sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

SOBRE A ILUSÃO - Prof. Renato Dias Martino


VENENO DA ILUSÃO

A ilusão é invariante. A ilusão é cristalizada, é engessada. Ela deixa de ser invariante e passa a ser transformação na mesma medida em que ela deixa de ser ilusão. Quando ela começa a se transformar, ela já não é mais ilusão. O veneno da ilusão é a dúvida. Quando a dúvida entra, a ilusão passa a ruir e uma vez que a dúvida infiltrou na ilusão, é um caminho sem volta. Não tem mais jeito! O sujeito começa a duvidar daquela ilusão e esta dúvida vai rachando, vai ruindo, vai deteriorando a ilusão. Quando uma criança começa a duvidar do Papai Noel, não tem mais quem possa convencê-la disso e é um caminho sem volta, porque ninguém se “reilude”. O reconhecimento da realidade é um caminho sem volta. Nós estamos falando de maturação, de maturidade. Ninguém “desamadurece”. O reconhecimento da realidade vem com a maturidade e não há possibilidade de “desamadurecer”.

ILUDIDO VULNERÁVEL

Desilusão vai trazendo para mim, inclusive, a possibilidade de reconhecer o outro como alguém incapaz. Quando ele está iludido, imaturo no seu funcionamento, logo digno de compaixão. Então, um sujeito iludido é um sujeito digno de compaixão, porque ele está vulnerável dentro da configuração da realidade. Ele não está sendo capaz de reconhecer, ele não está sendo capaz de respeitar e de se responsabilizar pela realidade, logo está vulnerável as ocorrências que possam acontecer.

ILUDIDO PERIGOSO 

Um sujeito iludido é um sujeito vulnerável, mas é um sujeito perigoso. Ele pode atentar contra a própria vida sem perceber que está fazendo isso e atentar contra a vida do outro. Então, conviver com pessoas iludidas é um convívio perigoso. É prudente se afastar de uma pessoa, assim que você reconhece que essa pessoa está iludida e cristalizada na sua ilusão. É diferente da pessoa que te pede ajuda porque percebeu que a sua ilusão está ruindo, porque a dúvida começou a corroer essa ilusão. E aí, ele te pede ajuda porque está se sentindo inseguro. Porque aí começa o aprendizado. Ele se sente inseguro, te pede ajuda para que você possa acolhê-lo, para que este aprendizado possa se efetivar.

ILUDIDO INCONSEQUENTE  

Um exemplo claro disso é o trânsito. Você está no trânsito, andando na sua direita dentro daquilo que é adequado para aquela via e vem um sujeito maluco com o carro ultrapassando todo mundo. O que que você faz? Você desvia desse sujeito. Retira-se do campo que iria provocar um acidente com você. Então, da mesma forma, quando eu percebo um sujeito iludido, eu preciso me retirar do campo danoso, por assim dizer. Porque senão, eu vou ser afetado pela inconsequência desse sujeito que está iludido.

ILUSÃO E CONHECIMENTO

O contrário de ilusão não é o conhecimento. O contrário da ilusão é reconhecimento da realidade. O reconhecimento da realidade é um fator da maturidade emocional, não do conhecimento. O sujeito pode ser extremamente inteligente, pode ter um conhecimento enorme, pode ter uma sabedoria enorme, ainda assim, pode ser um grande iludido. Então, eu não tenho como desfazer ilusões através do conhecimento, da transmissão do conhecimento.

DESILUDIR

O sujeito tem o direito de estar iludido. Cada um tem o direito de se manter iludido enquanto isso for conveniente para ele. Ninguém tem o direito de destruir a ilusão do outro, enquanto esta ilusão não estiver afetando terceiros. A partir do momento que afeta terceiros, a sua atitude adequada é se afastar desse sujeito que está iludido e portanto, inconsequentemente envolvendo as pessoas que estão em volta dele. Agora, desfazer a ilusão do outro não o que eu posso é acolher o outro. Quando ele perceber que ele está iludido, por esta ilusão estar ruindo, aí eu posso acolhê-lo, mas tentar convencê-lo que ele está iludido, além de ser infecundo é um desrespeito. Porque, muitas vezes, essa ilusão pode ser aquilo que está mantendo o sujeito caminhando. Então, é muito fácil dizer para o outro: “isso aí é uma muleta!” Mas para que que serve a muleta? Para andar e muitas vezes, se você tira a muleta do sujeito, ele cai. Então, eu não posso tirar a ilusão do outro, porque aquilo pode ser o que está mantendo o sujeito andando.



sábado, 21 de dezembro de 2024

APRENDENDO COM AS EXPERIÊNCIAS - Prof. Renato Dias Martino


SABER

Por que que eu não gosto de usar a palavra saber? Porque ela, eventualmente vai ser implicada na ideia de conhecimento, na ideia de intelectualidade, na ideia de acúmulo de conhecimento e quando a gente fala de maturação emocional, quando a gente fala do campo emocional, do funcionamento emocional, o aprendizado não resulta no saber no conhecimento, mas resulta na maturação emocional, na capacitação emocional, que não tem a ver com saber. Por mais que a gente ouça as pessoas falando sabedoria: “sabedoria é diferente de inteligência”, saber é saber, é diferente de maturação emocional, é diferente de capacitação emocional, que vai qualificar o sujeito a uma atitude afetiva mais madura. Então, uma coisa não tem nada a ver com a outra. O conhecimento, ele está dentro da perspectiva de “saber sobre”, o funcionamento emocional está dentro da perspectiva do “estar sendo” e este “estar sendo” qualifica o sujeito para se relacionar com o outro. Então, este estar sendo no âmbito emocional qualifica o sujeito na ligação com o outro, num vínculo bem-sucedido. Então, não tem a ver com saber. Ninguém sabe amar, ninguém sabe se relacionar com o outro, mas o sujeito é capaz de se relacionar com o outro e consigo mesmo anteriormente.

