sexta-feira, 31 de maio de 2024

OS JOGOS ELETRÔNICOS NUM OLHAR PSICANALÍTICO


 No final da fase anal, dentro do seu desenvolvimento, a criança inicia uma nova etapa da vida emocional da qual Sigmund Freud chamou de fase fálica, em que as brincadeiras que até então pareciam não ter um objetivo muito claro e brotavam sem regras particulares, passa a dar lugar aos jogos. Esse novo padrão de atividade vem com uma meta específica a se cumprir, um desafio particular a se enfrentar. A criança passa a se interessar por essa modalidade de atividades que pode ser individual, em dupla, ou ainda, num formato coletivo. O jogo é como que uma brincadeira com normas particulares e que inclui um objetivo claro. O ímpeto natural da disputa e da competitividade, próprio dessa etapa do desenvolvimento, encontra nos jogos uma maneira de sublimação, ou mesmo de elaboração. Nessa etapa do desenvolvimento, dentro da perspectiva edípica, surge um ímpeto de competir com o pai, a posse da mãe. Numa configuração saudável, isso ocorre tanto no menino, quanto na menina. No entanto, a menina irá viver mais um desdobramento quando reafirmar a identificação com a mãe e passar a disputar com ela a posse do pai.


Videogames


Na década de 1950, criou-se os videogames acoplados aos aparelhos de televisão, que hoje são difundidos em grande escala nos computadores, no modelo portátil, ou ainda, em aparelhos celulares. Hoje, o público dos jogos eletrônicos não se restringe às crianças, mas se amplia em adolescentes, adultos e muitas vezes idosos. Com temáticas que vão, desde divertidos desenhos animados, até formas realísticas propiciadas pela avançada tecnologia atual. Simulando campeonatos de futebol, corridas automobilísticas, até violentos embates. Essa modalidade violenta de jogos eletrônicos, atualmente tem gerado amiúde, polemicas quanto a hipótese de estimular, ou ainda, provocar comportamentos violentos naquele que tem o hábito de jogar. Contudo, na realidade o que ocorre é justamente o inverso. O videogame é um recurso lúdico para que isso possa não vir acontecer na vida real. Além disso, traz inúmeras possibilidades de aprendizado no nível cognitivo, já que desafia o jogador a refinar sua capacidade de atenção e concentração. 


Animal Violento


O ser humano é naturalmente um animal violento e carece de muito cuidado, atenção e nutrição afetiva para que aprenda a conter sua brutalidade que é inata, dissolver sua natureza violenta, para que possa vir a aprender a amar. Não é necessário ser um psicanalista, ou um estudioso do funcionamento mental para se reconhecer as frequentes atrocidades provocadas pela crueldade humana ao longo da história da humanidade, mesmo antes que houvesse jogos eletrônicos violentos. Os jogos eletrônicos podem ser um recurso muito interessante na função de sublimação e na possibilidade de elaboração da agressividade e com isso pode haver considerável mitigação na hostilidade. Ora, aquele que pode brincar com algo antes de realizá-lo, tem menor chance de vir a fazer isso. Impulsos de rivalidade, a tendencia de competição, assim como a agressividade e a hostilidade, quando não encontram uma maneira de serem bem elaboradas na infância, tendem a fixarem-se e se estenderem para a vida adulta o que dificultará a capacidade de amar. Quanto maiores forem as oportunidades de brincar com uma fantasia, antes que isso tome proporção da realidade, mais bem elaborada será quando vir a se realizar. 


Lúdico


O ensaio lúdico é uma chance de se brincar com certa experiência sem que isso precise ser manifestado na realidade. A agressividade que existe na criança, encontra no jogo violento uma representação lúdica. Por maior que seja a dificuldade do ser humano de se responsabilizar pelo que brota dentro de si mesmo, ainda assim, não são os jogos violentos que geram a hostilidade do humano, mas a violência do ser humano que o fez criar jogos violentos. Faz nos jogos para não o fazer na realidade. Um dos grandes avanços dentro da psicanálise propostos por Melanie Klein foi a ludoterapia. Um modelo de aplicabilidade psicoterapêutica em crianças pelo brincar.  Melanie Klein propunha um ambiente em que a criança pudesse aprender a brincar, aprender, a se iludir, já que, muitas vezes, ela teria sido arremessada em direção à realidade de forma tão bruta, que por medo disso, viera a desaprender, ou ainda, em alguns casos, nunca havia aprendido brincar. No lar onde esteja havendo o cultivo de um ambiente emocional e afetivo saudável, por mais violentos que possam ser os jogos, isso não terá a propriedade de influenciar de maneira nociva. Por outro lado, quando o lar está desestruturado e configurado de maneira tóxica, inúmeros elementos podem agir de maneira danosa, até mesmo um simples jogo.


