem naturalmente maior capacidade de amar e isso se revela de forma muito clara nela própria, enquanto ciente de quem realmente é. O homem, que humilde de si mesmo, encontra-se emocionalmente sadio, deve dispor-se a aprender com ela.
 Srila Prabhupada, importante pensador e líder religioso que dedicou sua vida a ensinar ao mundo sobre a consciência de Krishna, no que é a mensagem de sabedoria espiritual mais nobre da Índia antiga. Em sua obra Ensinamentos da Rainha Kunti ele dedica um capitulo sobre a maior capacidade feminina quando observa que: “Em todos os países e em todas as seitas religiosas parece que as mulheres estão mais interessadas que os homens.”. 

Bion que também receberá grande influencia da cultura da Índia, onde passou sua infância, ainda foi um bom discípulo de Melanie Klein e aprendeu com ela a importância do modelo de maternagem na aplicabilidade clínica da psicanálise. O termo continente tem sua etimologia latina no continere referente à conter, na psicanálise bioniana esse conceito denota uma condição pela qual a mãe consegue acolher e permitir que as cargas projetivas do bebê transformem em seu destino. A essa experiência Bion deu o nome de rêverie.
Donald Woods Winnicott
(1896 —  1971
)
Ora, em suas pesquisas Donald Woods Winnicott (1896 —  1971) também percebe essa intuição de Klein e desenvolve o conceito de holding, desempenhado pela mãe quando suficientemente boa. 

A partir desse vértice de pensamento a psicanálise cresceu e assim passou a exigir do psicanalista maior capacidade emocional. Houve então grande expansão, tanto nas elaborações teóricas como no desempenho da prática clínica, onde a psicanálise aprendeu muito com a mãe suficientemente boa.






Bion, W. Aprendendo com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago. 1971 [1962].
Freud, S. TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE. Rio de Janeiro: Imago. 1905.
Martino, R, D. PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE. 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
Prabhupada, A.c. Bhaktivedanta. São Paulo: Editora The Bhaktivedanta Book Trust, 1982.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Grupo de Estudos - Da implicação do desapego nas formulações psicanalíticas

Grupo de Estudos - Da implicação do desapego nas formulações psicanalíticas

Cogitações sobre filosofia, ciência, arte e espiritualidade, à procura de elementos que proporcionem alargamento na reflexão sobre a capacidade da tolerância às frustrações, fator fundamental na experiência do desapego. Da implicação nas formulações teórica até a aplicabilidade clínica do desapego. Para além do saber, ampliando-se na capacidade do ser.

Às quartas feiras, a partir das 19:00.
Início dia 04/11/2015
Coordenação  Prof. Renato Dias Martino​
Local: Alameda Franca n° 80 Jardim Roseana
Informações e inscrições pelo fone 17 30113866
Poucas vagas

pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

terça-feira, 15 de setembro de 2015

SOBRE VONTADE E PSICANÁLISE

Arthur Schopenhauer
(1788 - 1860)

Do pensamento de Arthur Schopenhauer


À 22 de fevereiro de 1788 em Dantzig, nascia Arthur Schopenhauer. Nessa época essa cidade fazia parte da Prússia, hoje pertence à Polónia. Seu pai era um homem rico, sempre preocupado com seus negócios e muito pouco foi presente na vida do menino Arthur. Sua mãe, Johanna Schopenhauer (1766 –1838) foi grande escritora e intelectual de sua época, mas que, no entanto não conseguia estabelecer um bom vínculo com o filho. Schopenhauer sofria severas críticas vindas dela, quanto a sua maneira de ser e de pensar. Na realidade, ele nasceu e foi criado meio a um casamento conflituoso, num ambiente hostil de desentendimento e discórdia. Fato que influenciou muito o rumo de sua obra e por si só justifica a tendência depressiva da filosófica de Schopenhauer.

Arthur Schopenhauer
(1788 - 1860)

“Todas as tuas boas qualidades são empanadas porque te julgas ‘esperto demais’ e essa arrogância não te serve para nada nesse mundo, simplesmente porque não podes controlar essa tua mania de querer saber mais do que os outros, de encontrar defeitos em toda parte, menos em ti mesmo, de querer controlar tudo e de te achar capaz de melhorar as pessoas com que te relacionas. Isso serve apenas para exasperar os que se acham ao redor de ti, ninguém está interessado em ser assim ensinado e melhorado de uma forma tão violenta, menos ainda por um indivíduo tão insignificante como ainda és; ninguém pode suportar uma censura vinda de alguém que ainda demonstra tantas fraquezas em seu caráter pessoal e muito menos pode gostar dessa tua maneira de criticar os outros em um tom oracular, definindo tudo à tua maneira, sem admitir a menor objeção.”  (J. Schopenhauer em Safranski. R. SCHOPENHAUER: E OS ANOS MAIS SELVAGENS DA FILOSOFIA, 2012/1987).