DO SABER AO ESTAR SENDO

O conhecimento é um desdobramento, é uma consequência de viver a experiência. Aquele conhecimento que é adquirido através da teoria, aquele conhecimento que é transmitido de uma pessoa para outra pessoa, é um conhecimento superficial e que, na melhor das hipóteses, vai servir como possibilidade de nomeação de uma experiência que o sujeito tenha vivido. Este conhecimento que é transmitido de uma pessoa para outra através de uma aula, seja através da leitura de um livro, ele é superficial e extremamente fugaz. Ele serve só para aquela pessoa que aprendeu com outra pessoa transmita aquilo para uma terceira pessoa, mas ela não consegue usar, porque ela não viveu a experiência daquilo. Agora, se ela viver a experiência, aí este conhecimento transmitido entre uma pessoa e outra pode servir como possibilidade de nomear uma experiência que o sujeito tenha vivido. Do saber ao estar sendo! Então, este saber serve como nomeação do “estar sendo”.

APRENDENDO PELA EXPERIÊNCIA 

Num curso de psicanálise. Então nós vamos falar sobre transferência. O que é que o Freud chamou de transferência? O Freud chamou de transferência o fenômeno que acontece em que o paciente transfere elementos das suas vivências anteriores para o analista. Ele começa a se relacionar com a analista não como uma pessoa nova que ele está conhecendo, mas como pessoas que ele conviveu no passado. Isto é uma teoria. O sujeito teve essa aula no curso de psicanálise, se ele não viver uma experiência clínica em primeiro momento dele como paciente transferindo para o analista suas questões e depois viver ele como analista recebendo transferências do paciente, isso para ele é superficial. Isso tudo é uma conversa muito bacana transmitida do professor para o aluno, mas que não vai sair dali. Eu não posso chamar isso de um conhecimento real, porque não foi vivido na prática, não foi vivido na experiência. Agora, quando ele vive isso na experiência, seja dele como paciente com o seu analista, ou seja, dele como analista para o seu paciente, isso vai servir como nomeação dessa experiência que ele viveu. Aí ele vai dizer: “Então isso é que é transferência?” Aí ele aprende.

SABER TEÓRICO

O sujeito que se forma e passa num concurso para Juiz de Direito, por exemplo. É um sujeito que passou a maior parte da sua vida estudando livros, se preparando para concursos e nunca viveu a sua vida na prática. Ele não teve um convívio com as pessoas. Ele não teve um convívio, por exemplo, se ele for da área trabalhista, ele não teve um convívio, por exemplo dentro de uma empresa. Nunca foi empregado, nunca foi patrão... Ele viveu o tempo todo estudando, enfronhar nos livros e pesquisando o que é que ele precisava decorar para passar neste concurso. E aí, ele vai passar num concurso para juiz e vai começar a julgar pessoas dentro de uma perspectiva que ele nunca viveu, dentro de um universo que ele não tem a menor experiência. Ainda assim, ele vai julgar essas pessoas. Ele é uma pessoa extremamente inteligente, ele tem um conhecimento enorme, mas ele não tem vivência afetiva para ocupar a função.

PREPARO EMOCIONAL 

Pior ainda é quando o sujeito foi colocado no papel de juiz sem ter sequer se preparado teoricamente para tal. Nós assistimos aí, nas últimas semanas, um juiz do STF comparando a liberdade de expressão com o ato de um policial jogar um sujeito da ponte. Ele disse assim: “Então, se a liberdade de expressão for tolerada, jogar um sujeito da ponte também tem que ser tolerado”. Comparou a liberdade de expressão com a experiência de um policial despreparado pegar um sujeito e jogar de cima de uma ponte e ele afirmou isso com toda veemência como se ele tivesse falando uma grandiosidade. O título que o sujeito consegue dentro da sua hierarquia do saber do poder não garante a seu preparo emocional e afetivo para estar dentro daquela função.

APRENDER E AMAR

O real aprendizado parte da insegurança. Ninguém aprende nada se estiver seguro. Ele começa a aprender a partir da sensação de insegurança. Então, ele se sente inseguro, mas este aprender com a experiência só vai realmente se efetivar quando ele encontrar um vínculo que possa restabelecer a sua segurança. O despertar vem da dor. O sujeito desperta quando ele se sente inseguro, quando ele sente a dor, mas o aprendizado só acontece a partir do acolhimento. Quando ele é acolhido, ele passa a aprender com aquela dor que ele tenha sentido. A dor é o que desperta o sujeito, mas o aprendizado vem com o vínculo saudável que ele possa estabelecer com o outro. Porque, qualquer aprendizado que possa vir sem se vincular com o outro é um saber egoísta, é superficialmente narcisista. Todo aprendizado precisa incluir o outro. A gente só aprende com quem a gente ama. Não dá para aprender com uma pessoa se a gente não amar esta pessoa. Eu preciso me doar a esta pessoa, eu preciso estar aberto para esta pessoa, para que eu possa aprender com esta pessoa. Em qualquer aspecto. Qualquer aprendizado que não venha dessa experiência amorosa, afetiva é um aprendizado superficial, fugaz, efêmero, que não vai servir para nada, a não ser para o sujeito arrotar arrogâncias e prepotência.