Vício Eletrônico


Os jogos eletrônicos podem se tornar nocivos em uma configuração peculiar. Quando são usados na tentativa de suprir a ausência dos fatores das funções maternas e paternas. Quando os pais não dispõem de tempo para dar atenção a criança e então, tentam entretê-la com aparelhos eletrônicos. Nessa situação a criança, sozinha e carente de atenção e de afeto, tende a se apegar de forma patológica ao aparelho. De maneira desmedida e sem limites a criança adere ao funcionamento do aparelho e passa a dispensar qualquer outra atividade, inclusive a atenção dos pais, o que antes tanto ansiava. Todo interesse de uma criança se concentra em seus pais e ela insistirá em receber a atenção deles até as últimas consequências.  No entanto, quando, definitivamente reconhecer que não consegue isso, se apegará a algum outro recurso. Então, os jogos eletrônicos podem ser de grande poder hipnótico e passar a prendê-la sobremaneira.  


Intervenção clínica 


Quando tratamos da aplicabilidade psicoterapêutica dentro da psicanálise, tentativas de propor métodos preestabelecidos ou receitas de como fazer, são sempre inadequadas. Isso ocorre já que o desenvolvimento das sessões deve ocorrer espontaneamente, onde o psicoterapeuta deve estar aberto a acolher o conteúdo que o paciente venha a trazer. A saber, quando proponho aqui acolhimento, isso está subordinado à um ambiente que esteja livre de críticas, julgamentos, condenações, bajulações, seduções, assim como tentativas de convencimento. Sendo assim, na demanda do abuso no uso de jogos eletrônicos não seria diferente, visto que se instalou um funcionamento compulsivo, o que precisa ser reparado. A reparação dessa forma de funcionar só pode ser feita através da atenção dedicada do psicoterapeuta, dentro de um vínculo saudável que possa vir a se formar. Me parece que a atitude de se entrar na experiência, junto daquele que joga compulsivamente seria uma maneira de reconhecer o universo onde o sujeito ficou prisioneiro. Dessa maneira e a partir de um vínculo de confiança, passa a existir uma chance de se estabelecer uma cumplicidade temporária, onde aos poucos passa a ser possível criar juntos, recursos para sair desse estado.


Joãozinho precisava muito de companhia para brincar, necessitava de atenção. 

Mas, ninguém tinha tempo para brincar, lhe deram um aparelho celular, então.

Apegou-se a isso para o tempo passar, foi isso o que fez o pequeno João.

Certo dia, por “viciado em celular” teve a sua condenação.

Decidiram, então, arrancar o aparelho celular de sua mão.







quarta-feira, 29 de maio de 2024

ACOLHIMENTO E NEUTRALIDADE - Prof. Renato Dias Martino



Uma pessoa, nas redes sociais, fez um comentário assim, embaixo de uma postagem: “Ai que fofo, esse negócio de psicanálise do acolhimento, como é fofo isso!” Não é fofo. Não vamos romantizar o acolhimento. É uma outra questão. A questão da psicanálise do acolhimento vem do desenvolvimento da ideia de que é tão somente pelo acolhimento que pode haver algum desenvolvimento, alguma possibilidade de reparação no âmbito emocional ou afetivo. Não existe outra forma de ocorrer esse tipo de experiência reparadora que não seja pelo acolhimento. Qualquer outra tentativa de técnica que seja aplicada dentro da clínica, vai ser equivocada e malsucedida. Na melhor das hipóteses, vai ser inócua, vai ser inútil, não vai surtir qualquer efeito e na pior das hipóteses, vai criar uma defesa muito maior do que aquela que está sendo manifestada ali. Então, o acolhimento é uma questão fundamental dentro da clínica psicanalítica. A possibilidade de se abrir um espaço, de se propiciar um espaço emocional-afetivo livre de críticas, livre de bajulação, livre de tentativa de convencimento, livre de tentativa de sedução, de julgamento. Isso é fundamental. Não é romantizar a psicanálise. A questão não é que a psicanálise do acolhimento é uma psicanálise fofa, é que na realidade, é a única forma de se conseguir alguma expansão é pelo acolhimento. Todas as outras formas são muito belas dentro da perspectiva racional, ou intelectual, mas não funciona.

