domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.





quarta-feira, 25 de setembro de 2024

PSICODIAGNÓSTICO E TRANSFORMAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino


TRANSFORMAÇÃO 

A gente tem a ilusão de que através da nossa intervenção que a transformação acontece. Nós é que mudamos as coisas. Não! Na melhor das hipóteses, a gente vai desobstruir o caminho para que a transformação aconteça naturalmente. Na realidade, a transformação está acontecendo o tempo todo. Somos nós que obstruímos o caminho e não percebemos que a transformação está acontecendo. A gente vai criando ilusões para manter a realidade cristalizada, como engessada, quando na realidade - e me desculpe aí o pleonasmo - a realidade está em franca transformação. Somos nós que não somos tolerantes a essas transformações. A gente deseja ser definido, mas nós somos possibilidades. Nós somos transformações constantes e não pela nossa vontade, pela vontade do todo, pela vontade da natureza, pela vontade da realidade, que vai se transformando por si só. E o trabalho psicanalítico está implicado nisso também. O trabalho psicanalítico não promove mudança, mas propicia a desobstrução para que a transformação possa acontecer e não apenas uma mudança superficial, mas uma transformação profunda. Não apenas uma mudança de comportamento, como promete outras psicoterapêuticas, mas uma transformação de funcionamento. Não é só o comportamento é o funcionamento.

DEFINIDO

Nós somos processo, não somos definidos, mas a gente aprendeu que a gente precisa se definir. Desde pequenininho as pessoas pergunto para você assim: “o que que você vai ser quando crescer?” Quando você é adolescente, você já precisa estar com isso muito seguro, porque você vai prestar o ENEN, você vai prestar o vestibular para ser isso que você falou para todos os adultos que você seria, E ai de você, se você não for isso, você vai ter que fazer um esforço hercúleo para mostrar para todo mundo que aquilo ali não era bem daquela forma.

INTEMPERES 

Hoje você não pode mais ter uma mínima intemperança no seu humor. Sabe essas coisas que a gente vive? A gente tem estudado bastante o movimento da espiral no GEPA. Sabe essa coisa que uma hora você está para baixo, outra hora você está para cima? Não pode mais! Porque, senão você é bipolar. Mas se você foi diagnosticado bipolar, agora você pode desfrutar de tudo o que um título de bipolar, do que o rótulo de bipolar pode te trazer. Por exemplo, agora eu acho isso, amanhã não acho mais, hoje eu estou triste, amanhã eu estou feliz, amanhã eu estou para cima... Agora eu posso, porque eu fui rotulado. Mas se eu não fui rotulado, eu não tenho direito disso. Todo mundo vai me olhar torto.

CONSTÂNCIA 

O sujeito que normalmente é diagnosticado como inconstante emocionalmente, na maioria das vezes é o sujeito que teve a sua estruturação da personalidade num ambiente emocional inconstante. Ele viveu num ambiente emocional que não trazia constância e hoje ele tem a configuração da personalidade inconstante. E o sujeito que reclama do outro ser inconstante é porque também não está tolerando a inconstância. Ou seja, não está sendo capaz de manter a sua constância. Para que um sujeito possa estabelecer uma certa constância no seu funcionamento emocional, ele precisa, antes de qualquer coisa, de um ambiente de constância, um ambiente que seja de paz de tranquilidade, que não ameace destempero, para que ele possa estabelecer um funcionamento saudável e constante, um ambiente saudável. A psicanálise tenta trazer isso o ambiente do setting terapêutico propõe essa constância. Por isso que é importante não ficar mudando móveis de lugar. É por isso que é importante que você, enquanto psicanalista esteja bem, sentindo um bem-estar, para receber o seu paciente, para que você possa trazer essa constância e para que ele possa perceber a sua inconstância em relação ao ambiente emocional que ele está inserido.

PSEUDOCIÊNCIA

A psicanálise carrega o título de pseudociência porque não tem comprovação científica. Eu gostaria de saber que tipo de ciência dá o poder do sujeito, através de uma entrevista de 15 minutos diagnosticá-lo como TDAH, como bipolar, como muitas vezes, esquizofrênico e não só diagnosticá-lo, mas passar a administrar medicamentos extremamente perigosos, que podem causar dependência para o resto da vida do sujeito. Isto é ciência? Isto sim é ciência? A psicanálise não?

