domingo, 30 de junho de 2024

UNIVERSO COMO ELEMENTO DE PSICANÁLISE - Prof. Renato Dias Martino



ELEMENTO DE PSICANÁLISE

O Bion, lá no ELEMENTOS DE PSICANÁLISE, ele orienta que, para que algum elemento seja elemento de psicanálise, ele precisa de duas condições básicas, pelo menos. Que ela não fuja do seu significado original, que ela esteja de acordo com a semântica da palavra e o segundo é que ela possa se ligar aos outros elementos de psicanálise, criando assim aquilo que ele chamou de sistema de dedutivo teórico, ou sistema dedutivo científico. Para que a gente possa transformar o conceito “universo” ou experiência de universo, para a psicanálise dentro da perspectiva de um elemento psicanalítico, nós precisamos buscar resgatar a semântica da palavra e tentar alinhavar ou associar este elemento com outros elementos dentro da psicanálise. Então, vamos tentar fazer esse exercício juntos aqui.

UNIVERSO

Se a gente pensar a semântica da palavra universo, UNI quer dizer unificar e VERSO quer dizer vértice, aquilo que eu posso unificar num vértice. Vamos levar agora para prática clínica. Dentro do setting terapêutico nós criamos um universo. Este universo, a gente pode levar na perspectiva da ambiência, da psicosfera. Ali, na prática clínica na dupla no setting, no quadre do vínculo paciente e analista. Nós criamos um universo. Este universo, ele por mais que a gente chame de universo, ele não tem a conotação de uma bolha, por exemplo, porque ali estão sendo elaborados elementos que vão servir, não só para aquele universo, mas para expansão esses elementos têm o intuito fundamental de expansão o universo do setting terapêutico, ou universo da prática terapêutica é um universo em expansão, assim como os cientistas, os astrônomos têm a ideia do próprio universo que o universo está em expansão. Todo o desenvolvimento traz a ideia de expansão, isso não é diferente na prática clínica. O universo é o vértice Uno que é possível dentro do setting terapêutico, ou de qualquer outra perspectiva, mas que para ser saudável precisa estar em expansão.

UNIVERSO INDIVIDUAL 

Muitas vezes, a gente ouve as pessoas falando assim: “Ah! A realidade dele era essa...”. Não! A realidade é uma só. Ninguém tem sua realidade. Você tem seu universo, você tem o seu vértice de unidade. A realidade é uma só para todo mundo, o que muda é o universo de cada um. Ou seja, a capacidade de cada um de reconhecer esta realidade. O universo do sujeito tem aquela dimensão dentro da realidade, que é um universo maior. A “realidade última”, como diria o Bion.


UNIVERSO EM EXPANSÃO


Conforme o sujeito amadurece a sua dimensão emocional, conforme ele vai vivendo experiências que vão trazendo para ele maturidade emocional, que vai se desdobrar na maturidade afetiva, qualificando ele para isso, esta capacidade emocional e a capacidade afetiva vai fazendo com que ele possa expandindo esse universo em direção ao infinito. Eu gosto muito do modelo da espiral progressiva. O sujeito vai vivendo experiências de integração e desintegração e cada volta que ele dá nessa espiral progressiva, ele vai expandindo o seu universo em direção ao reconhecimento, da capacidade de respeitar e a responsabilização pela realidade.

UNIVERSO E O PENSAR

Nós precisamos, impreterivelmente, do outro para expandir o nosso universo. Não há como expandir o universo sem que eu possa contar com o outro. O universo vai expandir através do pensar, da possibilidade de pensar. Quando eu penso eu estou em expansão. Este pesar precisa de duas medidas. Esse “pesar”! A medida vem do outro. Não é? O contraponto vem do outro. Então, não há como pensar sozinho. Não há como expandir sozinho e esse é o exercício da própria psicanálise.