TEORIA OU TOLERÂNCIA 

Acolher diz respeito a rebaixar o resgate dos dados da memória, diz respeito a rebaixar a expectativa, o desejo em relação ao paciente, diz respeito a tolerar a sua ignorância frente à experiência que está acontecendo ali, frente ao material que o paciente traz. Acolher diz respeito a prestar atenção, sinceramente. Então, isso tudo é muito mais difícil do que sentar na frente de um livro, ou sentar numa cadeira de uma faculdade, ou de um curso de formação de psicanálise e se entupir de teoria.

AMOR E SINCERIDADE

A questão é amor e sinceridade. O acolhimento tem esses dois elementos imperiosos na sua configuração. Se doar ao paciente, mas se doar dentro do possível, dentro da sinceridade daquilo que é possível se doar. Não para além daquilo que você consegue, mas se doar dentro do seu limite. Amor e limite, dentro da sua sinceridade e isso é extremamente difícil de praticar. Ou o sujeito retém a sua doação o seu amor e aí não é amor, ou então ele passa da conta e vai para além daquilo que é sincero, gerando depois um desdobramento nocivo.

AMOR E DOR

Amar é doloroso. A rima mais adequada para o amor é dor. O sujeito não é capaz de amar, se ele não aprendeu a tolerar a dor.

NEUTRALIDADE

Muito se fala da neutralidade do psicanalista. Neutralidade é uma conversa fiada. A neutralidade foi uma colocação teórica que o Freud colocou nas obras dele e que na verdade ele nunca praticou. O Freud era um cara muito afetivo. O Freud era um cara que tinha uma intimidade muito grande com os pacientes dele. A neutralidade, na verdade, é muito conveniente para o sujeito que não é capaz de amar sinceramente. A neutralidade é muito conveniente para o analista que não é capaz de ser carinhoso. E quando eu falo carinhoso, eu não estou falando meloso. O carinho tem limite para ser verdadeiro. É um carinho respeitoso, onde existe ali, uma fronteira muito clara do que transcende e vira desrespeito.

NEUTRALIDADE E O ANALISTA REAL 

Um analista que está exercendo a neutralidade não está sendo ele mesmo. Ele não está sendo real e não sendo real ele não vai conseguir acessar a realidade do seu paciente. Rebaixar a memória, rebaixar a expectativa e ser capaz de tolerar a sua ignorância é justamente a possibilidade de estar sendo real. Porque a tua realidade está no aqui e agora, não está naquilo que você lembra não está naquilo que você gostaria que fosse e muito menos naquilo que você sabe, mas está naquilo que você está sendo. Então, a neutralidade é muito conveniente para o sujeito que não está conseguindo ser real e está dissimulando. Estando dissimulando, ele vai acessar a dissimulação do seu paciente e não a verdade. Quando você está sendo verdadeiro, você convida o outro a ser verdadeiro, quando você está sendo falso, você convida a falsidade do outro.

PSICANÁLISE DOS VÍNCULOS 

Uma das maiores contribuições do Bion dentro da psicanálise foi justamente essa possibilidade de deslocar a psicanálise do sujeito para o vínculo. Dentro da psicanálise pós-bionana, por assim dizer a gente passou a olhar para o vínculo que se estabelece entre o analista e o paciente. Porque, muitas vezes aquilo que ele manifesta no vínculo com as outras pessoas, está contaminado do despreparo, ou da capacidade do outro de manter um vínculo saudável e dentro da análise ele consegue estabelecer um vínculo saudável. Onde passa a ser possível uma boa avaliação do funcionamento dele, onde ele não está sendo ameaçado por julgamento, onde ele não está sendo criticado, onde ele não está sendo bajulado, elogiado, onde não estão tentando convencê-lo de nada. E aí, ele pode ser real ali a psicanálise do vínculo. Traz essa possibilidade enorme de um avanço, numa real avaliação do funcionamento do sujeito. Então, muitas vezes o sujeito chega dizendo assim: “Ah! Eu sou uma pessoa muito autoritária, muito impulsiva.” Aí você diz assim: “Puxa vida! Você me perdoa, mas eu não consigo ver isso em você!” E aí, você começa a perceber que ela, até pode ser isso, nos vínculos que ela vive lá fora, mas ali dentro, onde ela está podendo ser real, ela não é. Ou seja, ela está se defendendo lá fora e muitas vezes ela nem tem essas características, mas o outro diz para ela que ela tem essas características como uma conveniência muito grande de controlá-la, de alguma forma, ou de obter um benefício dela.