SOCIAL OU AFETIVO 

Muitas vezes, a gente confunde vínculos sociais com vínculos afetivos. O vínculo social, o encontro social é uma coisa e o encontro afetivo é outra coisa. O encontro social não te traz nutrição, não te traz aprendizado. Ninguém aprende num convívio social. Você aprende num convívio afetivo, na troca afetiva, num vínculo saudável. O vínculo saudável traz nutrição em todas as esferas. A vida social é configurada, estruturada e mantida pela dissimulação, pela falsidade. Sociedade é igual a falsidade. Encontros sociais são mantidos por falsidade, por superficialidades, por máscaras.


domingo, 15 de dezembro de 2024

O FLUXO DA REALIDADE E A ILUSÃO OBSTRUTORA - Prof. Renato Dias Martino


REGRESSÃO

A mente funciona o tempo todo em transformação e quando ela é impedida de se transformar ela adoece. O processo emocional-afetivo, que está dentro da perspectiva mental é um processo de transformação constante e essa transformação é sempre progressiva, é sempre desenvolvendo-se, é sempre na direção da maturação. Não há transformação emocional e afetiva inversa, regressiva. Por mais que a gente tenha essa palavra “regressão”, amiúde sendo cogitada nas formulações psicanalíticas, é uma grande ilusão. Ninguém regride. A regressão, na verdade, é uma manifestação de um ponto fixado que nunca se desenvolveu, logo, se nunca se desenvolveu, não pode regredir.

ILUSÕES 

A vida emocional, a vida afetiva se desenvolve onde o sujeito não tem um fluxo contínuo do seu acordo com a realidade. Ele se perde nas ilusões impreterivelmente. Não existe vacina para o sujeito não se perder nas ilusões. Ele vai se perder nas ilusões, mas dentro de um desenvolvimento saudável de transformação, ele vai retomar este acordo com a realidade no fluxo do desenvolvimento do seu aparelho emocional e consequentemente, desdobrando-se nas relações afetivas.

O CAMINHO

O que que nós estamos chamando de ilusão? De maneira bem clara, a maneira como desejamos que a realidade seja independente daquilo que realmente está sendo. Isso é ilusão. Quando a gente está aqui cogitando sobre este conceito que é preenchido por uma experiência, dentro da cultura oriental cultura védica, até o budismo deve utilizar deste conceito também, nós temos o Véu de Maya como sendo a ilusão. O sujeito, quando está iludido, ele está envolvido, ou cego pelo Véu de Maya. No cristianismo nós temos uma outra expressão e dentro da filosofia também, que é o Livre Arbítrio. Quando o sujeito está exercendo o seu livre arbítrio ele está iludido. O que é que vai conduzir o sujeito no acordo com a realidade, dentro das formulações orientais? O Dharma. É o caminho de iluminação. E o que é que vai conduzir dentro do cristianismo o sujeito dentro do acordo com a realidade? “Seja feita a vossa vontade”, não a minha.

REALIDADE

Quando nós tratamos aqui de realidade, nós estamos falando daquilo que é fato independente do que a gente gostaria que fosse. Isto é realidade, dentro do que a gente está falando aqui. Esta é uma definição clara do que é realidade. Dentro da religiosidade, das formulações religiosas, também nós temos isso. A Deidade, Deus é isso que a gente chama de realidade dentro dessa nossa filosofia, ou desta formulação psicanalítica. “Ah! Mas eu sou ateu! Eu não acredito em Deus!” No que que o ateu não acredita? Em Deus. Ele não acredita, isso não quer dizer que não exista. “Isso aí que você está chamando de realidade para mim não importa!” Não importa, mas ainda assim, continua existindo. E é muito importante a gente pensar que esta realidade não é tangível cognoscivelmente. Ou seja, não há possibilidade de se conhecer a realidade. O conhecimento não abrange a realidade. Você pode reconhecer a realidade, ou seja, admitir que ela existe, mas não pode conhecê-la.

ACORDO

Se eu não posso conhecer a realidade, se eu não posso abranger a realidade pelo aparato intelectual, ou pelo cognoscivel, por que via eu posso entrar em acordo com a realidade? Através do “estar sendo”. Por que não através do ser? Porque o ser é estático. Porque o ser é cristalizado. Quem é, é alguma coisa pré-estabelecida e dentro da realidade não há nada pré-estabelecido. A realidade é fluxo. Para que você possa estar num acordo com a realidade, isso só vai se dar através do estar sendo. por isso não pode ser conhecida. Porque o conhecimento pressupõe passado. Quem conhece, conhece alguma coisa que registrou no passado. Aquilo que está acontecendo no aqui e agora, no “estar sendo”, não pode ser conhecido.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

SOBRE O CONHECIMENTO E A PRÁTICA CLÍNICA DA PSICANÁLISE - Prof. Renato ...



INTELIGÊNCIA 

O conhecimento é inútil e muitas vezes perigoso nas mãos do imaturo. Então, quando a gente fala de conhecimento, nós não estamos falando de maturidade emocional. O conhecimento não está subordinado à maturidade emocional e a maturidade emocional também não está subordinada ao conhecimento. Ser inteligente não garante a sua maturidade emocional. A maturidade emocional se desenvolve paralelamente a capacidade intelectual. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Por mais que nós tenhamos aí, pensadores que tentam aproximar uma coisa da outra, falando até de “inteligência emocional”, a maturidade emocional, a capacidade emocional, que se desdobra na capacidade afetiva, nada tem a ver com o âmbito intelectual, ou a capacidade de armazenar, acumular conhecimento e articular estes esses conhecimentos. Um sujeito muito inteligente pode ser muito pouco maduro emocionalmente.

