quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

SOBRE O PROCESSO DO LUTO E O ESTADO DA MELANCOLIA - Uma Observação Sobre o Pensamento de Freud

Dürer, Melencolia I, 1514
Dois caminhos depois da perda

O tema proposto nesse texto foi muito bem debatido por Sigmund Freud (1856 - 1939) e seus discípulos, porém sinto de extrema utilidade que possamos cogitar alguns aspectos dos caminhos que se pode tomar, quando aquilo que contamos como primordial, nos escapar.
A palavra luto serve-nos para descrever o período que se segue depois da perda de alguém que nos é importante, alguém que de alguma forma é ou foi alvo dos nossos investimentos, alvo dos nossos interesses, ou mesmo, que éramos ligados. A palavra luto serve para descrever a perda de uma pessoa amada, uma posição social ou uma ideia que, se constatou, não viável a realidade. “Sentir o luto” descreve de alguma forma o que deve ser desligado de nós e um processo natural da vida.
Logo ao nascer automaticamente temos que aprender a perder. O próprio momento do parto é para o bebê o fim de um modelo de vida e o início de outro: ele passa de um mundo, aquático para um mundo aéreo (respiração pulmonar) e, de uma alimentação via umbilical para a forma oral. Quando a perda ocorre, nos recolhemos em direção do nosso ego (eu) e nos desinteressamos em certa medida pelas coisas do mundo (externo), nos voltando para dentro de nós mesmos (interno). Esse mecanismo é o que poderíamos chamar de depressão, essa expressão tão usada, para descrever “certos estados mentais”. É esse o fenômeno psíquico que acompanha o período do luto que funciona como o processo de cicatrização de um ferimento.

Como na conduta do caracol do nosso jardim, que se recolhe até que o perigo passe. Desse modo, assim que elaborado o período de luto, ou seja, quando a perda que ocorreu no mundo real (externo) foi também aceita no mundo interno (afetos e emoções), o sujeito inicia um processo de expansão para o mundo externo. Bem como lá no jardim o caracol, depois de algum tempo, põe sua cabeça para fora da casca, tentando retomar seu caminho.
De uma forma esquemática, percebe-se o perigo, admite-se o risco, recolhe-se até que retome a consciência da situação. Um período de reflexão, de como será o mundo sem aquilo que julgava vital e, só depois disso, o sujeito se vê capaz de retomar sua busca por novas ligações afetivas. Mas é fundamental para a maturação deste processo que o “sujeito” reconheça o que perdeu, ou seja, saiba o que se foi e como foi perdido e, também assuma as consequências. Porém, sem que isso implique em interromper suas realizações.
Assim, o ego se mantém íntegro, mesmo depois da perda ou, em outras palavras, a autoestima permaneceu em suas proporções e agora, se vê pronto para buscar novamente algo fora. Contudo, a perda do objeto apresenta outro caminho em paralelo. Pensemos aqui na melancolia.
Sigmund Freud (1856-1939)
Neste estado mental, os processos ocorrem muito semelhantes ao do trabalho do luto, porém com algumas ressalvas de crucial importância.
Na melancolia, também ocorreu à perda; da mesma forma, o sujeito sofre a depressão, como a perda do interesse pelo mundo externo (pessoas e coisas), todavia, diferente do luto, o ego sente-se empobrecido e enfraquecido, como se lhe faltasse um pedaço. Assim, é comprometida a autoestima. Como se disséssemos “sem isto, eu não consigo viver”. Parte do eu parece morrer junto com aquilo que se perdeu no mundo. Freud, em 1917, escreve: “No Luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego”. O que parece morrer não é apenas aquilo que se deseja, mas o próprio desejo.
No estado de melancolia, o eu se divide. Uma parte se volta contra a outra, condenando pela perda ou pela incapacidade de viver sem aquilo que se perdeu. Parte do eu se identifica com aquilo que se perdeu. O sujeito melancólico não deixa morrer, na fantasia, aquilo que morreu no real. Desta forma vive aquilo que se perdeu de uma forma narcísica, onde só existe para ele.
Sigmund Freud (1856-1939)
O modelo de relacionamento que pode ter o desfecho melancólico, no caso da perda, nos parece estar caracterizado de forma narcisista. Freud se utilizou do “mito de Narciso”, por trazer em seu modelo grande simbologia. A palavra grega “Narkissos”, que vem do grego “narkes”, significa “entorpecimento / torpor” e ela deu origem à palavra narcótico. Narciso, além disso, é a denominação da flor bela, todavia, inútil, pois morre posteriormente a uma vida breve, estéril e tóxica. 
A Mitologia Grega contava que Narciso era filho do Rio Céfiso e da Ninfa Liríope. A mãe Liríope, que foi fertilizada sendo vítima da insaciável energia sexual de Céfiso, teve uma gravidez penosa e indesejável. Narciso, o filho, nasce tão belo que deixa a mãe assustada. Por esse motivo ela busca o cego Tirésias (vidente), que revela a Ninfa Liríope que Narciso viveria muitos anos com uma condição: de que ele não conhecesse a si mesmo. O mito grego de Narciso só amou a si mesmo e quando amou o outro, o fez através de sua imagem refletida na margem do rio, onde morreu depois de muito adorar sua própria face.
A proposta é que a relação ou o vínculo que se faz com aquilo que se perdeu (segundo o modelo melancólico) é sobre aspectos do “eu” projetados no outro. Uma relação por identificação. Parece-me, nesse caso, a única forma de viver sem o objeto. Uma forma regressiva de estabelecer vínculos, pois é desta forma que o bebê se liga à mãe e irá fazer suas ligações com outras coisas e pessoas, por um bom tempo, ou até mesmo no decorrer de toda a vida, em certa proporção. O bebê não existe sem a mãe ou alguém que cuide dele. Esse objeto de amor é percebido de forma ambivalente.
Por um lado, é idealizado por estar de posse de fatores inerentes à própria existência do sujeito; porém, por outro, mantém um ódio gerado pela inveja daquele que parece ter (ou tem) parte do “eu” (algo que o eu parece não viver sem). Quando o objeto é perdido, recai sobre o “eu” o peso da falta. O que emerge e aparece na consciência é o ódio em forma de culpa e auto-repreensão que, durante a dependência, foi reprimido.
A dificuldade de se deprimir, a impossibilidade ou incapacidade de viver a perda dificulta o processo do luto. Torna-se uma prisão melancólica, o real passa a ser evitado em troca da fantasia. A perda do objeto nos traz a chance de olhar para o vazio, único lugar onde podemos construir.