quinta-feira, 23 de maio de 2024

AJUDAR - Prof. Renato Dias Martino


Você só vai conseguir ajudar uma pessoa que solicitou ajuda. Se a pessoa não solicitou ajuda, não é função sua ajudar esta pessoa. Aquele que tenta ajudar quem não solicitou ajuda, está sendo intromissivo.  Uma coisa é você estar disponível a ajudar, outra coisa é você se intrometer na vida do outro, acreditando numa suposta ajuda. Até porque, muitas vezes, o sujeito está manifestando ali, um suposto sofrimento porque ele pode está tendo um benefício com aquele sofrimento. Ele pode carregar um sentimento de culpa muito grande e está querendo mostrar para todo mundo o quanto ele sofre, para apaziguar esse sentimento de culpa. E aí, se você for lá ajudá-lo, você está fazendo desserviço ao sintoma de autopunição dele e ele vai ficar bravo com você. “Eu não pedi ajuda!” “Puxa, deixa eu me autopunir em paz!” “Estou comendo gordura, estou fumando cigarro, estou me intoxicando, estou me autodestruindo, porque acredito merecer, porque carrega um sentimento de culpa, sabe lá porquê e você vem aqui dizer para mim, que eu tenho que parar de fazer isso?” O sujeito tem todo direito de fazer isso. Agora, quando ele solicita ajuda, quando ele chega até você e diz assim: “Por favor, me ajude?” Aí, mudou tudo. Aí, virou a chave. E ainda assim, vai ser difícil. Junto com o pedido de ajuda, irá uma série de resistências a ser ajudado.



domingo, 19 de maio de 2024

FUTURO E DESEJO - Prof. Renato Dias Martino


FUTURO E DESEJO

Quando a gente fala de futuro, daquilo que está por vir, isso está relacionado, diretamente ao desejo, a expectativa. Aquilo que se deseja que venha e quanto isso passa a ser nocivo dentro da prática clínica. Não só dentro da prática clínica na psicoterapia, mas na nossa vida cotidiana mesmo. Todas as vezes que a gente alimenta, que a gente estimula a expectativa sobre aquilo que virá, a gente vai, de alguma forma, se desconectar daquilo que está sendo. Dentro da prática clínica isso passa a ser um sacrilégio, mas dentro da nossa vida cotidiana, todas as vezes que estamos estimulando as expectativas, estamos nos desconectando do tempo presente e não estamos sendo capazes de viver as experiências do tempo presente. O problema não é criar expectativas, as expectativas vão surgir, vão ser criadas espontaneamente. Naturalmente, as expectativas vão se criar. O Bion até coloca que o bebê nasce com uma expectativa inata de seio. Não existe a possibilidade de não criar expectativas, mas existe a possibilidade e carecemos de renunciá-las. 

RENÚNCIA 

Para que o sujeito seja capaz de renunciar de um desejo, ele precisa primeiro reconhecer que ele deseja. Muitas vezes, ele não consegue, sequer reconhecer que ele deseja alguma coisa. E aí, ele se defende por desejar aquilo, ele se defende daquele desejo, e aí, ele se afasta cada vez mais da possibilidade de elaboração. Reconhecer esse desejo, passar a respeitar a si mesmo porque tem este desejo e se responsabilizar por desejar isso. A partir desses três “Rs”, ele passa a ser capaz de um quarto “R”, que é a renúncia.

SINTOMA

O desejo vai acontecer. A tendência a expectativa é inata do ser humano. Ele vai desenvolver desejos. No entanto, o desejo, para ser saudável, ele precisa ser renunciável. O desejo saudável é aquele que o sujeito consegue renunciar. Se ele conseguir renunciar esse desejo é saudável. Se ele não conseguir renunciar, esse desejo é um sintoma.




terça-feira, 14 de maio de 2024

O TEMPO DA PSICANÁLISE - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente fala de psicanálise, pelo menos dentro deste modelo que nós refletimos aqui e passamos a dar o nome de psicanálise do acolhimento, a tolerância é elemento fundamental. A tolerância quanto ao tempo dos processos e nisso a psicanálise está em concordância com as formulações religiosas, quando os devotos dizem que as coisas acontecem no tempo de Deus e não no tempo do homem. Dentro da psicanálise aqui, a gente poderia falar que as coisas acontecem no tempo da realidade, independente da urgência da demanda do sujeito. Para que a gente possa praticar esta psicanálise é imperioso que a gente possa desenvolver tolerância quanto aos processos, seja o processo que for. Precisa haver um tempo adequado para cada processo. O sujeito que não tem essa tolerância, o sujeito que ainda mantém essa urgência da sua demanda, não vai se dar bem com este modelo psicoterapêutico. É por isso que é muito complicado o ensino da psicanálise dentro das universidades, porque o sujeito sai da universidade querendo resultado, com um desejo de mostrar aquilo que ele conseguiu no seu tempo de formação, para a sociedade, para sua família e antes de tudo, para si mesmo. E a psicanálise não pode se comprometer com resultados. Porque, nós não sabemos o que realmente é um resultado. Por conta disso, o sujeito acaba buscando outras promessas, outras propostas de aplicabilidade psicoterapêuticas e outras propostas de teorias. Ou ainda, invenções como psicanálises breves, ou propostas de psicoterapias que prometem um resultado breve que seja dentro da prática psicoterapêutica, o que configura-se num grande perigo, porque a gente sabe muito bem que o funcionamento emocional-afetivo não pode trabalhar por uma demanda do que se deseja que aconteça, mas vai acontecer no seu próprio tempo.

