sexta-feira, 3 de julho de 2015

Do Reencontro

O que de mim fica em você enquanto eu não estou presente?

O ato de encontrar-se novamente é o tema desse pequeno ensaio. Uso aqui o termo reencontro como sendo a situação onde houve uma aproximação que é sucedida por um afastamento e essa experiência então, possibilita o reencontro. Entretanto o reencontro tratado aqui não é o fim do processo, já que outros distanciamentos ocorrerão. Quando partimos desse pressuposto de que existe um processo acontecendo, em que o reencontro não é desfecho, mas é elemento de um processo que não interrompe de acontecer, é então possível reconhecer que na realidade, a ocorrência desse ciclo é sinal de que o vínculo esta se desenvolvendo.

Os sites de relacionamento e redes sociais virtuais como o Facebook, trouxeram grande chance para o reencontro de pessoas que há tempos não se viam. Muitos deles importantes, já que os vínculos podem manter-se independentes do tempo e da distância.
É justamente através do vínculo que nos mantemos ligados ao mundo externo ou à realidade que existe independente de nossa vontade. É também através dos vínculos que nutrimos nossa autoestima, mas, além disso, é por onde podemos nos intoxicar emocionalmente. É o que permite estarmos ligados à aquilo que está fisicamente ausente. Isso só é possível por conta da recordação. Experiências bem sucedidas com essa realidade que ora está sensorialmente ausente, mas que deixara uma boa impressão emocional. Essa questão da perpetuação do vínculo depende particularmente e diretamente da capacidade de simbolizar. Quando nos é possível introjetar a imagem do outro de maneira verdadeira e afetiva, o vínculo é preservado e a recordação é um sinal de que isso valeu.

Em grego a palavra "symbolon" é derivada do verbo "symbalo" que significa reunir, ou mais precisamente lançar junto, a possibilidade de concórdia. O contrário é a "diabolé" que constitui divisão e promove a discórdia. O conceito de símbolo tem uma concepção clássica na Odisseia de Homero, poeta épico da Grécia antiga. A Odisseia relata o retorno de Ulisses, herói da guerra de Troia. Depois de vinte anos ele volta para sua esposa Penélope:

"O símbolo era um objeto primitivamente uno, que duas ou mais pessoas repartem entre si no momento em que vão separar-se por um longo tempo. Elas conservam seu fragmento, em sinal dos vínculos que as ligavam. Quando mais tarde se reencontram, cada qual se serve de seu fragmento para fazer-se reconhecer. Nesse reconhecimento, elas se identificam por um nome novo, como sinal da história que viveram em separado, mas também do novo lugar e da nova função que vão ser os seus no todo igualmente renovado".

Sigmund Freud
(1856- 1939) 
Nos primeiros estudos de Sigmund Freud (1856- 1939) sobre observação de bebês, ele percebeu a ansiedade da criança na ausência da mãe. Notou as brincadeiras de sumir e aparecer como um ensaio para ausências cada vez mais longas que o bebê terá de suportar.

“Certo dia, fiz uma observação que confirmou meu ponto de vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo, e brincar com o carretel como se fosse um carro. O que ele fazia era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo em que o menino proferia seu expressivo ‘o-o-ó’. Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre ‘da‘ (‘ali’). Essa, então, era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno”. (Freud em ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER, 1920)

Isso quer dizer que quanto maior for a preparação para esse momento de separação, mais viva estará a imagem simbolizada da mãe no mundo interno do bebê; consequentemente e posteriormente esse modelo de experiência se aplicará com amigos e outras pessoas amadas.

Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979)
Bion (1897-1979), (1962/91) descreve a capacidade de rêverie como sendo “um estado mental aberto à recepção de quaisquer objectos do objecto amado, capaz de receber as identificações projectivas do bebé, sejam elas sentidas como boas ou más” (p. 36). Este estado se inicia no sonho e nas brincadeiras das menininhas que um dia serão mães.
Com a rêverie a mãe realiza um processo mental comparável ao procedimento digestivo no nível fisiológico/orgânico.  A mãe se encontra na função de sonhar o sonho do bebê. No significado da palavra rêve = sonho. Através do processo de rêverie o bebé adquire uma sensação de continuidade existencial que servirá ao seu próprio processo de pensar. O conceito de rêverie proposto por Bion encontra-se relacionado com a imaginação, os devaneios, num estado particular de consciência receptiva. Receptiva à transformação que ocorre no bebê. A mãe reencontra o bebê e em cada reencontro ele cresceu um pouquinho. Com a capacidade de rêverie que ficou não foi somente o ‘saber’ armazenado na memória, mas o ‘ser’ que brota na recordação. A necessidade do reencontro é inerente ao desenvolvimento e o funcionamento saudável da mente.
        