Capítulo do livro Para Além da Clínica. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiasmartino@hotmail.com
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Encontrar a felicidade dentro de si é o sucesso dos relacionamentos

Encontrar a felicidade dentro de si é o sucesso dos relacionamentos
Francine Moreno


Lézio Júnior/Editoria de Arte

Muitas pessoas acham que só podem ser completas e felizes se tiverem um parceiro. Mas considerar que um relacionamento será fonte segura de felicidade é um erro. A felicidade nunca é propriedade da outra pessoa, ou seja, cada um tem força suficiente de ser feliz independente do outro. Aquele que acredita que colocar uma aliança no dedo anelar da mão esquerda é garantia de um final feliz, é justamente quem mais tem chance de se decepcionar e sofrer.

É muito perigoso, de acordo com o psicoterapeuta professor Renato Dias Martino, depositar todas as expectativas. “O casamento pode ser uma fonte de felicidade quando fizer parte de uma construção desse estado de espírito. Nada que é real pode trazer certa fonte inesgotável de felicidade. Uma união feliz só se dá entre pessoas que criam situações felizes.”

A felicidade é da pessoa que a experimenta e nunca está depositada numa outra. A felicidade está relacionada ao bem-estar individual, que se prova em maior ou menor grau e em diversas situações e decorrente de inúmeras situações desencadeadoras. “A felicidade plena é praticamente inafiançável, mas sua ideia é tão envolvente que nos impulsiona a crescer e querer nos relacionar com a finalidade de provar, mesmo que em parte, suas delícias e prazeres”, afirma Ana Monachesi, psicóloga e especialista em sexualidade.

E nessa busca, cabe a cada um criar sua receita e escrever seu manual do que é sua própria sensação de felicidade. Segundo Prof. Martino, podemos melhorar nossas uniões responsabilizando-nos por nossa própria tristeza e retirando da mão do outro a tarefa de nos fazer feliz. “É preciso tentar tolerar as tristezas ou intemperanças do outro em prol da união, respeitando a necessidade de cada um em ficar algum tempo sozinho.” Professor Martino diz que para aumentar a felicidade e estimular o mesmo sentimento no parceiro é preciso propor a si mesmo um modo feliz de viver, ou seja, uma vida onde exista espaço para momentos felizes, que serão assim valorizados e cultivados. “Para compartilhar isso com o outro, é necessário que ele também espere isso para si, do contrário, será difícil viver a felicidade ao lado de alguém que não é capaz.”