SONHO E REALIDADE

Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade. O Raul coloca no “Prelúdio”, mas na verdade isso daí é uma frase lá dos Cervantes no Dom Quixote de la Mancha. Sonho é, segundo Freud, a manifestação de um desejo. Ele vai falar que é realização alucinada de um desejo. O desejo, para se tornar real, ele precisa perpassar pelo outro, ele precisa incluir o outro. O outro vai fazer aquilo que a gente chama, em psicanálise de “quebra do narcisismo”. Porque o outro traz a noção da realidade e quando o outro traz a noção da realidade, esse sonho que era só um sonho que se sonhava só, passa a ser realidade. Traz uma conotação de um universo mais expansivo. Não só aquele desejo narcisista, mas agora a possibilidade da viabilidade da realização deste sonho. É muito bonito quando dois universos se juntam num universo só e a psicanálise é um recurso por excelência para propiciar essa possibilidade de união de universos.




terça-feira, 25 de junho de 2024

TOLERAR OU SUPORTAR - Prof. Renato Dias Martino



Suportar é carregar um peso. Suportar é aguentar um peso. Tolerar quer dizer ser capaz de sustentar a situação até que passe. Tolerar é ser capaz de sustentar aquilo que está acontecendo com a esperança de passar. Suportar é carregar aquele peso sem a esperança de que aquilo passe. Tolerância inclui o respeito. Então, eu tolero até que isso passe e se isso não passar eu me afasto. Suportar é permitir e eu não permito.

MELANCOLIA 

O processo do luto inclui a tolerância. Aprender a tolerar. O suportar tem a ver com o estado de melancolia. O melancólico carrega um peso, ele suporta o peso do objeto que foi perdido, do objeto morto. O processo do luto, está fundamentado na capacidade de tolerar frustrações. O que é tolerar frustrações? Tolerar frustrações é ser capaz de sustentar a situação até que a situação se transforme. Então, é necessário que se tenha esperança de que aquilo está em transformação e não só esperança, mas está disponível à transformação da experiência. Esta é a tolerância quem tolera, tolera com a proposta de que aquilo está se transformando. O luto é isso. Então, o sujeito perdeu alguma coisa no mundo externo, tolera até que o processo possa se dar e ele aprenda a conviver com a perda daquilo que se foi e passa a tolerar a ausência disso que se foi. Passou então, a tolerância está configurada num fluxo. O fluxo do processo. Sofrer o processo do luto depende da capacidade de tolerar. Cada luto que você é capaz de sofrer o processo, você amplia mais um pouco a sua capacidade de tolerância. Na melancolia é o contrário. Melancolia não é um processo que se sofre, a melancolia é um estado que se entra e se cristaliza. Um estado estático. E nesse estado estático, o sujeito, ele não tolera, ele suporta o peso daquilo que morreu e na realidade, ele não dá conta de tolerar, por isso suporta. E suportar isso, aguentar isso, traz o prejuízo de desgaste, traz o prejuízo de desperdiçar energia carregando o peso morto. Por isso, ele não consegue fazer mais nada, porque ele está suportando aquele peso morto. O melancólico, ele carrega nas costas aquilo que foi perdido e com este peso, esse sobrepeso, por assim dizer, ele não consegue caminhar. Ele não consegue fazer as coisas básicas da vida dele, porque a energia dele está sendo desperdiçada todinha em carregar aquele peso morto.

CONCEITO E EXPERIÊNCIA 

Que que tem falar suportar ou tolerar? Não! Não teria problema nenhum, se você não fosse psicanalista. Não teria problema nenhum se você tivesse falando, por exemplo, de uma caneca, ou chamando essa caneca de copo. Não tem problema, mas nós estamos aqui tratando da relação entre experiência e conceito. A nomeação de experiências. É necessário que a gente possa nomear adequadamente à experiências. Porque, muitas vezes, o seu paciente pode chegar dizendo assim: “olha, fulano me deu um tapa na cara, mas ele fez isso por amor”. Aí, você pergunta: “o que que você está chamando de amor?”. “Que conceito você está atribuindo para experiência de amor?” Isso, dentro da clínica, não é importante, é fundamental, porque senão, as palavras vão se desconectando do pensamento e das experiências.

TOLERÂNCIA E MATURIDADE

Uma coisa é a mãe tolerar a imaturidade da criança até que ela se desenvolva, outra coisa é uma mãe suportar a criança. Quando ela suporta esta criança, ela acaba obstruindo o desenvolvimento desta criança. Porque suportar diz respeito a aceitar assim como é. Tolerar, diz respeito a respeitar o processo que está em desenvolvimento. Quanto mais maduro emocionalmente o sujeito estiver, mais ele é capaz de tolerar e menos ele é capaz de suportar.