PSICODIAGNÓSTICO

Eu tenho muito pouco conhecimento em relação aos psicodiagnósticos psiquiátricos, mas me parece que a maior parte desses psicodiagnósticos dentro da clínica psicanalítica é o que a gente chama de mecanismos de defesa. Aquilo que é um rótulo dentro do psicodiagnóstico, dentro da clínica, a gente vê como uma forma de se defender em relação a alguma outra coisa que está muito mais profunda. E tratar a defesa, só a defesa, não funciona. Você trata uma defesa, aquela defesa pode rebaixar, pode diminuir e outra defesa vai se erguer. Os transtornos alimentares, normalmente tem uma raiz muito mais profunda e dizem respeito ao vínculo que a criança estabeleceu com a alimentação. Me alimentar me trazia culpa. Cada vez que eu me alimentava e estava com a barriguinha cheia, eu me sentia culpado. Ou porque eu percebia que isso era desconfortável para minha mãe, por algum motivo eu me sentia culpado, logo, todas as vezes que eu me alimento e me sinto satisfeito eu vou ter a tendência de regurgitar, ou ainda, vou evitar me sentir satisfeito. E aí, a gente vai falar da anorexia e não da bulimia. Para não me sentir culpado, como eu me sinto. Todo psicodiagnóstico tem uma razão mais profunda. E aí, o que acontece? O sujeito acaba se medicando, essa defesa rebaixa, mas aquilo que realmente estava causando permanece latente e escondido do sujeito.




domingo, 22 de setembro de 2024

ADEQUAÇÃO DOS CONCEITOS - Prof. Renato Dias Martino


COMPREENSÃO

Compreensão. De que compreensão nós estamos falando? Muitas vezes o sujeito diz assim: “eu preciso de alguém que me compreenda, preciso me relacionar com alguém que me compreenda.” Sinto muito ser o porta-voz dessa péssima notícia, ou desta informação da realidade, mas você nunca vai encontrar alguém que te compreenda, talvez, na melhor das hipóteses, você encontre alguém que seja capaz de te respeitar, mas te compreender, não. Toda a compreensão é uma aproximação, é muito limitada. Compreender? Não! Ninguém vai te compreender, talvez alguém possa te respeitar. Respeitar é uma coisa, compreender é outra. Então, a gente precisa separar essas duas coisas. Muito mais importante do que estar junto com alguém que te compreenda, é estar junto com alguém que seja capaz de te respeitar, mesmo que não te compreenda, porque se você for esperar alguém te compreender para depois te respeitar, já houve muito desrespeito. O respeito é a base de qualquer relação.

EQUÍVOCO 

Nós, enquanto psicanalistas, precisamos adequar as palavras às experiências de maneira cuidadosa. Nós precisamos nomear experiências de maneira adequada, porque o equívoco é obstrutor no trabalho da psicanálise. Muitas vezes, a gente usa uma palavra querendo dizer outra, mas essa palavra usada vai ser obstrutora no fluxo do pensamento, já que o pensamento se estrutura através de palavras. Então, quando você diz assim: você precisa me compreender. Não, eu não posso te compreender. Não há possibilidade de compreender uma pessoa, porque uma pessoa é um fluxo. O sujeito está sendo, ele não é. E aquilo que está sendo não pode ser compreendido. Eu não posso saber sobre alguma coisa que está em transformação constante. Aquilo que eu sei agora, daqui a dez minutos já não sei mais. Então, não posso te compreender, mas eu posso te respeitar. É função do psicanalista, o respeito. O respeitar o outro para que o outro seja capaz de aprender a respeitar a si mesmo e estender esse respeito às outras pessoas. Então, esta adequação da palavra a experiência é fundamental dentro da clínica psicanalítica. Então, a gente precisa ter um cuidado enorme quanto as palavras que a gente está dizendo. Ah! Eu não quis dizer isso! Não foi isso que eu quis dizer! Pois é! Você não quis dizer, mas foi isso que você disse. E aí, você está alimentando o equívoco. Sabe o que é equívoco? EQU quer dizer igual e VOCUS quer dizer palavra. Então, se você está usando a mesma palavra para alguma experiência que não é adequada.

ACEITAR

A palavra aceitar dentro da clínica psicanalítica é quase um sacrilégio. Aceitar? Quem aceita o que? Aceitar, talvez assim, na expressão de: você aceita um café? Ah! Eu aceito. Aí sim! Agora, eu aceito você? Não! Ninguém aceita ninguém. Eu aceito a mim mesmo? Não! Eu não aceito a mim mesmo, mas eu me respeito. Eu respeito o outro. Respeitar não é aceitar. Se você aceita, você entra na zona de conforto, você entra numa zona mórbida de pulsão de morte. Então, deixa assim mesmo. Eu aceito assim e aí eu obstruo a possibilidade de transformação, porque eu aceito. Então, são palavras que a gente precisa ter um cuidado redobrado na medida em que elas estão configurando o discurso dentro da clínica psicanalítica.