Matéria na integra: http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Noticias/Comportamento/5364,,Encontrar+a+felicidade+dentro+de+si+e+o+sucesso+dos+relacionamentos.aspx

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

TOLERÂNCIA NA FORMAÇÃO DOS MECANISMOS DA INVEJA


 Sebastián de Covarrubias,
“ A inveja”, gravura, Século XVI

Um rapaz apaixonado trata com a nova namorada um jantar para sábado à noite. Passará para pega-la às 20 horas. Ao chegar pra buscá-la, no dia e horário combinados, o rapaz depara-se com um recado da criada para que aguarde até que a moça termine de se arrumar. O rapaz apaixonado, então, passa a esperar pacientemente. Espera por aproximadamente cinquenta minutos. Nesse período pensamentos e imaginações se movimentam e disputam lugar no interior de sua mente, assim como as cores do semáforo que o jovem assiste mudar inúmeras vezes no cruzamento mais próximo, enquanto aguarda. O moço que construíra expectativas de um “encontro perfeito”, cheio de entusiasmo, se vê agora a quase uma hora esperando. Durante esse tempo cada pensamento criativo de uma noite romântica como, nome de um restaurante preferido, prato predileto, vinho branco e proposta para se estenderem noite adentro, são conflitados pelas imaginações geradas a partir da duvida do amor da moça, que, agora já o faz esperar por uma hora. Ele imagina então: “Como me faz esperar tanto?”, “Como posso me permitir ser desprezado assim?”, “E toda atenção que investi nela?”, e por fim “Me sinto um idiota”.

Melanie Klein (1882 - 1960)
Deixemos o rapaz que já aguarda enfurecido por alguns instantes e pensemos agora em um bebê que começa a perceber a satisfação que traz o seio da mãe. Descobre como é prazeroso o conforto de seu colo e a proteção desta que muitas vezes não pode atendê-lo de imediato. A capacidade de tolerar esse período de espera (momento entre o desejo até a chegada do seio) é na psicanálise – sobre tudo a partir dos estudos de Melanie Klein (Viena, 30 de março de 1882 - Londres, 22 de setembro de 1960) em (Inveja e Gratidão, Estudo das Fontes do inconsciente, Imago, 1974) – um fator decisivo no desenvolvimento dos mecanismos formadores da inveja. É como se o outro (nos exemplos a cima, a mãe - namorada) estivesse de posse de partes do “eu” (bebê-rapaz apaixonado). Deste modo: “como posso viver sem o outro?”. A partir desse vértice, a gênese da inveja estaria nisso que o outro tem e que o “eu” não vive sem. É útil nos lembrarmos que a paixão é amor sem verdade, onde o outro tem a posse do “eu”. “Ele é tudo pra mim, logo sou nada sem ele.”
Voltemos ao paciente rapaz, que agora espera a mais de uma hora a vaidosa moçoila que ainda se encontra em frente ao espelho escovando suas longas e alouradas madeixas. O período de espera pode se tornar um lugar propicio para ataques à imagem idealizada da moça, assim como, da proposta de uma noite romântica. Dessa forma, quando a moça, muito bem vestida, penteada, maquiada e cheirosa, chegar, pode encontrar um rapaz enfurecido e ávido por retribuir vingativamente todo desconforto da longa espera. Da mesma maneira o seio nutridor da mãe pode ser recebido, depois de longa espera, com uma mordida. A idealização é seguida pela destruição do objeto antes adorado.


Ilustração de Gustave Doré (1832 – 1883)
- Divina Comédia, Dante Alighieri (1265 – 1321)