IGNORÂNCIA

A maturidade emocional inclui a capacidade de tolerar a sua própria ignorância. Tolerar o não saber, tolerar que não sabe das coisas, logo, passa a estar aberto a aprender. Diferente de um sujeito intelectual, ou inteligente, que já sabe tudo e que não tem muita coisa a aprender. Quando a gente fala de ignorância, nós estamos falando da condição do ser humano. O ser humano tem a condição da ignorância. Por mais que ele é dito um sujeito cognoscente, ainda assim, ele é um grande ignorante da realidade como um todo. Ele pode até saber algumas coisas, mas essas coisas são pedaços e não o todo. O todo está fora da sua capacidade de conhecimento. Quando o sujeito é capaz de reconhecer a sua própria ignorância, ele está pronto a aprender. Quando ele não é capaz de reconhecer a sua ignorância e age como se ele soubesse, ele passa a agir com estupidez. Agir com estupidez é ignorar a própria ignorância.

DESCONFORTO

Para que você possa aprender com a experiência, você precisa reconhecer a sua ignorância e isso é desconfortável. Principalmente, se você não está confiando naquilo que você está sendo e o que comanda a sua vida é aquilo que você deveria ser, então, se aquilo que está regendo a sua vida é aquilo que você deveria ser, você não consegue aprender com a experiência. Porque existe sempre um pressuposto daquilo que você deveria ser e aquilo que você deveria ser é alguma coisa muito nobre, muito bonita, muito cheia de perfeições e aí não tem como aprender com a experiência. Porque, na experiência será revelada a sua limitação a sua ignorância logo a possibilidade de aprender.

CONFORMADO 

Aquele sujeito que até reconhece a sua ignorância, mas está conformado com isso. E esta conformação vai levá-lo a caminhos perigosos. Por exemplo, passar a estar subordinado a outras pessoas, subordinado a instituições. Religiosas, políticas, governamentais... Então, ele conforma com a sua ignorância e passa a ser um dependente do outro. Onde o outro vai dizer para ele para onde ele tem que ir. Tão nocivo quanto o sujeito que é ignorante da sua própria ignorância, logo acredita que sabe, é aquele que é consciente da sua ignorância, mas está conformado com isso.

DEFESA

A tentativa de conhecer é o primeiro recurso que o sujeito lança a mão quando ele não consegue amar. Quando ele não é capaz de reconhecer, de respeitar e se responsabilizar, ele tenta entender. O respeito não está subordinado ao entendimento. Se você tiver que entender primeiro para depois respeitar, você já faltou com o respeito. Conhecer é uma defesa. Quando eu sou capaz de acolher meu paciente, eu não preciso ficar tentando entender. Eu simplesmente propicio um ambiente para que ele possa trazer tudo aquilo que está doendo independente que eu entenda aquilo ali.

INSEGURANÇA

O conhecimento é um desdobramento de uma experiência. A epistemofilia vai acontecer, ou seja, o sujeito vai, de maneira inata ter esse ímpeto, esse impulso de vir a conhecer. É um impulso de exploração, de conhecimento e a gente já conversou sobre isso. O Freud vai falar que está dentro da perspectiva da sexualidade, depois a Melanie Klein vai falar que essa epistemofílico está ligada a explorar o corpo na mãe. A tendencia a buscar conhecer é inata, mas é inata como uma possibilidade de se defender.  A epistemofilia vai ser provocada pela insegurança. Eu me sinto inseguro, então, eu busco saber por que estou me sentindo inseguro. Enquanto eu estiver seguro, eu não busco saber. Enquanto eu estiver acreditando em mim mesmo, eu não vou buscar conhecer. Não me interessa conhecer. O conhecimento advém da insegurança.

DISPUTA 

Hoje, com o advento das redes sociais, a gente tem essa chance de observar e muitas vezes até se ver envolvido em debates infecundos, que não vão dar em nada, onde um quer saber mais que o outro. E aí, cada um vai angariar argumentos e provas para contestar a ideia do outro. Tudo em nome de ser o campeão na disputa de quem tem a razão.

INFORMAÇÕES INÚTEIS

ENEM, ENADE, todos esses testes, todas essas provas que são aplicadas nos jovens, são falácias, inúteis. Ele não aprendeu aquilo, ele decorou aquilo e decorar um conteúdo frio e sem qualquer afeto é nocivo para o funcionamento emocional. Intoxica a mente. Ele vai decorar fórmulas químicas, ele vai decorar equações matemáticas, ele vai decorar inúmeras informações que vão ser inúteis para o resto da vida dele. Ele nunca mais vai usar esse monte de porcaria e ao mesmo tempo ele não vai ser capaz de trocar um botijão de gás quando for necessário. Ele não consegue desenvolver as coisas que vão ser úteis para ele e ao mesmo tempo ele está entulhado de informações inúteis.

APRENDENDO

Um paciente o procura, ele como analista, e diz assim: “Olha, eu preciso de atendimento porque eu estou com problema alimentar, estou compulsivo na minha alimentação, estou comendo demais”. Então, ele adianta isso aí, ali na mensagem. Ele marca o horário com o analista e a partir dali o analista começa a ler livros e artigos a respeito de compulsão alimentar. Não! Você não vai receber uma compulsão alimentar, você vai receber um ser humano que sofre. Você vai receber um ser humano que está desnutrido afetivamente e por conta disso não está funcionando emocionalmente adequadamente. Ele não está nesses artigos que você está procurando. Ele não está em nenhum livro que você vai ler. Você precisa aprender com ele o que é que está acometendo esse sujeito.

ACOLHER

Esse tipo de atitude é muito mais difícil. Não é para qualquer um. É muito mais fácil você se afundar na leitura e se tornar especialista em compulsão alimentar e colocar uma placa na frente do seu consultório: “especialista em compulsão alimentar”. Você sabe tudo sobre isso. Você é doutor em compulsão alimentar. Você é mestre em compulsão alimentar. Só que, quem vai te procurar não é uma compulsão alimentar é um ser humano, é uma pessoa que está em dor e que a compulsão alimentar é apenas uma característica desta dor. E diga-se de passagem, a característica mais superficial desta dor. E indo para além, a dor que está gerando a compulsão alimentar, você não pode conhecer e nem o seu paciente. Você pode acolher. Você pode, junto com o seu paciente, desenvolver recursos para tolerar esta dor. Para conviver com esta dor. Para lidar com esta dor e através disso, pode ser até que essa dor possa ir se amenizando, mas isso também não é promessa.