TOLERÂNCIA OU PERMISSIVIDADE 

Tolerância tem limite. Tolerar é a partir do reconhecimento do limite. Quando o sujeito reconhece o seu limite, ele tolera. Quando a situação passa do limite, ele tolera para se retirar, quando a situação está dentro do limite, ele tolera até que a situação se desenvolva e se transforme. A incapacidade de reconhecimento do limite invalida a tolerância. Se o sujeito não reconhecer o limite, a tolerância dele não é tolerância, é permissividade.



quarta-feira, 19 de junho de 2024

O DESEJO E AS FUNÇÕES DOS PAIS - Prof. Renato Dias Martino



E se estamos falando de desejo, precisamos tocar aqui na ideia do primeiro e maior desejo do ser humano, que é o de ser desejado e este desejo vai se estruturando vai se alimentando conforme a necessidade de ser reconhecido não for nutrida. Quando a gente fala de reconhecimento, nós estamos falando de necessidade. Existe uma necessidade. Existe uma vontade de ser reconhecido. Isso é básico. Isso é estruturante. O sujeito precisa ser reconhecido. Existe uma necessidade de ser reconhecido e quando esta necessidade de ser reconhecido não é nutrida, não é satisfeita, o que acontece é que vai se alimentando o desejo de ser desejado, o desejo de ser aprovado. E aí, começa a haver uma distorção na relação afetiva, na relação com o outro. Ele tem uma propensão a que o outro olhe para ele com olhares desejosos.

DESEJO CONTEMPORÂNEO 

Na contemporaneidade, existe essa tendência muito evidente aí, nas redes sociais, do sujeito que não pôde ser nutrido na sua necessidade de ser reconhecido e passa a fazer de tudo para atrair olhares que possam aprová-lo, que possam desejá-lo.

SATISFAÇÃO OU NUTRIÇÃO

Um termo é satisfação, ser satisfeito, outro termo é ser nutrido. Muitas vezes eu posso me sentir satisfeito, mas eu não fui nutrido. Então, muitas vezes, o olhar do outro pode trazer uma aprovação, pode trazer um olhar desejoso, que me satisfaz, mas que não me nutre. O olhar nutridor é o olhar reconhecedor. O reconhecimento nutre, a aprovação, ou o desejo, satisfaz. Então, muitas vezes, eu estou com a barriguinha cheia, me sentindo satisfeito, mas sem nenhum nutriente. E muitas vezes, o olhar reconhecedor, ele não te deixa satisfeito, mas ele nutre. Você não se sente satisfeito com aquilo, porque, muitas vezes, o olhar reconhecedor, ele vem com inúmeros elementos que são desprazeroso, que não me satisfazem, mas, que ao mesmo tempo, me nutrem para que eu possa ter um autorreconhecimento real.

O “NÃO” NUTRIDOR

Muitas vezes, o “não” é muito mais nutridor do que um “sim” e quando esse “não” vem irrigado de amor, ele é nutridor e inclusive, não carece de justificativa, porque se esse não vem por amor e com amor, ele não carece de ficar se justificando. Porque ele é uma expansão do reconhecimento e do acordo com a realidade.

RECONHECIMENTO E NUTRIÇÃO

Quando uma mãe está amamentando o bebê e fica olhando no olhinho dele, quando ela está trocando o bebê, quando ela está manuseando, quando ela está fazendo aquilo que o Winnicott chama de handling, manuseando o corpinho da criança, ela está também fazendo o holding, também do Winnicott, que é envolvê-la no ambiente emocional-afetivo, ela faz isso prestando atenção. Esta atenção dedicada vai enriquecendo a criança como se ela passasse a existir a partir do olhar da mãe. E aí, o que acontece é que ela vai sendo reconhecida pela mãe e vai passando a reconhecer a si mesma. Este autorreconhecimento, futuramente vai se desdobrar na capacidade de reconhecer o outro. Mas tudo começa lá atrás, quando falha lá atrás. O que acontece é que existe aí, uma fixação na necessidade do olhar do outro, que passa a não ser mais satisfeita pelo olhar do outro no reconhecimento, mas que agora passa a haver uma compulsão na busca por aprovação do outro, na busca pelo desejo do outro.