Isso implica diretamente na capacidade de simbolizar. A saber; simbolizar é a capacidade de sentir a presença mesmo na falta, através de uma imagem internalizada. Quando essa capacidade é de alguma forma comprometida, a falta é preenchida por ideias destrutivas.
No desenvolvimento da vida emocional do bebê, a entrada do pai é experimentada por um impacto que é sentido com um novo modelo, o ciúme. Esse novo sentimento inclui mais alguém na relação que até então era entre dois, mãe-bebê. Nesse triângulo é onde ocorre a formação do que Sigmund Freud (1856-1939), utilizando-se do mito de Sófocles, e chamou de Complexo de Édipo, mas que não pretendo me aprofundar nesse texto. 
Édipo e a esfinge (Oedipus et Sphinx),
1808, pintura de Jean Auguste Dominique Ingres;
Paris, França.
Contudo, o ciúme pode ser oportunidade de experiência tanto como uma evolução emocional em direção a realidade, por compreender alguém mais na relação mãe e filho, quanto um risco de regressão a antigos conflitos mais primitivos. Quando a inveja do seio e da satisfação que este traz, é algo de acentuação extrema, a entrada do pai na relação é recebida de uma forma diferente. O que se deseja não é o amor do pai, mas a disputa da posse deste com a mãe. Desta forma, na menina, por exemplo, pode estar se estabelecendo um protótipo de relações subsequentes, onde cada sucesso em direção aos homens passa a ter a importância de um triunfo sobre outra mulher.




Prof° Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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sábado, 19 de dezembro de 2009

A memória da perda

Já tivemos, em outra oportunidade, a chance de pensarmos sobre a distinção entre o “saudável” e o “prazeroso”.  Contaremos com os argumentos cogitados nessa ocasião para abrirmos o assunto contido no texto aqui presente. Já que falaremos de experiências emocionais de cunho um tanto quanto desconfortáveis, contudo de extrema necessidade se a intenção a priori é a de classificarmos um modelo de desenvolvimento da mente, expansão do pensamento logo, da qualidade do vínculo que se pode ter com pessoas e coisas.


Arthur Schopenhauer 
(1788-1860)
Se partirmos de certo intento onde como propõe o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) a angústia suscitada pelo medo da morte é a expressão máxima do sofrimento humano, então talvez fosse um tema digno de cogitação aquele cujo objeto parte das emoções geradas conforme a consciência sobre a decadência e a morte. Um saber que da ao humano o título de homo sapiens. O sabedor de sua vulnerabilidade e mortalidade, assim como referente a aquele que ele ama. Certo conhecimento mobiliza o mundo interno e cobra alguma ação psíquica no intuito de diminuir ou amenizar o efeito da descarga libidinal gerada nesse contato com a verdade. Verdade essa referente à incontestável realidade humana ou até mesmo a realidade de todo e qualquer ser vivo. A mesma angústia que ocorre aos deuses, assistindo-nos do Olímpo. Contudo, de forma inversa e velada, talvez os deuses invejem-nos a possibilidade de descansarmos um dia da obrigação do mortal em manter-se vivo, mesmo cônscio da imutabilidade do fato da morte.

Sigmund Freud 
(1856-1939)
De qualquer forma, a geração de ansiedade frente á idéia do desamparo, declínio e morte é um recurso natural do aparelho mental. A introdução dessa realidade no âmbito do funcionamento psíquico não é um processo simples. De forma hipotética, poderíamos aqui levantar algumas possibilidades de desenlace dessa experiência. Uma delas, e a que me parece ser a mais primitiva, é aquela em que o sujeito do conhecimento do real, automaticamente pronuncia a ação física. Ao ser inundado pela angústia, parte logo para ação (no mundo externo) no intuito de aplacar o desconforto gerado. A falta de recursos mentais mais aprimorados e a incapacidade de conter impulsos fazem o bebê espernear e berra quando se sente assim angustiado. Em uma linguagem psicanalítica, nesse caso a pulsão de morte é direcionada para fora do eu (em direção ao outro). Um segundo modelo seria aquele em que o sujeito, ao perceber a ineficácia da ação mecânica em conter os impulsos, o reprime, e submerso na desesperança, desiste da atuação. A partir daí, sob a regência desse modelo de funcionamento a pulsão de morte volta-se para o eu (para dentro). Como na melancolia descrita por Sigmund Freud (1856-1939) em 1917, o sujeito desse funcionamento sente como irremediável o prejuízo dessa realidade pairando sobre o eu. Como se a partir da ciência do real, nada mais despertasse seu interesse a não ser a fantasia (que exclui o próprio real). Estes dois modelos têm a função exclusiva de afastar o desconforto psíquico e estão enquadrados num funcionamento mental do qual Freud denominou em 1911 como principio do prazer-desprazer.