INTEGRAÇÃO

Um paciente me trazendo a seguinte queixa: “eu estou fumando demais e eu tenho me preocupado com isso”. E eu digo para ele: “vamos continuar o nosso processo de integração”. “Esta integração vai trazer para você um desinteresse em relação ao ato de fumar”. É a integração que traz a possibilidade de se desinteressar daquilo que não é fundamental, não é o contrário. Não é abandonar ou se afastar daquilo que não é fundamental, ou aquilo que é tóxico que vai trazer a integração. O processo de psicoterapia traz a reparação emocional para que haja a integração da personalidade e nesta integração da personalidade o sujeito vai se afastando da aquilo que é nocivo para ele, ou daquilo que não é fundamental para que ele viva.

CONHECIMENTO NA CLÍNICA

O conhecimento não entra na clínica. O conhecimento precisa estar fora da clínica. O conhecimento precisa estar no grupo de estudo. Na clínica é o acolhimento. Na clínica é abrir mão do conhecimento. É ser capaz de rebaixar ao máximo tudo aquilo que você sabe. Se o conhecimento estiver entrando na clínica ele precisa ser somente alegórico. O que é alegórico? Eu vou até explicar para o paciente: “Olha, seria interessante que você reconhecesse, aprendesse a respeitar e se responsabilizasse”. Isso é teórico. Isso é um conhecimento, mas eu não estou pretendendo que, com esta minha fala alguma coisa seja mobilizada no paciente, mas a minha atitude de dar atenção ao meu paciente e mobilizar alguma argumentação para estar junto dele, que mobiliza a desobstrução para a transformação. Eu poderia ter recitado um Fernando Pessoa, eu poderia ter cantado o Renato Russo, eu poderia ter falado sobre a teoria do Heisenberg, dentro da física quântica... Não é isto! Mas é o ato de estar disposto a prestar atenção junto com o paciente. Este foi o grande avanço que o Freud trouxe. O Freud se dispôs a ouvir as histéricas que os médicos estavam chamando de frescura. Ele se dispôs a estar com estas mulheres. Ele se dispôs a ouvir aquele que a classe médica estava menosprezando, porque não encontrava indício fisiológico da origem daquilo que o paciente estava sofrendo.

I.A.

A inteligência artificial está chegando para fazer uma revolução muito importante na humanidade. Para revelar realmente o que é importante. O que é verdadeiramente importante. O que é verdadeiramente impossível ser feito por máquina. Todas as outras coisas vão poder ser feitas pela Inteligência Artificial, menos o essencial e a psicanálise é uma dessas coisas. Quando a gente fala de psicanálise, nós não estamos falando aqui do analista dizer pro paciente alguma coisa que possa intervir na transformação, ou possa promover uma transformação, nós estamos falando aqui de um vínculo que se estabelece e pode trazer a possibilidade de experiências emocionais e afetivas reparadoras. Não existe a possibilidade de viver experiências emocionais reparadoras com uma máquina. Não há como aprender a amar com uma máquina. Não há como aprender a amar a si mesmo com uma máquina.

O FALO DO SABER

Grande parte dos sujeitos que se interessam pela psicanálise, se interessam porque parece que o psicanalista é aquele cara que sabe muito, que é muito inteligente. Nossa como você é inteligente! Vi um vídeo seu na internet, como você é inteligente! E aí, o sujeito fica “faludo”, né? Não meu amiguinho! Não é isso! Mas grande parte dos sujeitos que se interessam pela psicanálise, se interessam porque aquilo traz um falo poderoso para se exibir, para falar nos podcasts. Coitado do paciente dessas pessoas.

PSICANÁLISE REAL

Por mais que o Freud tenha analisado obras de autores, inclusive já falecidos como Leonardo da Vinci, como o caso do Schreber, como a Gradiva de Jensen. Ele estudou obras e analisou as obras. Isso é uma grande dedução. Porque a psicanálise real é aquela que acontece onde duas pessoas estão de acordo com o processo. Onde o analista e o paciente estão de acordo com aquilo que vai acontecer. Uma análise real é aquela que acontece com um paciente que está disponível a esta análise. Disponível e presente. Então, esta coisa que a gente vê por aí, de ficar analisando pessoas ausentes, ou que estão ali, dentro de notícias bombásticas, no quadro político, religioso, sei lá qual quadro. Muitas vezes, o sujeito diagnosticando pessoas, personagens aí, de notícia, isso não é psicanálise. A psicanálise não pode se prestar a isso. Isso aí está no nível intelectual e a psicanálise não está dentro deste nível. A psicanálise se presta a um processo emocional. Primeiro precisa ser estabelecido um vínculo para, depois disso, começar a algum tipo de análise. Antes disso é impossível. Sem um vínculo saudável, tudo que sai dali é duvidoso. O próprio Freud, depois, veio falar da transferência. Sem que tenha havido uma transferência entre paciente e analista, tudo é duvidoso. A análise só pode acontecer dentro da transferência e quando ele fala isso daí, ele está dando o primeiro passo para dizer para gente que é só a partir do vínculo estabelecido. Depois o Bion vai falar que o primeiro elemento de psicanálise é a conjunção constante do continente e contido. Então, se não houver esta conjunção constante entre algo que esteja disponível a ser acolhido e algo que esteja pronto a acolher nada pode acontecer de verdadeiro.