Na rica obra SCHOPENHAUER: E OS ANOS MAIS SELVAGENS DA FILOSOFIA, Rudiger Safranski, biógrafo de Schopenhauer, relata um trecho de carta enviada ao filósofo por sua mãe, onde ela o condena por escancarar a realidade sem piedade, ainda que sem perceber que ela faz o mesmo com seu próprio filho. Schopenhauer certamente muito cedo aprendera esse modelo com sua progenitora.

Wolfgang Goethe
(1749 —1832)
Georg Wilhelm Friedrich Hegel
(1770 — 1831)

Foi próximo de Wolfgang Goethe (1749 —1832) e inevitavelmente influenciado pelas propostas ousadas presentes nas reflexões do amigo poeta. Cultuado por Friedrich Nietzsche (1844 —1900), desprezou Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 — 1831).

Friedrich Nietzsche
(1844 —1900),

“Certamente pode haver outros meios para fugir do torpor que habitualmente nos envolve com uma nuvem sombria e para reencontrar-se a si mesmo, mas não conheço melhores do que pensar naqueles que foram nossos educadores e nossos mestres. É por isso que hoje penso num só mestre, no único iniciador de quem posso me glorificar - Arthur Schopenhauer. A vez dos outros chegará mais tarde.” 
Nietzsche (1874)
Arthur Schopenhauer
(1788 - 1860)


‘Schopenhauer como Educador’ é uma conferência proferida em 1874, onde Nietzsche apresenta não um professor, mas o modelo de mestre com características elevadas e expansivas. Enquanto em Nietzsche despertara afinidade, Schopenhauer atacou com grande vigor o pensamento de Hegel. Apontando certo partidarismo filosófico, Schopenhauer enxergava certo interesse político à favor do Estado da Prússia presentes nas formulações hegelianas.


Schopenhauer fora, segundo escreve o próprio Sigmund Freud (1856 – 1939), o precursor do pensamento que originou a criação da psicanálise. A preciosa formulação de Wilfred Bion  (1897-1979) a respeito de sermos ‘pensamentos em busca de pensador’ nos faz sentido aqui. 

Wilfred Bion 
(1897-1979)


‘de um pensamento errante em busca de algum pensador para se alojar nele’ (Bion na Quarta Conferência de New York, de 1977/1992, pg.131).

“Provavelmente muito poucas pessoas podem ter compreendido o significado, para a ciência e para a vida, do reconhecimento dos processos mentais inconscientes. Não foi, no entanto, a psicanálise, apressemo-nos a acrescentar, que deu esse primeiro passo. Há filósofos famosos que podem ser citados como precursores - acima de todos, o grande pensador Schopenhauer, cuja ‘Vontade’ inconsciente equivale aos instintos mentais da psicanálise.” (Freud em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, 1917).
Sigmund Freud
(1856 – 1939)

Sendo o ‘inconsciente’ o conceito maior dentro da teoria psicanalítica, Freud reconhece Schopenhauer como um mestre, assim como Nietzsche o fez. Buscando inspiração nas formulações do “filósofo pessimista”, se farta de sua sinceridade no que diz respeito à natureza humana. Considera as formulações de Schopenhauer como que um caminho aberto para a criação do que hoje podemos chamar de psicanálise.

 “Já faz um bom tempo que o filósofo Arthur Schopenhauer mostrou aos homens em que medida seus feitos e interesses são determinados por aspirações sexuais – o sentido corriqueiro da expressão -, e parece incrível que todo um mundo de leitores tenha conseguido banir de sua mente, de maneira tão completa, uma advertência tão impressionante!”  (Freud em TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE, 1905)
Sigmund Freud
(1856 – 1939)

A tentativa freudiana de levantar a importância da vida sexual em tudo que se configura como realização humana também encontra um ponto de apoio no pensamento de Schopenhauer. Empreitada complexa já que essa ideia na época era veementemente combatida pela ciência e pela religião; não diferente, desde sempre, desperta ainda hoje enorme resistência. Ainda assim, Schopenhauer traz em obras como "O mundo como vontade e representação" (1819), e "Parerga e Paralipomena" (1851), uma dolorida franqueza no reconhecimento da realidade, sendo frequentemente citado por Freud em sua vasta obra.

Fortemente influenciado pelas escrituras védicas - textos sagrados da Índia antiga - datadas de muito tempo antes de Cristo, Schopenhauer introduziu o pensamento indiano assim como alguns conceitos budistas na filosofia da metafísica alemã. Apesar de ter morrido aos 72 anos, em 1860, esse importante pensador transcende qualquer noção de tempo ou época, nos oferecendo um instrumento de reflexão muito adequado ao tempo contemporâneo. Contribui de forma perene quando aproxima o pensamento filosófico da espiritualidade da verdade transcendental. Pois que foi justamente no misticismo que encontrou afeto necessário para a revelação da verdade que ausente de amor converte-se em crueldade. Arthur Schopenhauer aborreceu a humanidade revelando um humano confuso e iludido.  Nisso antecipou-se em pouco menos de meio século à psicanálise de Freud.