Um terceiro modelo e o que nos interessa sobre medida nesse momento, é justamente aquele que faz pensar. O que implica para Freud (1911), a entrada do principio da realidade. O que permite adiar certas ações através da contenção do impulso que assim ganha à chance de transformar-se em pensamento simbólico. A capacidade mental em tolerar desconfortos é que proporciona o que chamaríamos de continência psíquica e definirá o norte dessa experiência com o real. Contudo, conter emoções desse calibre, de maneira saudável, exige essencialmente criatividade. A consciência do nascimento e morte obriga a criação de um espaço entre esses dois fatos. Justamente a subseqüência de um processo do qual aprendemos chamar de “vida”.



Gradiente evolutiva

Se depois de pensarmos nesses modelos de formação psíquica, estamos de acordo, e até aqui nos faz certo sentido em comum, podemos então desenvolver a idéia de uma escala evolutiva do pensar. Uma escala onde podemos até tentar eleger um ponto de partida, contudo, assim como seu apogeu, ele nunca coincidirá com idéias acabadas ou saturadas em sua dimensão. Estamos falando do percurso seguido pelo elemento mais primitivo da mente rumo ao seu desenvolvimento, ou mais adequadamente falando, sua expansão. Um impulso gerador de fantasias no contato com a consciência da perda. Podemos sugerir talvez, a sensação gerada pelo contato com aquilo que se é capaz de chamar de realidade, como ponto de partida e a formação da idéia simbólica (a saber, a capacidade de tolerar a ausência do real sensorial), como pretensão de objetivo a se alcançar. Parece-me que isso definirá algumas experiências que se possa viver com a memória da perda e ainda o que isso pode representar. Algo como prejuízo na estrutura do ego (personalidade), ou no extremo oposto, vitória e superação de limites e consequentemente fortalecimento e expansão do eu?

Joseph Breuer 
(1842-1925)
De qualquer forma, a ideia ou o pensamento simbólico, se manifesta na capacidade de relatar em palavras a história da própria vida, já que transformar fatos em palavra exige certa habilidade simbólica. Foi a partir desse modelo que Freud abandonou o método catártico da hipnose. Em 1891, Freud publica “Contribuições à Concepção das Afasias”, obra que firmar, categoricamente, o rompimento com as hipóteses sobre os “estados hipinóides” e o método catártico de Joseph Breuer (1842-1925). O pai da psicanálise começou a perceber e a partir dessa percepção passou a criar instrumentos para identificar no discurso de seus pacientes a parte da mente que exigia cuidado.


Assim, podemos mensurar a dimensão da importância da memória da perda assim como a necessidade de nos tornarmos consciente dela para o bom funcionamento mental. Cada iminência de perda remete á experiências de sensação de desamparo ocorrida num tempo onde o acolhimento, sensação de segurança, ou de se sentir contido num ambiente saudável, eram a única maneira e justamente, o que definiria a sensação de estar vivo. A confusão do que é a morte da abstração e o que é a morte efetiva.

Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Relação Destrutiva




Contribuição para o jornal Diário da Região.
Matéria de Francine Moreno sobre relações destrutivas.



Entrevista



Francine Moreno - Como se resume um relacionamento perigoso?


Prof. Renato Dias Martino - Um relacionamento perigoso pode ser aquele, em que existe um contrato não verbal de dependência. Onde um impede o outro de crescer, porém, sem que isso seja percebido com nitidez.


Francine - Como reconhecer uma pessoa destrutiva?


Prof. Martino - Pessoas destrutivas não respeitam a si mesmas, nem o outro. Isso em muitos casos é claro e visível através do comportamento, não obstante, muitas vezes só se pode perceber certas características destrutivas por meio do convívio.


Francine - Diz o ditado que a mulher deve olhar como o homem trata a mãe dele para saber como será tratada. É verdade?


Prof. Martino - Pode ser um bom início para se conhecer o funcionamento vincular daquele da qual se esta se envolvendo, apesar disso, o vínculo estabelecido entre duas pessoas deve ser singular e independente das experiências anteriores. Penso que, só alguém que é capaz de reconhecer seus próprios limites conseguirá ser respeitada e amada como merece.


Francine - Devemos nos preocupar com os problemas que o parceiro (a) teve nos seus antigos relacionamentos?


Prof. Martino - A pré-ocupação é sempre perigosa. Aquele que se pré-ocupa com o passado ou com o futuro, pode ver-se impedido de ocupar-se do presente.


Francine - Mesmo mulheres e homens inteligentes e seguros não estão imunes a relações destrutivas? Por quê?