ESPECIALISTA 

Quando a gente fala de psicanálise, pelo menos dentro desse modelo aqui, a gente precisa tomar muito cuidado com esta coisa de especialista em uma coisa ou especialista em outra coisa. Psicanalista é aquele que recebe o que vier, independente da especialidade. O psicanalista real acolhe uma pessoa, não uma patologia. Ele acolhe um ser humano e não o que está cometendo esse ser humano. A especialidade vem através de um estudo teórico e o analista não vai se basear em estudos teóricos. Ele vai se basear, ele vai se sustentar, ele vai se apoiar no seu preparo emocional e afetivo. Nós estamos tratando de maturidade emocional. Nós não estamos falando de especialidade teórica, porque quando você se especializa em alguma coisa, das duas uma: ou você vai obrigar o seu paciente a estar dentro da sua especialidade, ou você vai simplesmente dizer: “isso aí eu não atendo”.

QUEIXA INICIAL

A experiência mostra que muitas vezes, a queixa inicial do paciente é trazida somente na primeira sessão. Porque, na verdade, aquilo ali era apenas a casca de alguma coisa muito mais profunda. Quando o analista está sendo acolhedor, ele recebe o paciente, o paciente começa a perceber e começa a ter coragem de mexer nisso tudo. E aí, se você é especialista em alguma coisa, você tende a ficar naquela coisa que o paciente trouxe, insistindo naquilo.

DISPONIBILIDADE

Agora, vou dizer para vocês qual é a minha especialidade. Eu sou especialista. Eu sou especialista em tratar pacientes que estejam disponíveis para a análise, que estejam abertos a isso, que estejam predispostos ao processo psicoterapêutico. Eu sou especialista nisso. Aí, ele pode vir com o rótulo de autista, de caolho, seborreia no couro cabeludo, hemorroida... Tudo bem! Não tem problema. Eu recebo essa pessoa com todo o carinho, se esta pessoa estiver predisposta ao processo psicoterapêutico. Essa é a minha especialidade. Agora, se o sujeito não estiver predisposto, eu não tenho muito o que fazer. Se ele veio porque a irmã dele disse que ele tem que vir, eu não tenho o que fazer. Você atende online, ou você atende presencial? Sim! Qual é o valor da sessão? É tanto. Ah! Mas não é para mim não, é pro meu marido. Então, ele tem que entrar em contato comigo. Ah! É para o meu filho. Quantos anos ele tem? 25 anos. Pois é, é ele que tem que me procurar.

QUERER

A gente usa essa ideia de “eu não quero”, “eu não vou numa reunião social porque eu não quero” e tudo bem eu não querer. A questão não é que eu não quero, é que eu não dou conta, é que passa do meu limite, agride a minha intimidade. Então, eu não vou! Se eu falo: “eu não quero”, fica parecendo que eu poderia querer. Que é por conta de alguma coisa e eu decidi não ir, eu escolhi não ir. Não! Não escolhi! Esse tipo de reunião não me faz sentido, porque atenta contra a minha intimidade emocional. Então, eu não vou e tudo bem, você pode ir.

QUERER NÃO É PODER

Não adianta só o paciente querer fazer psicoterapia, ele precisa estar preparado, ele precisa estar predisposto, ele precisa estar no tempo de se dedicar à psicoterapia. Muitas vezes ele até deseja, muitas vezes ele até quer, mas não é o suficiente. A psicanálise nos ensina que querer não é poder. O querer está aquém da possibilidade real das coisas acontecerem. Precisa haver um ponto de desenvolvimento para que a psicoterapia possa trazer algum benefício para esse sujeito, alguma expansão.

DESEJA PELO OUTRO

Você vê a sua agenda cheia de pessoas que não veem sentido em fazer terapia. E aí, o que é que acontece? Você começa a tentar convencer o outro. Aí você deseja fazer terapia pelo outro. E aí você não sabe por que no final do dia você está exausto. Porque você passou o dia inteiro tentando convencer o outro que ele tem que isso, que ele tem que aquilo, que não sei o que mais... Isso não é função do psicoterapeuta, não é função do psicanalista.

CONVENCER 

Não é função do psicanalista convencer ninguém de nada. O convencimento não é função da psicanálise. E vou mais longe, se o paciente começa a questionar muito: Ah! eu não sei muito bem o que dizer... Aí eu já pergunto para ele: será que ainda está fazendo sentido vir aqui, porque você não tem que vir aqui. Ah! mas meu irmão falou que que eu tenho... Pois é, então, se teu irmão falou que você tem que vir, muito provavelmente, é ele que está precisando mais de terapia do que você. Porque você está se virando com os mecanismos de defesa aí, com a tua forma de viver. Ele não! Ele está se queixando.

O MEDO É FILHO DO DESEJO

Quando o sujeito está atendendo pessoas que não estão disponíveis a serem atendidas, ele passa a desejar pelo paciente. “Ah! Mas eu tenho que pagar meu aluguel!” “Ah! Mas eu tenho que pagar minhas contas e se o paciente parar eu não vou ter dinheiro para fazer isso.” Então, você ainda não está pronto para ter uma clínica de psicanálise. Eu tenho medo que o paciente pare e aí eu começo a insistir que o paciente precisa continuar e eu começo a desejar pelo paciente. O medo é filho do desejo.

REPETIR

O paciente que precisa ser lembrado da sessão um dia antes, ou no dia da sessão é porque, na realidade, ele ainda está naquele modelo da mãe falar: “Fulano, vai tomar banho!” “Fulano, vai jantar!” “Fulano, já escovou os dentes?” E aí, você entra na vida dele e repete esse modelo.