FUNÇÕES E FATORES 

Existem consequências diferentes da falha do reconhecimento da mãe e da falha do reconhecimento do pai. Tanto dentro da função materna, quanto da função paterna, existe o fator reconhecimento. Então, o reconhecimento é um fator das funções. Dentro da função materna, existem consequências da falha da privação do olhar reconhecedor, na função paterna existem outras consequências na falha do olhar reconhecedor. No entanto, é muito importante a gente pensar que a falha no olhar reconhecedor da mãe é basal, é o que fundamenta. Falhou o reconhecimento da mãe, dificilmente o sujeito vai conseguir desfrutar do reconhecimento do pai, mesmo que ele vier. É o que abre a porta para a realidade. É o que vai abrindo os terminais para que o sujeito possa receber aquilo que vem do mundo externo. Quando falha essa primeira abertura, todo o resto passa a ser comprometido. Pode haver reparações, pode haver possibilidade de restaurações, mas ainda assim, sempre haverá um prejuízo. A função materna, ela sempre está ligada muito mais a acolhimento, a amor, a dedicação, doação, a cuidado, a nutrição. As características do pai têm muito mais a ver com algo que transcende a isso. Tem a ver com provisão, com proteção, acreditar em si mesmo, autoconfiança. De qualquer forma, a função materna é basal. E aí, vale lembrar, quando a gente está falando aqui de uma função materna bem-sucedida, ela impreterivelmente, precisa contar com a função paterna. Mesmo que não seja diretamente ligada à criança. A mãe precisa ter a função paterna presente ali, para que ela se sinta segura o suficiente para nutrir esta criança daquilo que a criança demanda. Se essa função paterna não estiver ali, mesmo que essa criança ainda não perceba essa função paterna efetivamente. Se esta função paterna não estiver ali, a relação entre a mãe e o bebê será deficitária, em maior ou menor grau. mas será. Uma mãe que não pode contar com um companheiro vai ter uma qualidade de cuidado com a criança e a mãe que tem este companheiro presente, ela pode contar com ele, terá outra capacidade de dedicação a essa criança.

FALHA NAS FUNÇÕES

A falha da função paterna vai comprometer diretamente a relação que essa criança vai estabelecer com o mundo externo. Confiar em si mesmo para se embrenhar nas experiências do mundo externo. A falha na função materna tem muito mais a ver com o comprometimento da relação que o sujeito tem com ele mesmo. Então, se estrutura a relação do sujeito com ele mesmo dentro da função materna e se expande da relação dele com o outro na relação paterna. Porque o pai é o terceiro. O pai é aquilo que vai desfusão entre mãe e bebê e a mãe é fundamental porque a mãe vai dizer assim: “Olha, este cara aqui é confiável, este cara é seu pai, pode confiar nele, porque ele é um cara legal”. E se ela não fizer isso, a relação da criança com o pai vai também, sofrer um comprometimento.

CUIDADO E ESTRUTURAÇÃO

É por isso que é tão complicado deixar uma criança aos cuidados de terceiros antes do terceiro ano e meio, quarto ano de vida. porque é até o terceiro ano ou quarto ano de vida que a criança vai estruturar o seu funcionamento emocional afetivo a sua personalidade de maneira muito sensível. Então, ela precisa estar ali, na presença da mãe e que tenha um pai presente dentro deste período. Pelo menos três anos e meio, quatro anos, até que ela possa ali, criar uma autoconfiança, até que ela possa criar ali, um bom relacionamento com ela mesma, para que depois ela possa se embrenhar aí, nas relações sociais, que são cheias de falsidade, cheias de elementos tóxicos, que ela precisa estar muito bem estruturada e nutrida para que ela possa enfrentar todos esses elementos tóxicos que a vida social traz.

APRESENTAÇÃO DO PAI

É claro que a função paterna presente, o pai, a figura paterna fisicamente presente é de fundamental importância, no entanto, quando o pai não está presente por algum motivo, porque morreu, ou por qualquer motivo, o pai não esteja presente, mas a mãe conta histórias de que o pai era um cara legal, já há uma possibilidade da criança estruturar a imagem paterna dentro dela, de tão importante que é a apresentação do pai, feita pela mãe. Só da mãe dizer: “Olha, teu pai era um cara legal, teu pai fazia isso, teu pai me amava, teu pai fazia aquilo...” Não é o suficiente! Não estou dizendo que é o suficiente, mas a criança vai criando ali, uma imagem do pai como uma pessoa que vale a pena seguir como modelo. Mesmo que ela não tenha tido a vivência com ele. Por outro lado, mesmo com o pai presente, quando a mãe se nega a apresentá-lo como uma pessoa boa e na realidade, muitas vezes, faz um desserviço a isso, dizendo que ele não presta, a criança vai se fechando, vai se embotando na relação com qualquer fator da função paterna e isso vai ter um prejuízo enorme futuramente. Na menina, no momento em que ela for se relacionar com outros homens e no menino, quando ele for se relacionar com o homem que ele vai se tornar.