Prof. Martino – Se existe alguma imunidade ela só pode depender da maturidade emocional, isso equivale à capacidade de conhecer-se e respeitar-se a si mesmo. Costumo dizer que a inteligência diz respeito ao 'saber' e a maturidade diz respeito ao 'ser'. Quem aprendeu respeitar-se a si mesmo não permitirá que outro o desrespeite.


Francine - Há homens e mulheres mais vulneráveis a relacionamentos perigosos?


Prof. Martino - Creio que a vulnerabilidade esteja relacionada à imaturidade emocional, onde os vínculos ainda são estabelecidos em modelos primitivos. Dessa forma o relacionamento fica exposto a formas perversas de ligação, onde não existe espaço para evolução ou crescimento, só á disposição para repetições.


Francine - E porque alguns sempre buscam esse tipo de relacionamento?


Prof. Martino – Talvez por que sejam mais cômodos. É justamente o comodismo o maior atrativo desse modelo de relacionamento. O medo de ser abandonado aliado a um sonho de viver um vínculo de dependência, como aquele em que se vive na primeira infância. Onde não se é responsável por si mesmo. Existe sempre um ganho, mesmo que inconsciente, nesse tipo de relação.


Francine - Há como se precaver destas relações destrutivas?


Prof. Martino – Sem duvida que sim. Para começar, a tarefa é propor-nos desfazer certa relação destrutiva com nós mesmos. Falo daquilo que chamamos de funcionamento autodestrutivo. É só através desse tipo de funcionamento que o outro encontra lugar para se instalar e ocupar um lugar nesse modelo de relacionamento. Na verdade, muitas vezes, no estudo de casos dessa espécie, o que se revela é que o sujeito destrutivo entra para dividir a culpa pela destruição que de alguma forma já ocorria.


Francine - Como diferenciar as preocupações legítimas de amigos e familiares das cismas e antipatias?


Prof. Martino – Antes que o outro (amigos e familiares) compreenda a forma perversa de relação, de certa forma, quem está vinculado já percebe. E na realidade, mesmo que o relacionamento esteja aparentemente numa forma inadequada, sempre existe uma força inconsciente que insiste em manter a ligação perigosa. Assim, quando amigos e familiares tentam avisar, intrometendo-se na relação, podem estar interferindo em algo bem mais complexo do que imaginam.


Francine - Quando a relação é perigosa e destrutiva a única maneira é sair?


Prof. Martino – Sim, sempre!
Penso que, evoluir os modelos de relacionamento demanda sair do modelo antigo. Isso não implica necessariamente em romper com a pessoa que se esta ligada, mas sim, com o tipo de vínculo que se tem com ela. Contudo, existem casos onde o rompimento pode ser o único recurso para se preservar as partes.


Francine - Como podemos ajudar uma pessoa que está em relacionamento assim?


Prof. Martino – Só podemos ajudar aquele que pede ajuda. De outra forma nada pode ser feito. No caso do pedido efetuado, penso que a melhor forma é conduzi-lo a um profissional.
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Link para a matéria, site do jornal.
http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Noticias/Comportamento/2385,,Relacao+destrutiva.aspx



Prof. Renato Dias Martino
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Por que fazer psicoterapia

Por que fazer psicoterapia 

Não me parece exagero dizer que o mundo civilizado elege aquilo que é concreto ou palpável como indicativo ou referencial para definir aquele que possa ser chamado ou não de bem sucedido na vida. O ser humano vem dedicando seu interesse quase que exclusivo a essa modalidade de conquista. Assim me parece caminhar o sujeito humano civilizado.
A humanidade parece enfrentar um período da historia onde a infertilidade (para não dizer esterilidade) na produção do pensamento é algo preocupante. O bem material se tornou tão valorizado que sufoca a cada dia a capacidade de reflexão do homem. Lembro-me então do saudoso Raul Seixas quando cantava sobre...



“As mensagens que nos chegam sem parar, ninguém pode notar, estão muito ocupados para pensar...”.Raul Seixas, S.O.S.