terça-feira, 7 de maio de 2024

MEMÒRIA - Prof. Renato Dias Martino



Normalmente, a gente tem a ideia de que um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito favorecido, é um sujeito mais bem sucedido, por assim dizer, do que o outro que não tem uma memória muito boa. Na verdade, um sujeito que é capaz de ter uma memória boa quer dizer que ele tem na sua mente, um cabedal enorme de dados armazenados e isso, muitas vezes, não é saudável. O saudável é viver uma vida espontânea, no fluxo contínuo da vida. 

MOTIVO DA MEMÓRIA

A memória, por si só, é mantida por medo de esquecer, por um “deveria ser”. Quando o sujeito tem uma boa memória, tem esta capacidade, porque o resgate daquela memória pode trazer para ele, ou tirá-lo de certa ameaça, ou trazer para ele a aprovação do outro. A memória tem um objetivo claro que é o benefício superficial do sujeito. Não tem a ver com questões profundas. 

MEDO DE PERDER

A memória está dentro da perspectiva do obter. Eu tenho na memória e se eu tenho na memória, eu também tenho medo de perder. Porque o medo de perder está relacionado ao desejo de ter.

MEMÓRIA FRIA

Para que a memória possa ser bem registrada e possa ser resgatada quando necessário, de maneira ágil, ela não pode estar irrigada de emoções nem de afetos. Um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito que não relaciona a esses dados, emoções, ou afetos, sentimentos, para que esses dados sejam armazenados de maneira fria e calculista, para serem resgatados da mesma forma quando necessário for. 

MEMÒRIA E DEFESA

Muitas vezes, o sujeito tem uma boa memória para esconder, para tamponar, por assim dizer para tampar questões afetivas desconfortáveis de serem relembradas um sujeito de boa memória pode estar usando isso para se defender de algo que é muito doloroso para ele.

LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS

Uma rica contribuição do Freud, LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS. Quando o sujeito vive uma experiência extremamente dolorosa e desconfortável, ele tende a registrar alguma outra coisa no lugar daquela experiência. Ele registra um fato que foi relacionado àquilo. Se lembra deste fato, mas não consegue se lembrar daquilo que está por baixo por assim dizer.

MEMÒRIA OU RECORDAÇÃO

Memória e recordação. A memória não pode estar vinculada as emoções porque as emoções desorganizam as emoções propõem transformação e os dados da memória não podem estar em transformação porque quando o sujeito for resgatar já não é mais o mesmo e aí não é memória. Mas, por outro lado, aquilo que está na ordem das recordações são, o tempo todo, transformações. Cada vez que você recorda alguma coisa, você recorda de uma maneira nova, de uma outra forma, porque diz respeito ao vínculo. Por mais que seja de alguma coisa que já passou, você, ao se transformar, você se vincula a aquele dado armazenado na memória de maneira diferente. Por isso é recordação, cada vez que você recorda você dá outra vez para o coração. Re-cor-dar! Então, isso vai se transformando. Isso vai se nutrindo. Isso vai crescendo, se expandindo, ficando cada vez mais nobre. Diferente dos dados da memória que são sempre do mesmo jeito. Não só o resgate do que foi registrado na memória, diz respeito à dificuldade de lidar com aquilo que está acontecendo no presente, mas também o próprio registro do fato. Quando o sujeito tem um conflito, quando o sujeito não é capaz de viver de maneira espontânea aquilo que está acontecendo, ele tende a registrar aquilo na sua memória. Diferente porque, isso espontaneamente vem dentro da perspectiva da recordação, que é diferente de buscar, de resgatar isso, dentro dos dados armazenados na memória.

DE NOVO

Nós temos três palavras que estão associadas de maneira muito bela. Então, a gente tem a palavra recordar, a gente tem a palavra respeito e a gente tem a palavra reconhecimento. As três palavras começam com o prefixo RE, que quer dizer “de novo” e todas elas têm essa conotação de, novamente submeter a um processo de renovação. Recordar, “dar novamente ao coração”, respeito, “prestar atenção novamente” e reconhecimento, “conhecer de novo”.