ESFORÇO

Um outro exemplo disso é o esforço. Esforço não é saudável, talvez a dedicação. Dedicação não é esforço. Se você precisa se esforçar é porque a coisa não está sendo espontânea, é porque não está sendo natural e a gente vai precisar olhar para isso de uma maneira mais cuidadosa. Agora, dedicação é saudável, dedicação é muito saudável. Dedicação não é esforço, a dedicação não requer esforço. Você pode usar até a palavra sacrifício. Sacrifício não é esforço. Sacrifício é o SACRO-OFÍCIO. Você se sacrifica sem se esforçar, porque você se dedica. São várias palavras que a gente vem usando de maneira coloquial, de forma inadequada e que dentro da clínica, continuar fazendo isso vai fazer com que o sujeito estimule um vocabulário que alimenta o “ideal de eu”, alimenta o superego.

VALORIZAR

Você tem que valorizar! Não, você não tem que valorizar. Eu preciso de alguém que me valorize. Não! Eu não preciso de ninguém que me valorize, porque eu já tenho o meu valor. Eu preciso de alguém, talvez que seja capaz de reconhecer o valor que eu já tenho. Ah! Você tem que valorizar a natureza! Não! Eu não tenho que valorizar a natureza. A natureza tem o seu próprio valor. Eu preciso me tornar capaz de reconhecer o valor que a natureza tem. Não sou eu que atribuo o valor às coisas. As coisas já têm o seu valor. Ah, professor, você está sendo chato com isso! Pois é! Mas a clínica psicanalítica carece disso. Porque senão a gente constrói um texto enorme com equívocos, com palavras que não são adequadas às experiências.




terça-feira, 17 de setembro de 2024

PERMITIR ABUSOS - Prof. Renato Dias Martino


PERMITIR ABUSOS - Prof. Renato Dias Martino

AFASTAMENTO E MATURIDADE

Mais importante do que dizer não, é se afastar das relações nocivas. Não é que você tenha que se afastar das relações nocivas, é que é mais importante do que dizer não. Porque, muitas vezes, a gente diz “não” e se mantém ali. Se mantém fisicamente? Não! Se mantém emocionalmente, se mantém exposto a continuar sendo atacado, a continuar sendo abusado. E na realidade isso tem a ver com o instinto de autopreservação. O sujeito permite que o outro passe do limite e abuse dele porque, na realidade, ele não está em acordo com o seu próprio instinto de autopreservação. Existe um outro benefício que o leva a permitir o abuso do outro. Quando ele começar a ter um pouquinho mais de concórdia com seu instinto de autopreservação, que é alguma coisa extremamente primitiva. Não tem a ver com saber, com conhecer, até porque, isso está presente nas criaturas mais simples. Até em criaturas unicelulares você encontra esse instinto de autopreservação, em plantas você encontra isso. Você mexe na planta e ela solta uma substância que causa irritação, por conta desse instinto de autopreservação. Então, o sujeito, quando está num acordo com a realidade, quando ele está de acordo consigo mesmo, estar de acordo com o seu instinto de autopreservação, logo ele tende a se afastar daquilo que não está fazendo bem para ele e não simplesmente manifestar verbalmente com um “Não”. Alguma coisa que não esteja de acordo com a sua saúde emocional ou mental. É claro que a gente tá falando aqui de um desdobramento de algo muito maior, que é a maturação emocional, que é a integração do sujeito num todo. Porque, muitas vezes, ele se afasta fisicamente mas continua permitindo emocionalmente este abuso.

BENEFÍCIO DA PERMISSIVIDADE  

O sujeito trabalha num lugar onde ele está sofrendo um abuso. Ele está ali, sofrendo um abuso psicológico, um abuso emocional e as pessoas estão passando do limite com ele. E muitas vezes, superiores e coisas assim. Aí ele diz assim: “Ah! Eu não tenho o que fazer!” “Eu não posso me afastar desse lugar agora!” Ele se vale do benefício financeiro, ou qualquer coisa que está favorecendo ele ali e permite este abuso emocional e afetivo continue acontecendo. Ele consegue esse dinheiro, mas não está percebendo, mas está adoecendo emocionalmente e até afetivamente. Porque, quando ele adoece emocionalmente, ele afeta todos os vínculos que ele tem em casa. Amigos, ou coisa parecida. Ele se apega a este benefício, muito às vezes material de dinheiro, ou do título que ele carrega ali, ou da posição, do status que ele carrega ali, que ele consegue ali e acaba permitindo que isso vá corroendo, por assim dizer, o seu funcionamento emocional e afetivo.