Como poderia então um sujeito se dispor a momentos onde a concretude das coisas simplesmente perde o valor e dentro de uma sala, deitado num divã, propor junto com seu analista, pensar e tentar através da reflexão entender sua dor, ou de alguma forma aliviar o peso de perceber sua angustias? Essa angustia que com nome de dor, a cada dia se torna mais localizada no corpo físico e longe dos conflitos psicológicos, ou pelo menos sem chance de associação entre uma e outra. Poderíamos dizer: cada dia mais perto do corpo (concreto) e mais distante da alma (subjetivo).
A tecnologia se desenvolve assustadoramente para dar conta dessa dor que surge no corpo. Medicamentos são desenvolvidos cada vez mais eficazes para amenizar essa dor e o homem ganha assim status e onipotência de um Deus. A aceitação do próprio corpo que poderia ser um bom exercício de reflexão sobre si mesmo foi substituída por um avanço espantoso na medicina estética que coloca próteses de silicone para introduzir o que se imagina faltar e retira o que não é desejável. A “casca” do ser humano fica cada vez mais bela, por pequenas fortunas. A evolução medica cura as mais variadas formas de câncer (muitas delas adquiridas pelo consumo de substancias que ele próprio criou). Na psiquiatria elaboram-se antidepressivos e ansiolíticos cada vez mais desenvolvidos, que a cada dia se aplica menos em nome de uma patologia fisiológica, mas em nome de uma psiquiatria estética, onde talvez fosse uma oportunidade de certo trabalho psicoterapeutico, no sentido de restabelecer a capacidade de pensamento e reflexão da própria vida.

Cria armas cada vez mais elaboradas para destruição em massa; promove-se catástrofes na natureza de grandes proporções, como derramamento de óleo no mar, desmatamento e destruições de rios com descarga de esgoto. Como escreve Freud em 1930, no texto O mal estar nas civilizações:

S. Freud (1856-1939)
“... As épocas futuras trarão com elas novas e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus...”.


Mas, esse desejo sendo realizado sem que se desenvolva a capacidade de pensamento, caracteriza um modo perigoso de caminhar. O indivíduo se vê impelido a buscar uma garantia concreta para o amanhã. Contudo, na busca pelo material a rivalidade e a competição são conflitos sempre presentes. Em uma sociedade onde a família e suas tradições são cada dia menos valorizadas, fica também ameaçado o ambiente de acolhimento e segurança para se sonhar, imaginar e pensar. Desenvolver o aparelho pensador.
Penso que esse modelo de ser humano que somos hoje, necessita urgentemente resgatar sua capacidade de pensar - a principal habilidade que o difere dos outros animais. Pois, ao colocar essa capacidade em prática, também passa a valorizar o subjetivo. Aquilo que ainda não é, mas pode vir a ser. Esquecemos completamente de que tudo aquilo que podemos constatar pelos órgãos dos sentidos é passageiro, mas aquilo que não se pode perceber pelo sensorial é eterno.
A psicanálise assim como as psicoterapias busca, sobretudo, reconstruir essa capacidade de pensamento e imaginação, propõe a produção de pensamento pelo pensamento, esse que constrói o amanhã. O amanhã que é sempre incerto e que na verdade ainda não existe, mas nos preocupa no que poderá nos trazer. O devir. O amanhã só existe hoje se pudermos imaginá-lo e pensá-lo em suas reais possibilidades. Na relação analítica, ou seja, naquilo que se constrói entre terapeuta-paciente, o sujeito tem chance de se conhecer em seus desejos e seus medos (que andam lado a lado). Nesta descoberta podemos criar um modo de ser mais adequado para vivermos em um mundo que também se adequará a nós. Falo antes de tudo de um movimento de expansão da capacidade de reflexão e pensamento.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Doar e aprender, receber e ensinar



Tempo Verdade Poussin Olgagrd -
O Tempo resgata a Verdade da Disputa e da Inveja Nicolas Poussin,
1640-2 Musée du Louvre, Paris
  Doar e aprender, receber e ensinar
O ensino não existe a priori. Isso se partirmos de um pressuposto onde a capacidade de aprender, talvez seja o que revela o objeto de ensino, e quem sabe, origina o objetivo de ensinar. Só aprendemos, ou apreendemos do mundo, aquilo que sentimos como necessidade ou desejo. Freud, em 1915, descreve o inconsciente como sendo a base geral do psiquismo humano. Ele propõe um sistema de funcionamento em que tudo que chega à consciência do indivíduo, passa primeiro pelo inconsciente. Quando aqui, se fala em inconsciente, o que se pretende é mencionar o lugar do eu onde não existe conhecimento. As linguagens racionais acessíveis nesse nível são extremamente escassas. Não temos controle desta área do psiquismo. Não somos donos de nós mesmos, nessa parte do eu. Por isso, alguns sonhos(que trazem em seus conteúdos grande material inconsciente) são tão assustadores e sem nexo; ou às vezes que nos espantamos com pensamentos, e até mesmo certos comportamentos estranhos que pensamos ou fizemos e não conseguimos achar um sentido para tal. São todas manifestacãoes do inconsciente onde se sente, mas não se sabe.