RECONHECER E GRATIDÃO

A ideia de recordar está ligada ao respeito, está ligada também ao reconhecimento. E a palavra reconhecimento, ela também tem esta polissemia, esses sentidos diversos, que podem ser atribuídos a ela. Por exemplo, reconhecer é conhecer novamente, reconhecer é também uma extensão da gratidão. Quando o sujeito reconhece alguma coisa, ele está sendo grato a aquilo. Para que o sujeito seja capaz de reconhecer, ele precisa ter desenvolvido a capacidade de gratidão.

RECORDAR E TRANSFORMAR

 Quando a gente está falando de emoções, quando a gente está falando de afetos, de sentimentos, a gente não pode ligar isso a certezas, mas sempre há um fluxo, há algo que é incerto, porque está em transformação. Então, a recordação vem como algo que é contínuo, é um processo. O resgate do que está na memória não tem a ver com processo, tem a ver com resgatar algo que foi pré-estabelecido, foi armazenado e agora é resgatado de maneira, quanto mais precisa possível. A recordação é rica, ela se transforma. Cada vez que você amadurece um pouco, você se recorda de algo de maneira diferente. Antes eu me recordava de uma forma, hoje eu me recordo de outra forma e futuramente me recordarei de outra maneira diferente dessas. Então, não pode ter certeza.



quarta-feira, 1 de maio de 2024

PODCASTS GEPA – TEMAS DA PSICANÁLISE - Prof Renato Dias Martino



Então, quando a gente fala de psicologia, nós estamos falando do estudo da parte psíquica do sujeito. Logos quer dizer conhecimento, estudo, saber sobre o aparelho psíquico. Psicologia estudo da mente. Quando a gente fala de psicoterapia, a gente está falando do sujeito que cuida da mente. Terapia cuidado e psique parte psíquica, da mente. Um psicólogo não é necessariamente um psicoterapeuta e um psicoterapeuta não precisa necessariamente ser psicólogo. Eu posso ser um psicoterapeuta e me utilizar de inúmeros outros recursos que não seja aquele que a faculdade de psicologia se propõe a ensinar. E um psicólogo não é, necessariamente um psicoterapeuta. Ele é um estudioso da mente, não é um sujeito que se propõe a cuidar da mente. Psicanálise, nós estamos falando de um modelo de psicoterapia. Psicanálise é uma forma de aplicabilidade de uma terapêutica do psíquico. É uma forma de se cuidar do psíquico. A psicanálise não é uma psicologia. A psicanálise não se propõe saber sobre a mente, ela se propõe cuidar da mente e a partir deste cuidado, você vai adquirindo ali, um reconhecimento do funcionamento emocional e afetivo que é a parte psíquica. Então, um psicanalista, ele não se propõe a conhecer, mas ele se propõe a cuidar e nesse cuidado ele acaba conhecendo. Mas, ele não pode se convencer disso que ele está conhecendo.

NASCE UM PSICANALISTA

O psicanalista ele nasce a partir da percepção de uma dor psíquica. Sentiu, essa dor psíquica, buscou a psicoterapia. E aí então, existe a possibilidade de se nascer um psicanalista.

TENTAR CONVENCER 

Essa propensão do psicólogo, do psicoterapeuta comum, de tentar convencer o outro de alguma coisa e na realidade, tentar convencer o outro é uma grande falta de respeito. Quando o outro está aberto, uma palavra é transformadora, mas se ele não tiver aberto milhões de tentativas vão ser em vão.

MATURIDADE E ESCOLHA

A partir do desenvolvimento dessa maturação emocional, que vai se desdobrar na maturação dos vínculos afetivos, o sujeito vai, cada vez menos tendo escolhas, porque ele vai entrando num acordo com a realidade. E aí, ele vai começar a ser guiado por um caminho que é um só. Ele vai perceber aquilo que é nocivo e por ser nocivo ele não vai se aproximar mais disso, que pode intoxicar, pode machucá-lo, e aí, não tem escolha, o caminho é um só. O caminho é o da saúde e o da construção, da expansão, do próprio aparelho psíquico. A psicoterapia, dentro da psicanálise do acolhimento, propõe justamente, propiciar um ambiente afetivo, livre de tentativa de convencimento, de bajulação, de crítica, de julgamento, para que possa haver uma reparação do aparelho emocional-afetivo e que ele possa estar de acordo com a realidade e perceber que o caminho é um só.