CUIDAR E PROVER 

A mulher pode ser uma profissional bem-sucedida? Pode ser uma advogada, pode ser uma médica, pode ser uma psicóloga, pode ser uma psicanalista bem-sucedida? Claro que ela pode! Ela não pode precisar ser. Ela deve fazer isso como realização, sem a necessidade de que isso seja o esteio do lar. Ela não pode ter a obrigação de provisão do lar, porque isto é função paterna. Querem me chamar de machista? Fiquem à vontade, mas a natureza ainda fala mais alto. Quando a mãe precisa fazer isso, a relação dela com as crianças, com seus filhos vai ser comprometida. O homem que não pode trabalhar para nutrir a sua casa, para prover a sua casa e permitir que a sua esposa possa cuidar dos seus filhos até o quarto ano de vida, não invente de ter filhos! Não é o momento! E a da mulher mesma coisa... Se ela não pode ficar em casa para cuidar dos seus filhos até o quarto ano de vida, não se meta a besta de colocar um coitadinho no mundo que vai padecer com esta situação. É por isso que o mundo está deste jeito que está. Porque as pessoas vão soltando filhos do mundo sem que esses filhos tenham um espaço emocional-afetivo que possa cabelos no lar.

FUNÇÃO PATERNA

Eu deixo um convite aqui para uma pesquisa breve de sujeitos que trazem fatores nocivos, ou para sociedade, ou para si mesmo, ou qualquer manifestação desestruturando que possa afetar o seu funcionamento emocional, a sua capacidade afetiva e até a sua relação social. Faça uma breve pesquisa na vida desse sujeito. E aí, se estendendo a corruptos dentro da política, assassinos a sequestradores, a ladrões, todo tipo de delinquência. Faça uma breve pesquisa na vida desse sujeito que você não vai precisar ir muito longe para ver que existe uma ausência enorme da função paterna. Unanimemente, em todos os casos, a função paterna não foi cumprida de maneira suficientemente boa.

ESTRUTURAÇÃO

Quando existe uma estruturação do lar, quando a mãe foi dedicada, quando o pai estava presente, existe uma estruturação na personalidade desse sujeito que nenhum convite, seja ele de instituições, seja ele de propagandas, seja ele de programas de televisão, ou de redes sociais, que sejam futilidades, que sejam banalidades, que estejam ali, dentro de uma perspectiva nociva, vai pegá-lo. Não pega! Uma boa estruturação da família, uma boa função paterna bem comprida, uma boa função materna bem comprida, faz com que o sujeito crie uma integração da sua personalidade o suficiente, que porcaria alguma o pega. Por outro lado, quando existe a falha na estruturação do lar esta pessoa vai crescer um adulto completamente inseguro de si mesmo e qualquer promessa vai convencê-lo, vai seduzi-lo. Qualquer promessa um pouco mais convincente vai seduzi-lo e ele vai acabar aderindo à ideologias, à propagandas, à programas inúteis fúteis.


quinta-feira, 13 de junho de 2024

PASSADO, FUTURO E PRESENTE - Prof. Renato Dias Martino



Qual é a proposta de se estudar o passado, o futuro e o presente? Essa ideia vem de uma sementinha que o Bion propôs. O Bion propõe, mais especificamente, ali, no ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, publicado no Brasil em 1970. Ele propõe a ideia de que um psicanalista, para exercer a sua prática clínica, precisa rebaixar o máximo possível, do resgate dos dados armazenados na memória, ele precisa rebaixar o máximo possível da sua expectativa, do seu desejo e que ele seja capaz de tolerar a sua ignorância, logo, rebaixar a ânsia de saber. Que, na realidade, ânsia de encaixar a experiência presente naquilo que ele já sabia, ou naquilo que ele supostamente acreditava saber. Pensar, refletir sobre passado futuro e presente é uma necessidade dentro da manutenção das articulações no manejo da prática clínica. Se ele estiver sendo capaz de rebaixar ao máximo a sua memória, a sua expectativa e a sua ânsia de saber, ele está sendo um psicanalista.