JUSTIFICANDO A PERMISSIVIDADE 

Quando o sujeito começa a arrumar justificativas para, supostamente, compreender o outro que está abusando dele dizendo: “Ah! Ele teve uma vida muito difícil!” “Ah! É o que ele consegue fazer, então, eu vou permitir que ele continue abusando de mim!” Essa tentativa de, supostamente, entender a dor do outro é, na realidade, uma dificuldade que o sujeito tem de reconhecer a dor dele. E muitas vezes, isso até beira a onipotência. “Eu aguento tudo!” “Eu dou conta!” Enquanto isso, ele vai adoecendo sem perceber que está adoecendo. O sujeito sempre justifica as coisas do mundo externo por conta de uma dificuldade do mundo interno. Ele justifica alguma coisa que está acontecendo fora, por uma dificuldade dele próprio. O Schopenhauer escreveu uma obra belíssima chamada O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO, onde ele diz que assim, isso que a gente chama de mundo, na verdade, é uma representação da minha vontade. Então, aquilo que a gente está chamando de mundo, na verdade não é o mundo, é aquilo que a minha vontade permite chamar de mundo.


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

LIMITE E IMPOSIÇÃO - Prof. Renato Dias Martino


IMPOSIÇÃO


Tudo aquilo que precisa ser imposto não é saudável. Impor limites! Quando você impõe limite, isso já está denunciando que esta relação não é saudável. Você precisa pagar impostos ao governo. Não é isso? Este tributo é nocivo, tanto para o governo quanto para o povo. É roubo! É um roubo lícito. Se é que pode existir isso. Tudo aquilo que é imposto denuncia uma relação falida, fadada ao fracasso. O limite saudável é aquele que é reconhecido naturalmente. O limite saudável é aquele que o sujeito é capaz de perceber, reconhecer, respeitar e se responsabilizar.


IMPOSIÇÃO E DESRESPEITO 


Um adolescente que não é capaz de reconhecer, respeitar e se responsabilizar pelo limite é porque já houve uma falha lá atrás. Isso precisa acontecer de maneira saudável a partir do vínculo com os pais, que vai sendo estruturado de uma maneira muito saudável quando existe o respeito. Esse limite vai sendo percebido a partir da ética que está sendo nutrida dentro da relação. Quando existe a necessidade de imposição é porque isto está denunciando uma relação tóxica. E se você precisar impor o seu limite para alguém é um sinal de que você na realidade, está precisando se afastar desta pessoa, porque esta pessoa está invadindo algo que te desrespeita. Porque esta pessoa também não está sendo capaz de perceber, reconhecer, respeitar e se responsabilizar pelos seus próprios limites. Com uma criança, ou um adolescente, não é diferente. Agora se lá atrás já faltou, já falhou, aí nós precisamos ver caso a caso, o que é que pode ser feito. Agora, imposição é sempre um desrespeito. Imposição é sempre um ato violento. Não existe imposição saudável. Se foi imposto é porque algo está denunciando aquilo que não está sendo saudável.


AFASTAMENTO E TRANSFORMAÇÃO 


Quando existe a dificuldade de reconhecimento, respeito e responsabilização pelo limite, dentro de uma família e isto acontece por conta da falha dos pais em introduzir este reconhecimento nas crianças, e as crianças ou os adolescentes não foram capazes de internalizar isso, aprender reconhecer, respeitar e se responsabilizar pelos limites, precisa haver um distanciamento. Que distanciamento? Um distanciamento físico? Não! Porque, muitas vezes, a criança ou adolescente depende dos pais financeiramente, cuidados e inúmeros outros fatores. Precisa haver um distanciamento afetivo e emocional. esta pessoa precisa perceber que ela pode perder alguma coisa quando ela não respeita os limites só a partir do sentimento da perda só a partir da percepção da eminência da perda que o sujeito começa a mobilizar alguma transformação no nível emocional não existe nenhuma transformação sem que o sujeito perceba que ele pode perder alguma coisa com aquilo A partir dessa percepção de que ele está perdendo alguma coisa ele começa a mobilizar o funcionamento emocional dele para que isso possa trazer uma transformação