Immanuel Kant
(1724 - 1804) 

Como única fonte de esperanças para nutrir e conduzir seu trabalho, ele busca na espiritualidade a abertura para expansão. “Na expansão da consciência Schopenhauer parece buscar em Platão e na cultura védica a serenidade que o perturbava tanto no contato com as propostas de Kant.” (Martino, 2015). O pensamento de Immanuel Kant (1724 - 1804) é gerador de desconforto para Schopenhauer, mas que, no entanto, é também aquilo que impulsiona suas reflexões rumo à expansão. As críticas ao real conhecimento da qual bradava Kant é o lugar de onde Schopenhauer parte e vai para além. Em suas formulações Kant distingue o “fenómeno” do “noumeno”. Sendo que para ele “fenómeno” representa a realidade acessível ao nosso conhecimento limitado, enquanto o “noumeno” é a “substância transcendental”, a “coisa-em-si” que é incognoscível.  O “noumeno” configura-se então para Kant como limite da possibilidade de conhecimento.

“A coisa-em-si, representada no incognoscível a nós humanos, seres cognoscentes, que seria para Kant a essência, tem seu equivalente em Schopenhauer no conceito de Vontade (Wille). Assim como Kant, Schopenhauer também se utiliza inicialmente do conceito da coisa-em-si, a qual não pode ser conhecida em sua plenitude, mas, contrariando seu mestre Kant, propõe que é possível percebê-la nas ações de nosso próprio corpo.” (Martino, 2015)

No entanto Schopenhauer propõe uma expansão do pensamento e aquilo que em Kant chamávamos de “fenómeno” revela-se como ilusão do que é a realidade e não apenas uma visão parcial dessa realidade. Então, para Shopenhauer aquele que observa apenas o fenômeno está iludido quanto à realidade dos fatos. Seguindo esse mesmo vértice reflexivo, “noumeno” para Shopenhauer configura-se na verdadeira realidade, independente da nossa vontade. Sendo que o “noumeno” revela-se insuportável à percepção humana em sua plenitude.

“Dentre as ricas contribuições do budismo encontramos o conceito de delusão como um fator mental. As delusões nascem do envolvimento com a atenção imprópria e levam a um estado de mente intranquila e descontrolada. Para o budismo são três as principais delusões: ódio, ignorância e, principalmente, o apego. A partir delas surgem as demais delusões, como inveja, ciúme, orgulho... As delusões atrapalham principalmente no desempenho da capacidade de vacuidade, necessária para uma vida de iluminação. A vacuidade é a capacidade de estar de acordo com a verdade última na ausência da existência inerente. Dentro da aplicação do Dharma, que são os ensinamentos de Buda, todos os fenômenos são, a princípio, ilusórios. Então passamos a lidar com noções de corpo e mente, sempre mantendo a vacuidade, que implica em admitir o vazio da existência inerente. Essa ausência de existência inerente se realiza quando se lida com fenômenos como se fossem sonhos. De forma onírica deve ser tratado isso que chamamos de realidade, segundo o budismo.” (Martino, 2015)

Bem como no budismo, Schopenhauer também busca na cultura védica a “União com o Todo”, na aproximação dos opostos, onde a vontade do humano não importa. Para Schopenhauer estamos presos em ilusões, geradas pela vontade. Não existindo assim, qualquer liberdade real, para aquele que está sujeito a sua própria vontade, sendo que essa vontade é desconhecida dele próprio. Partindo desse pressuposto Schopenhauer busca a Mahavakya, “grande sentença” que revela a unidade da alma individual com o todo. Schopenhauer encontra nos Upanishads, o conjunto da parte final de cada um dos quatro Vedas, o ensinamento filosófico essencial.