Se pudermos expandir o pensamento até essa detenção de realidade, poderíamos dizer que, tudo que chegou ao saber, passou antes pelo sentir. Sentir, desejar, são experiências extremamente individuais, a não ser na relação umbilical. O que a mãe sente ou deseja, implicará diretamente no futuro daquele que se encontra no seu interior.


Só buscamos conhecer aquilo que é ou, um dia foi objeto de nosso desejo. A saber, desejo é aquilo que parte do nosso interior e se pronuncia em direção ao mundo externo. Podemos até fazer uma analogia com o modelo nutritório, onde o bebe aprende amar aquela que o nutre. Para que exista aprendizado realmente, me aprece que as idéias devem seguir certo caminho. A partir do reconhecimento da necessidade a criação de um ambiente rico em afeto que permitirá, através da gratidão, que a “dependência” se transforme em “amor”.


Assim, na medida em que propomo-nos a apreender as coisas do mundo externo, criamos vínculos que nos permitem um melhor discernimento entre o que é real e o que criamos imaginativamente. Ou seja, podemos descobrir os limites entre o eu e o outro. Quantas vezes nos pegamos querendo saber sobre o outro, porém; será que queremos saber realmente o que ele deseja, ou na verdade o que nos interessa é saber se ele quer aquilo que esperamos que quisesse?


Se pudermos estar de acordo até aqui, podemos dizer então que, aprender é algo muito mais próximo do doar que do receber. Quando guiados por certo vértice de pensamento que compreenda o modelo continente/conteúdo, aprender é doar espaço do eu para que o outro (em idéia) se instale. Da mesma forma, o ensinar se encontra bem mais próximo do receber do que do dar. Usando um vértice semelhante, receber a demanda do que realmente cabe ser ensinado. Diferente de “empurrar” a qualquer preço aquilo que se deseja que o outro aprenda, mesmo que isso não faça sentido a ele.


Assim como em nossas relações afetivas, proponho através destas linhas a tentativa de criação de um vínculo escritor-leitor num ambiente onde prevaleça a verdade e o amor. Na verdade a união dos dois termos em amor à verdade e a verdade que existe no amor.
Dessa forma, poderíamos levantar duas questões das quais imagino surgirem nas cogitações do leitor. De que verdade estaríamos falando aqui, já que estamos frente a um conceito extremamente dependente de uma experiência individual? Penso aqui na verdade enquanto direção, onde poderíamos nos orientar. Aquela verdade que nos faz eternos pesquisadores do mundo e da vida. Aquela verdade que não sossega. Aquela que nos acorda de manhã nos cobrando um tipo de resposta que não servirá mais ao depois de amanhã. Aquela que nos vira a cara a cada encontro. Aquela pela qual só podemos nos ver orientados, mas nunca possuidores.


A segunda pergunta talvez se referisse ao amor. Que amor poderíamos estar tentando propor aqui, enquanto condição para o vínculo? Penso naquele tipo de amor que atrai as diferenças. O que necessita da diferença se encantando com isso. Aquele que se desliga do eu e liga-se no outro. Aquele que enxerga ou outro além do eu no outro.
Aquele que se propõe ensinar deve ter desenvolvido a humilde idéia de que a maior parte do que se espera ensinar nunca será aprendida. E se isso acontecer, a pretensão da confirmação do resultado é algo contrario a real efetivação do vinculo aprender - ensinar.

Prof. RENATO DIAS MARTINO
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

Fone: 17-30113866

sábado, 7 de novembro de 2009

Algumas publicações na revista Psique


Conhece-te a ti mesmo
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O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção abastecido de crises existenciais mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável

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No dia-a-dia estamos cercados por acontecimentos cruéis que por si só já causam sofrimento. Mas fazemos questão de revivê-los seja nos noticários no cinema nas músicas e até no turismo. Afi nal de onde vem a satisfação humana em observar cenas e situações macabras?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Representa- te


Representa- te
Renato Dias Martino

De onde vem essa dor?
Angustia ou um buraco?
Um turbilhão, um rotor
Ou simplesmente o vácuo?
Preencher com ilusão?
Dos pés faltando o chão
Eu sei que é tudo em vão
Verdade, vida, amor...
Trocados pela dor
Sem imagem ou representação.



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
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