AMBIENTE SAUDÁVEL

Para que o ambiente seja emocionalmente saudável ele precisa contar com dois elementos básicos, que é o amor e a sinceridade. E quando a gente coloca esses dois elementos juntos a gente vai pensar assim, o amor dentro do limite que o sujeito é capaz de se doar. Lembrando que a gente, quando fala amor aqui, a gente está falando dentro da conotação da doação, da dedicação. Amor aqui, de maneira alguma, está vinculado a desejo, a se sentir atraído, mas na capacidade do sujeito se doar ao outro. Amor, dentro do limite, logo, vinculado a sinceridade. A psicoterapia precisa estar configurada nesse formato, nesse modelo.

PSICANÁLISE PARA TODOS

A psicanálise está aí para todo mundo, mas nem todo mundo está aí para psicanálise.

SUFICIENTEMENTE BOM

Imprescindível que a gente possa contar para desenvolver essa tolerância, um ambiente suficientemente bom, como recomendaria o nosso grande Winnicott. Quando a gente fala de suficientemente bom, tanto dentro da perspectiva da mãe suficientemente boa, ou do ambiente suficientemente bom, a gente está falando de uma proporção saudável.

VAI PASSAR

O suicídio acaba sendo uma atitude definitiva por uma situação que é temporária. É resolver de uma vez por todas alguma coisa que na realidade, tanto a situação ruim quanto a situação boa, vai passar.

CONCORDAR

Dentro da psicanálise do acolhimento, a gente tem uma mudança catastrófica dessa ideia de concordar. Concordar, para gente não é quem está certo, ou quem está errado, se você está certo e eu concordo com você, mas é estar junto de coração. “COM + CORDES” COM = conjunto e CORDES de coração e esta é uma questão extremamente difícil. É muito mais fácil se a gente tiver dentro da perspectiva do saber. De concordar, quem está com a razão, de quem está certo e é muito mais difícil você estar junto de coração, porque se você estiver junto de coração não importa quem tá com a razão.

REALIDADE E DESILUSÃO

Que você vai se afastando cada vez mais da realidade e cada vez vai ficando mais distante de aprender a lidar com esta mesma realidade. E o grande problema da realidade é que cada aspecto da realidade que você reconhece é uma desilusão.

O QUE É PSICANÁLISE 

Hoje a psicanálise é bem diferente do que aquilo que foi quando o Freud começou a desenvolver. Quando o Freud desenvolveu, ele tinha, ele começou pela técnica da hipnose. Ele tinha propostas que na nossa prática clínica hoje não fazem muito sentido. A gente tem uma outra metodologia. Uma das questões fundamentais é que o Freud tinha uma característica muito mais paterna, da figura paterna, dos fatores da função paterna. A prática clínica dele acabava sendo formatada como o modelo do pai. A partir da introdução da Melanie Klein, a gente vai criando, vai introduzindo, a gente vai vendo ser introduzido, um modelo materno, um modelo que inclui os fatores da função materna. O Winnicott traz a questão do holding, do handling, da apresentação do objeto, que são características que também são presentes na prática clínica. E aí, com o Boin isso fica mais evidente ainda, quando ele coloca a ideia da continência, da função-alfa. Todos esses elementos que estão presentes também na função materna. Isso não quer dizer que os fatores da função paterna foram perdidos, mas que acrescentou-se as questões da função materna também na prática da psicoterapêutica psicanalítica.


AMBIENTE DE PASSAGEM

A gente tem a noção, dentro dessa prática psicanalítica contemporânea de que a psicanálise é um ambiente de passagem. Então, não é um ambiente de conhecimento. mas é um ambiente de reconhecimento. A cada encontro, se propor a conhecer novamente, como se nunca tivesse conhecido.

DEPRESSÃO PUERPERAL

Quando a gente fala dessa depressão puerperal, depressão pós-parto, quando o casal está integrado, o companheiro, o pai ele vai sofrer tanto quanto a mãe. E a gente não está falando aqui de uma depressão pós-parto patológica, a gente está falando deste luto da mãe que precisa abrir mão da sua própria vida pela vida do bebê que está nascendo e depois uma série de outros lutos, essa coisa do afastamento, do desmame do afastamento da a criança, que vai se desenvolvendo. Então, o companheiro, o pai também vai sofrendo tudo isso, se ele estiver integrado no casal. A mãe se afastando do bebê é um modelo de desintegração. Algo que estava junto que agora se separa fisicamente, mas emocionalmente, acontece o inverso, que é a integração. O físico desintegra, o emocional se integra. E a função paterna é justamente aquela que vai vir para dar esse formato, esse acolhimento, continência para essa integração.