“Por isto, nos Vedas, cujo estudo só era permitido às três castas regeneradas, constituintes da doutrina esotérica da sua filosofia, os sábios antigos da Índia a explicaram tão diretamente quanto o conceito de per si e a língua lhes permitia, sempre de acordo com a sua maneira de expor não menos imaginosa do que rapsódica.” (Schopenhauer, 1818, pg. 137.) 
Assim como nas leituras de textos mito poéticos como o Bhagavad Gita a Canção do Senhor da Índia, Schopenhauer encontra a possibilidade de transcender a razão em sua filosofia. O Bhagavad Gita é um dialogo entre Krishna, que é a Personalidade Suprema do Senhor, e Arjuna, seu amigo que tenta fugir daquilo que é seu desígnio.
“Tal é o modo de ver com que Krishna, no Bhagavat Gita, ensina a seu discípulo estreante, Ardjuna, quando este, ao aspecto dos exércitos que estavam na iminência de combater, é tomado de tristeza (quase como Xerxes) e quer renunciar à luta para evitar a morte de tantos milhares de homens: Krishna chega a convencê-lo, e desde então a destruição de tantas existências não mais o retém: dá o sinal de combate.” (Schopenhauer, 1818, pg. 42.)
Krishna, propõe ao seu amigo que se coloque num outro plano onde os contrários se conciliam e os conflitos se resolvem na possibilidade de concórdia interior.
“Os que estão cheios de desejos egoístas consideram o céu como meta final, louvando excessivamente complicados rituais e cerimônias multiformes, com o fim de conseguirem poder e prazer em encarnações futuras. Todos os que visam ao poder e ao prazer têm da Verdade uma visão imperfeita, desorientados como estão no seu critério. Não acertaram com a senda da sabedoria. Perderam o caminho reto do seu destino. Não atingiram a experiência espiritual.”

Com isso a Suprema Personalidade de Deus propõe no capitulo da Revelação da Verdade, o tema central da filosofia dos Vedas: a auto-realização do homem pelo autoconhecimento (Martino, 2015). No entanto, o humano faz tudo por sua vontade, chegando a mentir pra si mesmo por isso, mesmo que Krishna nos oriente que “quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é escravizado por seus desejos”. Assim como para o devoto de Krishna, também para Schopenhauer, o mundo dos fenómenos (a aparência, a ilusão) é sinónimo de sofrimento e dor. Logo, a supressão da vontade é o único e verdadeiro acto de liberdade.

Essa ilusão ou ainda “fenómeno”, para Schopenhauer tem nos Vedas o nome de Maya e é o poder do aspecto criativo de Deus, mas que, entretanto é também a ilusão cósmica que cria a ignorância e oculta a visão da Verdade. Deste modo então, a Realidade Ultima é percebida como universo multifacetado e parcial. “Praticar a caridade e as boas obras é libertar-se das ilusões e das miragens de Maya. E amar a humanidade é o sintoma inseparável de tal conhecimento”. (Schopenhauer, 1818, pg. 160.)
Como grande contribuição para a geração e o desenvolvimento atual da psicanálise, o conceito de vontade revela-se na forma mais primitiva, enquanto vontade de viver; o que faz do instinto sexual pulsão de vida.
“Depois desta digressão sobre a identidade do amor puro com a piedade e sobre o fenômeno das lágrimas, sintoma duma piedade que se reflete sobre a própria pessoa, retomo o fio das minhas explicações sobre o significado moral da conduta, para estabelecer que a fonte única, donde derivam bondade, amor, virtude e nobreza de ânimo, é, em última análise, originária daquilo que se chama a negação do querer-viver.” (Schopenhauer, 1818, pg. 166.)

O Eros de Freud representado no desejo mais primitivo e gerador do maior medo. Isso faz a satisfação sexual, em si mesma uma experiência narcisista.  Para Schopenhauer o mundo configura-se conforme a vontade. Vontade continua que nunca é satisfeita sendo então geradora de um eterno sentimento de insatisfação.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiasmartino@hotmail.com 
pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/









Martino, Renato D. O livro do desapego - 1. ed. - São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.
Safranski, R. SCHOPENHAUER: E OS ANOS MAIS SELVAGENS DA FILOSOFIA, radução: William Lagos, editora: Geração Editorial, Rio de Janeiro, 2012/1987.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Trad. Heraldo Barbuy. Rio de Janeiro: Ed Saraiva, 2012/1818.
NIETZSCHE, Friedrich. Schopenhauer como educador. Tradução Adriana M. Saura Vaz. Campinas: Faculdade de Educação/ UNICAMP, 1999.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Dicas de Filmes - A Vida é Bela - (1997)

Um belo filme italiano de 1997, A Vida é Bela (La Vita è Bela), foi dirigido e protagonizado pelo genial Roberto Benigni. Durante a Segunda Grande Guerra, em 1938, na Toscana da Itália, Guido (Roberto Benigni), casa-se com Dora (Nicoletta Braschi), uma bela professora. Com a tomada das tropas nazistas, ele que é judeu, é mandado para um campo de concentração, juntamente com seu único filho, Giosuè (Giorgio Cantarini) fruto do seu casamento feliz.
 Roberto Benigni


Sua esposa, Dora, que apesar de não ser judia decide acompanha-los também. De uma forma muito bonita Guido não permite que seu filho perceba que está num lugar horrível, fazendo que ele acredite que ambos estão num campo de férias, participando de um jogo.

Preserva assim à todo custo a ilusão do garoto, prometendo que se perseverasse no jogo ganhariam um tanque de guerra.


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