COMPULSÃO ALIMENTAR

Quando a gente fala de compulsão alimentar a gente está falando de uma carência. Eu não posso propor para o meu paciente que ele pare de comer. Eu não posso propor para o meu paciente tarefas para que ele possa se defender daquilo que já é uma defesa. Então, nós precisamos tratar alguma coisa que está mais profundo, que está gerando esta compulsão alimentar. Podem ser inúmeros fatores. Desde o mais superficial que é a exigência dos pais, ou exigência social, que na realidade tem a ver muito mais com a autoexigência, até uma tentativa de substituir o amor que ele não conseguiu pelo prazer de comer. Então, não adianta desviar do restaurante.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

ABUSO EMOCIONAL E RECONHECIMENTO DA REALIDADE - Prof. Renato Dias Martino


Dificuldade de reconhecer a realidade, a gente poderia levantar dois grandes motivos. É claro que a gente está abrindo aqui apenas dois, a gente pode ter outros motivos. Mas vamos lá! O primeiro: ter um benefício direto que a ilusão possa estar trazendo para ele que viver na fantasia, ainda possa estar beneficiando e depois a gente pode ver alguns exemplos disso, ou a dificuldade de admitir a realidade. Um é um benefício direto. Eu ganho alguma coisa não reconhecendo a realidade. Eu ganho alguma coisa estando iludido e o outro é: eu não consigo, eu não dou conta desta realidade.

ABUSO

Eu estou convivendo com uma pessoa dentro de uma relação tóxica. Uma pessoa que está abusando de mim. E quando eu falo abusando aqui, eu não estou falando diretamente de algo manifesto, por exemplo um abuso sexual, um abuso físico e muito menos um abuso moral. Eu estou falando de um abuso emocional, de um abuso afetivo, que acontece sem que o sujeito possa perceber. Ele vai perceber o desdobramento disso. Ele vai perceber o prejuízo, mas ele não percebe o abuso. Então, ele não consegue fazer a associação deste prejuízo, deste dano que está sendo causado com o abuso que é gerador disso. Porque este abuso é sutil. Ele é tratado com desrespeito, mas um desrespeito sutil. Ele é tratado com um descaso, mas com um descaso extremamente silencioso e sutil que nem ele consegue perceber e muitas vezes nem o outro que está abusando. Mas quando ele começa a descrever a relação dele com o outro para o analista, o analista começa a perceber isso e vai, sutilmente também, questionando. “Como é que é essa coisa?” “Essa pessoa te trata assim e tudo bem para você?” Mas aí, o que que acontece? Esta pessoa que está ora abusando dele também traz um benefício em outras esferas. Um benefício que pode ser desde a coisa mais material, que seria um suprimento financeiro, um suprimento de um conforto, até a atitude de dominância que traz para o sujeito uma sensação de segurança de estar do lado de alguém que é tão poderoso. Poderoso emocionalmente. Então, existe um benefício ali. Reconhecer essa realidade é inviável, porque ele perderia todo o benefício que ele está tendo. Assim, dentro do profissional, isso acontece com frequência. Um superior que trata um funcionário com um abuso emocional. Eu não estou falando nem um assédio moral, um abuso manifesto, mas um tipo de relacionamento, um molde, um modelo de relacionamento que muitas vezes seria melhor que ele abusasse moralmente, manifesto que aí o outro seria é capaz de se defender percebendo isso e percebendo o prejuízo dele. Mas, aí a gente precisa respeitar o tempo. Porque isso tende a se expandir e em algum momento vai se revelar. A relação analista e paciente vai trazer para este paciente um modelo de vínculo saudável com respeito com amor com carinho, que vai em algum momento vai acabar sendo um referencial comparativo para aquele relacionamento abusivo que ele está vivendo. Por estar ali naquele relacionamento saudável, ele começa a questionar os outros relacionamentos que não estejam sendo saudáveis. A bajulação é um abuso emocional é um abuso afetivo. Bajular o outro é uma forma de abusar do outro. Enganar o outro. Quem bajula, quem fica elogiando o tempo todo é porque, na realidade está tentando tirar um proveito daquilo. A crítica é o polo oposto. Uma crítica velada tem o intuito de: “estou te criticando construtivamente”. Tudo que o sujeito faz tem ali, um olhar crítico e muitas vezes com um embasamento inteligente para justificar esta crítica. Mas que na realidade, é um abuso emocional.


domingo, 1 de dezembro de 2024

NEUROSE, PSICOSE E INCLUSÃO - Prof. Renato Dias Martino



COTAS

Talvez a maior contribuição do Freud para a psicoterapêutica, ou pelo menos dentro da configuração teórica, que vai se desdobrar na prática é que todos nós, em alguma medida somos neuróticos. Por mais que a gente possa estar ali, numa manifestação saudável, ainda assim, nós temos cotas consideráveis de um funcionamento neurótico. E o Bion vai para além. Ele vai dizer assim: “Todos nós somos psicóticos em alguma medida”. Temos partes psicóticas da mente. Então, seria mais adequado a gente falar: “O sujeito que tem a sua parte psicótica proeminente, dominante”. O sujeito que tem sua parte neurótica dominante, ou o sujeito que tem sua parte saudável dominante, ou preponderante. Então, em primeiro momento, seria importante que a gente pudesse ter essa noção de cotas, noção de proporção.