RECONHECIMENTO 


O filho desrespeita a mãe, o filho começa a abusar dos cuidados da mãe, por exemplo. Então, é importante que essa mãe se retire emocionalmente e afetivamente desses cuidados, até que o filho comece aprender a reconhecer o valor desses cuidados dela. Quando ele começa a reconhecer o valor desse cuidado, ela pode retornar a cuidar dele. É claro que a gente está falando aqui, de uma criança que tem o mínimo de discernimento, porque se ela não tem esse mínimo de discernimento, ela ainda está introjetando o reconhecimento do limite. Se esta mãe estiver sendo suficientemente boa e se ela estiver podendo contar com a função paterna, que é justamente aquilo que vai trazer o reconhecimento do limite. Não existe a possibilidade do reconhecimento do limite sem o cumprimento suficientemente bom da função paterna. É a função paterna que tem o fator do reconhecimento do limite. Se não existe uma figura paterna que esteja exercendo esta função de maneira suficientemente boa, de maneira bem sucedida, não haverá a possibilidade do reconhecimento, do respeito e posteriormente da responsabilização pelos limites.


DISTANCIAMENTO E PROTEÇÃO 


Esse distanciamento vai servir para proteger todos, desta agressividade, dessa violência. Vai servir inclusive para proteger a criança dela própria, em relação à mãe. Porque, tudo isso que ela está fazendo enquanto ela desrespeita o limite em relação à mãe vai fazer com que ela posteriormente se sinta culpada, tente se julgar, se condenar e até, muitas vezes, implementar autopunição por conta disso. Então, este afastamento vai criar a possibilidade dessa criança, ou desse adolescente proteger a si mesmo em relação à mãe.


PUNIÇÃO


Quando eu falo aqui do afastamento da criança, ou do adolescente perceber que ele pode perder alguma coisa com aquilo que ele está desrespeitando, em nenhum momento eu estou falando sobre castigo. Eu não acredito que o castigo possa trazer qualquer transformação saudável. Eu não acredito que a punição possa trazer qualquer transformação real. O castigo, a punição só traz transformação superficial. O sujeito, ele só alimenta o super ego. O castigo só traz para ele mais ódio, mais agressividade e só vai gerar mais dificuldades posteriormente. Qualquer castigo, qualquer punição? Qualquer um! Nenhuma punição faz com que o sujeito possa se transformar de maneira saudável. Um bandido que comete um crime, um político corrupto, ou um assassino que mata alguém e que é punido por conta disso, ele de maneira alguma, se transforma de forma saudável, por ter sido punido. O sujeito, ele sai da cadeia, o político corrupto sai da cadeia, porque foi punido e pratica crimes piores e mais bem elaborados. A questão não é ser punido. Ah, Professor! Então, você acha que o sujeito que comete o crime não pode ser preso? Não! Ele deve ser detido. É lógico que ele deve ser detido! Ele pode causar um mal para o outro. Então, ele não pode ficar em circulação. Mas a questão não é punição, a questão é detê-lo para que ele não faça aquilo novamente. Se bem que no Brasil a coisa é meio esquisita aí. Né? Porque tira o cara da cadeia e ainda dá para ele o título de Presidente da República. Mas deixa isso para lá, outra hora a gente conversa sobre isso. A punição, de maneira alguma pode trazer transformação saudável.


MEDO OU TEMOR


Professor. como é que eu faço para ensinar pros meus filhos o reconhecimento do limite? Reconhecendo o seu próprio limite. Quando você reconhece os seus limites, quando você aprende a respeitar os seus limites e se responsabiliza pelos seus limites o seu filho vai aprender isso através do seu modelo. Respeitar não é ter medo. Respeitar é por conta do amor, é uma extensão do amor. Eu aprendo a respeitar porque eu amo. Eu não aprendo a respeitar porque eu tenho medo. Eu aprendo a respeitar por temor. Temor é diferente de medo. Temer machucar alguém, não ter medo de alguém, porque esse alguém vai me machucar.