MULHER E MÃE

A mulher deixa de ser mulher para ser mãe e depois que a criança começa a se desenvolver, ela precisa voltar a ser mulher. Claro, que isso tudo simbólico. Ninguém está falando aqui, que uma coisa anula outra, mas ela precisa colocar em standby, por assim dizer, a sexualizada feminina, no momento em que ela está ali na maternagem e depois ela precisa retornar com esse teor feminino. Assim que a criança começa a se desenvolver e isso é um grande problema. Muitas vezes, a mãe nunca se sentiu muito bem integrada sendo mulher. Ela sempre se sentiu muito insegura sendo mulher e ela acaba se implicando na função materna de uma maneira tão viciante, por assim dizer, que depois ela sente uma dificuldade muito grande em voltar a ser mulher, que é num formato onde ela tinha grande segurança.

DEIXAR DE SER

O fluxo da vida está muito mais em “deixar de ser”, do que “tornar-se”. Maturação é tolerar deixar de ser, não tornar-se alguma coisa. Desde pequeno, a gente aprende aquilo que a gente deveria ser. Existe uma expectativa, na verdade, existe uma expectativa antes mesmo da gente nascer, já existia uma expectativa. Um fluxo saudável da vida é justamente desobstruir todos esses “deveria ser” para conseguir um “deixar de ser”.

NECESSIDADE DA FUNÇÃO PATERNA

O homem foi se afastando da família, essa família foi aprendendo “dar um jeito” de viver sem esse homem e acaba com que a sociedade hoje recusa o reconhecimento da necessidade da função paterna presente. E aí, a gente vai percebendo homens inseguros do que é ser homem quando ele precisa tomar uma atitude e mulheres que não são capazes de avaliar os homens dos quais ela vem se envolver. São dois desdobramentos dentre vários que são os prejuízos da ausência da função paterna.

AUSÊNCIA PATERNA

Dos maiores prejuízos na função paterna e não do pai, porque não é necessariamente o pai biológico, mas é um sujeito masculino que possa exercer a função paterna. A ausência dessa função paterna, me parece que traz dois grandes prejuízos. Um deles a dificuldade de reconhecimento de limites e o outro é a dificuldade de provisão, de ser capaz de prover. Um primeiro momento, prover-se a si mesmo, em segundo momento prover o lar. Então, nós vemos umas uma sociedade onde a falta de limites, a falta da capacidade de reconhecimento de limite, de respeitar o limite de si mesmo, seja se colocando em situações de risco e dificuldade de reconhecer o limite do outro, onde o sujeito abusa do outro e também a dificuldade de dar manutenção a sua auto-provisão, administração financeira. E quando o sujeito não consegue fazer isso consigo mesmo, muito menos ele vai conseguir com a família, ou qualquer outra instancia que ele precisar.

VÍCIO NO FRACASSO

Muito se fala hoje de relacionamentos tóxicos. Essa ideia se expande, não só para os relacionamentos, mas ela também se expande à substâncias tóxicas, ou qualquer coisa que possa fazer mal para o sujeito. O grande problema está por trás do uso da substância, ou por trás do relacionamento tóxico. Muitas vezes, existe algo por trás que faz com que o sujeito busque o relacionamento tóxico, busque o uso da substância. Um dos casos mais difíceis de tratar, esse tipo de situação, é quando o sujeito se sente merecedor daquilo. Quando, o sujeito não é viciado na substância, mas ele é viciado no fracasso de estar usando aquela substância. Ele não está implicado num relacionamento tóxico com o outro, mas ele está implicado num relacionamento tóxico com ele mesmo e não se sente merecedor de um relacionamento saudável e aí, isso é extremamente difícil de tratar.

DEVERIA SER

Na realidade, o sujeito acaba não confiando em si mesmo, não confiando na sua autoavaliação e ele acaba usando o critério do outro para estabelecer aquilo que ele deveria ser e é uma grande emboscada, porque esse deveria ser é insaciável. Ele não vai conseguir nunca exatamente suprir isso.

SENTIR DOR OU SOFRER

Parece que existe uma diferença muito grande de sentir a dor e sofrer a dor. O sujeito pode estar sentindo a dor, mas não ser capaz de se submeter ao processo de sofrer essa dor. Porque, quando ele sofre a dor acontece a transformação. Uma coisa é você padecer da dor e outra coisa é você sofrer a dor. Quando você padece da dor, você está num estado cristalizado que não tem transformação. Quando você passa a sofrer a dor, aquilo ali, vai te proporcionando a possibilidade de mudança e transformação.


RECONHECIMENTO

Transformação é um resquício daquilo que falhou lá atrás, na primeira infância.  A criança não pode ser reconhecida pelos seus pais e ele acaba tendo um autoreconhecimento deficitário e ele passa a vida toda procurando a aprovação do outro, porque na realidade não foi reconhecido.