REALIDADE 

Quando a gente está falando de uma configuração neurótica, a gente está falando de uma de um funcionamento onde o sujeito reprime uma parte fantasiosa, reprime uma parte que não está em consonância com a realidade, que não está em concordância com a realidade, para que ele possa viver um relacionamento com a realidade, com as outras pessoas. Então, ele reprime uma parte para conviver com as pessoas. Então, a maior parte dele está convivendo com as pessoas e para que ele possa conviver com as pessoas de uma maneira harmônica ele precisa reprimir uma parte que é absurda, por assim dizer, que é baseada em ilusões, em alucinações, fantasias. O Psicótico é o contrário. O Psicótico tem uma pequena parte que se relaciona com o mundo externo, porque a maior parte dele está cindida do mundo externo e da realidade. Está baseada em ilusões e alucinações. Então, o sujeito que tem a predominância, ou a preponderância do funcionamento psicótico da mente dele, tem a maior parte deste funcionamento cindido da realidade, desconectado da realidade. Ele guarda, na melhor das hipóteses, uma pequena parte que ainda faz com que ele consiga, minimamente se comunicar com o mundo externo.

NEURÓTICO E PSICÓTICO

A maior parte do neurótico está conectada com o mundo externo, com as pessoas, mas existe uma parte que está ali, reprimida e essa parte é estruturada com ilusões, com alucinações. O funcionamento psicótico, ele não tem a ver com o aparato neurológico. O sujeito pode ter um aparato neurológico, pode ter um aparelho neurológico intacto. Ele faz exames neurológicos, não aparece nada, mas ainda assim, ele funciona psiquicamente de forma psicótica.

VÍNCULO 

Quando a gente vai refinando os psicodiagnósticos, a gente vai, automaticamente, concomitantemente, afastando os vínculos. Quanto mais eu vou criando nomes e refinados para diagnosticar o sujeito, mais eu vou me afastando afetivamente deste sujeito. Quanto maior a minha capacidade de acolher o sujeito, quanto maior for a minha capacidade de criar um vínculo saudável com o sujeito, menor é a necessidade de ficar investigando para saber o que é que ele tem. Pouco importa o que ele tem. Se é autismo, se é unha encravada, ou se é caspa. Pouco importa! A minha função é criar um vínculo saudável com esta pessoa que me procurou e até onde é possível isso. Até onde eu estou preparado para isso e até onde esta pessoa está disponível a isso.

A CAMA DE PROCUSTO

A cama de Procusto é um conto grego. Uma pousada de um sujeito chamado Procusto. Então, o sujeito chegava na pensão do Procusto, o Procusto colocava ele numa cama e se a cama fosse menor que o sujeito, ele cortava o pé do sujeito, que sobrava do sujeito ele cortava e se a cama fosse maior que o sujeito, ele esticava o sujeito até o sujeito ficar do tamanho da cama. Então, hoje, dentro do âmbito emocional-afetivo, nós vivemos este Mito de Procusto. A maioria das psicoterapeuticas se dedica a encaixar o sujeito num estereótipo designado pela sociedade. Para que ele possa ter um bom convívio na sociedade ele precisa se adequar a isso que é expectativa social. Então, nós vamos ali, através de terapêuticas de doutrinação, readequação comportamental, isso associado à administração medicamentosa, até que ele consiga atingir uma formatação social aceitável.

INCLUSÃO

Hoje, a gente fala muito de inclusão. O que eles chamam de inclusão hoje? A inclusão hoje precisa anteriormente passar por uma exclusão. Então, primeiro você precisa ser diagnosticado. Apartado do dito sujeito normal. Depois de rotulado, hoje é o termo laudado, aí você é reinserido na escola, no trabalho, ou na sociedade, com este laudo, com este rótulo e a partir daí você pode ser incluído. Mas primeiro você precisou ser submetido por uma diferenciação. Na realidade você não foi incluído, você vai passar para o resto da vida carregando um rótulo, um laudo que foi colocado em você e que, muitas vezes você vai encontrar um benefício em ter aquilo e vai ser muito difícil você conseguir superar aquilo ali.

DOR PSÍQUICA 

O medicamento psiquiátrico obstrui a possibilidade do acordo com a realidade. “Ah! Mas esse o sujeito está muito agitado, ou ele está muito deprimido!” Pois é, ele vai precisar viver experiências para aprender a conviver com aquilo. Aprender a lidar com aquilo que está acometendo a mente dele, ou o aparelho emocional dele. Enquanto administrando substâncias químicas psiquiátricas, isso vai ficar obstruído e eu vou deixar claro isso. Agora, eu não posso dizer para ele para de tomar isso. Eu não tenho essa função. Se para ele, ainda está fazendo sentido, ótimo. E vamos cuidar deste paciente até quando fizer sentido para ele vir. É claro que o sujeito, quando ele está num processo psicoterapêutico e por algum motivo ele é acometido ali, de uma ansiedade aguda, de uma angústia aguda, muitas vezes ele pode procurar um psiquiatra. O psiquiatra vai prescrever para ele medicamentos e quando ele passa a tomar esse medicamento, ele, muito provavelmente, vai começar a se desinteressar pela psicoterapia. Por quê? Porque a psicoterapia funciona através da dor psíquica. Não existe psicoterapia se não houver dor psíquica. E se o sujeito está se medicando e a dor psíquica dele está rebaixando, a psicoterapia passa a não ser tão interessante assim.

OS 3 Rs

Eu sou até meio repetitivo nisso. Dei até um curso sobre isso, mas isso é fundamental, que são os três Rs, que é ser capaz junto com o paciente, reconhecer a sua limitação. Admitir a sua limitação e reconhecer não é conhecer é admitir que existe, independente de saber o que é. O segundo passo é o segundo R, que é aprender a respeitar esta limitação que se admitiu que existe. Respeitar independente de saber o que é. E o terceiro e mais difícil dos três Rs, a responsabilização por isso que se reconheceu, admitiu-se que existe, aprendeu a respeitar e agora precisamos nos responsabilizar por isso. Esta responsabilização inclui uma nova configuração emocional e afetiva, ambiental. Eu não posso mais me manter em ambientes emocionais, em psicosfera que também não sejam capazes de respeitar a minha limitação.