RESPEITO OU EDUCAÇÃO 


O respeito não pode ser imposto. Respeito não pode ser exigido. Ninguém exige respeito. Respeito é uma atitude que tem a ver com a capacidade do sujeito. Só respeita, o sujeito que é capaz de respeitar, porque muitas vezes, quando você está exigindo o respeito, o que você vai ter é, na melhor das hipóteses, educação. E educação não é respeito. Educação é superficial. Respeito é profundo. Educação é moralidade, respeito é ética. Educação quer dizer: “eu não faço mal para o outro, porque eu não quero que faça mal para mim”. Respeito é: “eu não faço mal para o outro, porque eu não faço mal para mim”. Então, não dá para exigir respeito.


PERMISSIVIDADE E ABUSO  


A grande dificuldade do sujeito de reconhecer o limite, aprender a respeitar o limite e se responsabilizar pelo limite é justamente a sua dificuldade de tolerar a frustração do outro. Tolerar que aquilo que ela teve como atitude frustrou o outro. Então, ela não consegue ser a porta-voz dessa frustração. Não foi ela que frustrou, foi a realidade, é a realidade que frustrou, mas foi ela quem foi o porta-voz desta frustração. Ela não tolera ser o porta-voz, ou representante da frustração do outro e aí se torna permissiva e o outro abusa.


DIZER NÃO OU SE AFASTAR


A gente ouve muito essa coisa: “Você precisa aprender a falar não!” “Você precisa aprender a dizer não para o outro, quando o outro está passando dos limites!” Mais importante do que aprender a dizer não para o outro, quando o outro passa dos limites, é ser capaz de se afastar do outro, quando ele passa dos limites. Eu preciso desenvolver a minha capacidade de tolerar frustrações para, me afastar daquele que esteja abusando de mim.








Prof. Renato Dias Martino

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

AMAR, DISTANCIAR E GOSTAR - Prof. Renato Dias Martino



 O AMAR E O GOSTAR


O outro me atrai, então eu gosto do outro. Eu me dedico ao outro, eu amo o outro. Então, no conhecimento popular, nós temos aí, a ideia de que, “eu gosto tanto que eu amo”. Não! Amar é independente de gostar. Quando eu digo: “eu preciso amar a mim mesmo para amar o outro”, não quer dizer que eu preciso gostar de mim mesmo para gostar do outro. Eu posso não gostar de mim, mas eu me amo. Eu posso não gostar daquilo que eu estou sendo, mas eu me dedico a mim mesmo. Eu posso não gostar do outro, o outro pode não me ser atraente, mas eu posso amá-lo, mesmo assim. Para gostar do outro eu não preciso gostar de mim primeiro. Mas para amar o outro eu preciso amar a mim mesmo primeiro e para que eu possa ser capaz de amar a mim mesmo, eu preciso ter sido amado pelo outro. Amar é um aprendizado e para que eu aprenda a amar eu preciso ter sido amado pelo outro. Porque eu aprendo a amar a mim mesmo através do amor que o outro teve por mim.


AMOR E DISTANCIAMENTO 


Muitas vezes, para amar alguém eu preciso respeitar um distanciamento necessário desta pessoa, senão, eu não consigo amar, senão essa pessoa vai me ferir o tempo todo e eu não vou conseguir desenvolver um amor por ela. Quer um exemplo disso? O escorpião! O escorpião é um animal formidável! Maravilhoso! É um exemplo de maternágem. É por isso que ele prolifera tanto. Porque, a mãe do escorpião é extremamente dedicada. Ele é um animal no notável! Eu amo o escorpião, mas o escorpião lá e eu aqui. Para que eu possa continuar amando o escorpião. Porque, se eu ficar me envolvendo muito com o escorpião, uma hora ele me pica e eu não vou conseguir mais amá-lo. Eu vou odiar o escorpião.


 AMOR DE PORCO ESPINHO  


Tem uma passagem do Schopenhauer muito bacana, que ele traz a história dos porcos espinhos. O Schopenhauer conta uma história que, no inverno, os animaizinhos foram se aproximando para um aquecer o outro, né? Os coelhinhos se aproximaram, os ursinhos se aproximaram, todos os bichinhos foram se aproximando e se aninhando, uns aos outros para se aquecer. E aí, os porcos espinhos também foram se aproximar, mas conforme eles foram se aproximando, começaram a se espetar um aos outros. Então, eles espetavam e se afastavam. O frio apertava, eles se aproximavam de novo, se espetava e se afastavam. Até que eles foram encontrando um distanciamento adequado para que eles pudessem se aquecer uns aos outros, sem se espetar. Então, a gente precisa respeitar o distanciamento entre um e o outro, para que a gente possa desenvolver um amor sincero e verdadeiro.