SABER

É importante a gente pensar também que, quando a gente fala de rebaixar a memória e rebaixar a expectativa, a gente está falando, diretamente, da questão do saber, do conhecer. O conhecimento depende do resgate de dados da memória. Quem conhece, conhece alguma coisa porque registrou alguma coisa na memória. E este resgate da memória vai acontecer justamente com uma tentativa de dar conta do futuro. E este resgate, também tem a ver com uma angústia de reconhecer que, aquilo que passou, passou. Não existe mais! Então, uma tentativa de resgatar a memória é deixar vivo aquilo que já morreu. Resgatar os dados da memória é uma defesa quanto a angústia daquilo que passou e que não volta mais e tentar aplicar esses dados no futuro, uma defesa contra o sentimento de ansiedade que é gerado pela perspectiva daquilo que virá.

MATERNÁGEM

O modelo freudiano da psicanálise, tem muito mais uma característica paterna, da função paterna, do que materna. Foi a partir das formulações da Melanie Klein que o modelo do analista passou a ganhar atributos da maternágem. Não é que perdeu as características da paternágem, por assim dizer, mas ganhou mais estas características, de holding segundo o Winnicott, de rêverie, ou função-alfa, segundo Bion. Ganhou essas características e o analista passou a trazer elementos da função materna também para o manejo da prática clínica. Dentro dessa perspectiva a proposta de rebaixar a memória, rebaixar o desejo e a compreensão, tem muito a ver também com a prática da maternágem, a prática da mãe. A mãe precisa rebaixar isso. A mãe precisa rebaixar aquilo que ela sabia sobre seu filho, porque o seu filho está em franco desenvolvimento. Porque, o seu bebê está em transformação constante. Cada dia a criança é uma outra pessoa e esta mãe precisa estar mais livre possível das suas expectativas em relação à criança, para que essa criança possa desenvolver de maneira saudável. Reconhecer esta criança a cada encontro, conhecer novamente e respeitar. RESPECTUS - RE = de novo + SPECTUS = prestar atenção, novamente e perceber o desenvolvimento dela.


quinta-feira, 6 de junho de 2024

ACOLHIMENTO E CURA - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente desenvolve a psicanálise do acolhimento, a gente está inspirado ali, no Winnicott, quando ele fala do holding, no Bion quando ele fala ali, da função-alfa, do rêverie, mas tudo isso também está em Freud. O Freud foi o grande acolhedor. O Freud abriu a sua atenção para aquilo que a classe médica não se importava e foi só a partir de uma enorme tolerância para colher aquilo que não estava dentro do alcance sensorial. Não dava para ver aquilo, não dava para tocar, não dava para examinar aquilo. E para isso precisou haver acolhimento, para que o sujeito se sentisse ali, à vontade para trazer o conteúdo que precisava ser pensado. Então, o grande acolhedor é Freud. É claro que o Winnicott deu uma expandida enorme. É lógico que o Bion trouxe um enriquecimento muito grande nesse sentido. Também, por conta de ter sido analisado pela Klein e orientado pela Klein, que o preparou para isso. Mas isso tudo está em Freud, antes de qualquer coisa. “Em outras palavras, né?” Em outras palavras, de outra forma. Ele foi até ali. Não pode ir para além dali. Tinha uma pressão enorme, de todos os lados, para que ele trouxesse resultado. Por isso que ele começou com essa conversa de cura. Muitas vezes aí, na obra dele, você vê ali: “depois do tratamento concluído houve a cura completa”. Cura? Meu amigo, não existe cura. Você vai reconhecer isso, vai aprender a respeitar isso e vai se responsabilizar por isso. Vai se transformar, mas não vai deixar de existir. Você pode estar ferido emocionalmente, afetivamente. E aí, você pode viver uma experiência curativa desses ferimentos. Mas curar? Cura completa do que? Muitas vezes, o paciente traz uma queixa e ele fala: “eu preciso me curar disso” e em duas ou três sessões ele começa a perceber que aquilo que ele precisava se livrar, ou curar é a característica mais nobre que ele tem, é a maior virtude que ele tem e ele queria se livrar daquilo.