Homero
A necessidade natural do reencontro tem no nível dos sonhos uma chance de elaboração. É possível o reencontrar aquilo que desejávamos, mas que por algum motivo é impossível reencontrar na realidade, assim o fazemos através dos sonhos. Reencontramos nossos afetos no sonho, entretanto de forma mais sincera e nem sempre muito compreensível. O que define o conteúdo dos sonhos é justamente a necessidade do reencontro. Um reencontro consigo mesmo, mas que sob a influência onírica configura-se num funcionamento de características infantis. Desprovido das mentiras e dissimulações que os adultos aprenderam e aperfeiçoam para conviver bem em sociedade.
“O que um dia dominou a vida de vigília, quando a psique era ainda jovem e incompetente, parece agora ter sido banido para a noite – tal como as armas primitivas abandonadas pelos homens adultos, os arcos e flechas, ressurgem no quarto de brinquedos. O sonho é um ressurgimento da vida anímica infantil já suplantada. Esses métodos de funcionamento do aparelho psíquico, que são normalmente suprimidos nas horas de vigília, voltam a tornar-se atuais na psicose e então revelam sua incapacidade de satisfazer nossas necessidades em relação ao mundo exterior.”  (Freud, em A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS, 1900).

Antoine de Saint-Exupéry
( 1900 - 1944)
Essa inocência é o que povoa o mundo dos sonhos num reencontro com a criança em cada um de nós. Muitas vezes me questionei se não foi disso que Antoine de Saint-Exupéry (1900 - 1944)  tratava em seu magnífico “Pequeno Príncipe”.

A recordação funciona como um reencontro onde a experiência é oferecida mais uma vez ao coração. Mas no reencontro parte dos elementos se mantêm invariantes como algo que permanece para promover a identificação no reconhecimento, entretanto uma outra parte dos componentes compartilhados se transforma. O reencontro dos discípulos com Jesus Cristo no terceiro dia, a Páscoa. Assim como nos lembra S. Lucas: “Assim está escrito que o Messias havia de morrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia” (Lc 24,46).

São Lucas
O reencontro pode ainda estar configurado sob emoções negativas e impossibilidade de simbolização.  Isso se dá por conta de experiências mal sucedidas onde o afastamento foi povoado de raiva (ódio) e incapacidade de afeto na tolerância quanto ao afastamento. O reencontro então possibilita reviver tanto momentos saudáveis de desenvolvimento, quanto as faltas e falhas, que talvez não tenham tido chances de serem melhor elaboradas. Assim surgem defesas ou o que chamamos em psicanálise de resistência. O reencontro com pessoas não tão queridas, ou com aquelas que não podem contribuir com afeto, sinceridade, e que muitas vezes contaminam e intoxicam, também propõe um novo olhar para um relacionamento que clama por nova chance de serem repensados, certificando a necessidade da distância.

Uma oportunidade de elaborar a imagem do outro que fica no eu. É uma chance então de se revelar o verdadeiro amigo: aquele que tivera chance de ser conhecido e reconhecido como uma imagem boa. A capacidade de se manter relacionado com alguém onde a combinação de afeto e sinceridade é o que permeia a comunicação e define a saúde da experiência. O momento internalizado ou do simbolizar faz com que possamos passar anos longe de alguém sem que esta imagem seja destruída em nós. Insisto no símbolo que permite conservar algo no coração mesmo na impossibilidade de confirmação com os órgãos dos sentidos. A confiança, mesmo depois de muito tempo, pode se manter.

“A con-fiança que significa fiança compartilhada, mantida pelas partes, nutrida pela fé e assim geradora da fidelidade. O fio que permite, depois do conhecer, ausentar-se para que assim no regresso seja possível o re¬conhecer.” (Martino, 2014)

Penélope
Na “Odisséia de Homero”, o mito de Ulisses viaja por vinte anos e sua esposa Penélope passa a fiar, e a permanência deste fio (vínculo) é o que permitiu a espera e trouxe seu amado de volta. Durante os vinte anos, tanto um como outro estiveram expostos a vários ataques que ameaçavam este vínculo. A experiência que reúne amor e verdade, é onde se sedimenta um relacionamento de confiança, e isso é alcançado sempre com a boa convivência à demanda de anos.




Bion, W. R. Aprender com a Experiência. Imago, Rio de Ja¬neiro, 1991 (1962).
Freud. S. ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER, Imago - 1920.
Freud. S. INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS, 1900.
HOMERO - Odisséia, Tradução, Carlos Alberto Nunes. 2. ed. São Paulo: Ediouro, 2009.
Martino, R. D. O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva / 1. ed. - São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.






Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodmartino@ig.com.br

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

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